
Por: António Medina*
A ilha de Santo Antão, outrora vibrante e cheia de vida nos seus vales verdejantes e montanhas cultivadas, enfrenta hoje uma realidade inquietante: está a tornar-se uma ilha deserta. A ausência de políticas eficazes para fixar os jovens no território, sobretudo nas zonas rurais, está a empurrar sucessivas gerações para fora da ilha — rumo a outras paragens em busca de melhores condições de vida, emprego e dignidade.
O que se observa é um fenómeno silencioso, mas devastador: o esvaziamento humano de Santo Antão. Os jovens estão a abandonar os campos, as aldeias, os pequenos povoados agrícolas, e com eles vai embora também o futuro da ilha. A agricultura, que durante décadas sustentou comunidades inteiras, está a ser praticada quase exclusivamente por pessoas idosas. Os jovens, na sua maioria, recusam-se a seguir essa via, não porque sejam preguiçosos, mas porque não veem nela uma alternativa viável e digna de sustento.
O que falhou? Durante os últimos anos, assistimos a investimentos importantes na ilha — como a construção da estrada Porto Novo–Janela ou da barragem de Canto de Cagarra — que melhoraram as infraestruturas e as condições para o desenvolvimento agrícola. No entanto, essas obras, por si só, não conseguem travar o êxodo juvenil. A juventude precisa de mais do que betão e betuminoso: precisa de oportunidades concretas, de políticas públicas corajosas, de esperança.
Apesar de existirem programas de formação profissional, estes são ainda insuficientes, pouco articulados com o mercado local e, muitas vezes, desconectados da realidade vivida pelos jovens do campo. Sem acesso a crédito, sem incentivos à inovação agrícola, sem redes de apoio ao empreendedorismo rural, os jovens acabam por ver na migração a única saída possível.
Estamos, portanto, diante de uma emergência demográfica e social. Se nada for feito com urgência, a ilha perderá a sua força produtiva, a sua identidade agrícola e a sua juventude — e com isso, o seu futuro.
A dinâmica migratória em Cabo Verde, particularmente na ilha de Santo Antão, é marcada por um padrão histórico de deslocamento populacional em direção a centros urbanos nacionais mais desenvolvidos e, sobretudo, ao exterior. De acordo com os dados do Instituto Nacional de Estatística, a população residente em Santo Antão passou de 43.915 habitantes em 2010 para 36.950 em 2021, representando uma redução de aproximadamente 15,9% em pouco mais de uma década. Este decréscimo reflete não apenas a redução da taxa de natalidade ou o envelhecimento da população, mas, sobretudo, o peso estrutural dos fluxos migratórios.
Os dados do Censo de 2000 revelaram que mais de 18 mil naturais de Santo Antão residiam em outras ilhas, o que representava cerca de 41,7% de todos os migrantes internos do país. Em contraste, apenas 1.642 pessoas migraram para a ilha no mesmo período. Este fenómeno confirma que Santo Antão, apesar do seu potencial agrícola, turístico e cultural, permanece marginalizada no modelo de desenvolvimento nacional, com fracas infraestruturas, poucas oportunidades de emprego qualificado e acesso limitado a serviços públicos essenciais.
Diversas fontes apontam que cerca de 58% dos trabalhadores naturais de Santo Antão vivem no estrangeiro ou emigraram para outras ilhas. Tal projeção corresponde a aproximadamente 25.500 pessoas. Esta diáspora massiva configura-se como uma estratégia de sobrevivência e de mobilidade social das famílias locais. No entanto, ela também revela a incapacidade do Estado em garantir condições de vida dignas e equitativas em todo o território nacional.
Os efeitos acumulados da migração interna e externa sobre Santo Antão são profundos:
- Económicos: perda de mão de obra jovem, estagnação das atividades produtivas locais e aumento da dependência das transferências da diáspora;
- Sociais: envelhecimento populacional, feminização dos agregados familiares e enfraquecimento das redes de apoio comunitário;
- Culturais: erosão dos modos de vida tradicionais, abandono das zonas rurais e fragmentação das identidades locais.
A emigração constitui uma resposta sistémica a um modelo de desenvolvimento que concentra oportunidades em algumas regiões e ilhas, em detrimento de outras. A persistência dos fluxos migratórios revela um déficit estrutural das políticas públicas em promover um desenvolvimento territorialmente equilibrado.
A resposta passa, necessariamente, por uma estratégia integrada de valorização da juventude rural. É preciso transformar a agricultura num setor atrativo, moderno, lucrative e sustentável.
Isso exige:
- Incentivos à instalação de jovens agricultores, com acesso facilitado à terra, à água, ao crédito e a Tecnologia;
- Formação técnica adaptada à realidade local e às novas exigências do mercado;
3. Programas de empreendedorismo jovem rural e inovação no agro-negócio;
4. Aposta na inclusão digital e na conectividade das zonas remotas;
5. Campanhas públicas para revalorizar o campo, as profissões rurais e a identidade agrícola da ilha.
Além disso, o Estado deve promover políticas de coesão territorial, reforçando os orçamentos municipais e apostando na descentralização como forma de levar soluções reais para onde os problemas acontecem.
O abandono da juventude de Santo Antão não é um destino inevitável. É o resultado de escolhas — ou da falta delas. E como tal, pode e deve ser revertido com vontade política, visão estratégica e compromisso com as futuras gerações.
Porque, sem juventude, Santo Antão não terá futuro.
20 de maio de 2025
António Medina
Geógrafo, doutorando em Ciências Sociais
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