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Sociedade

Vistos: Viajar para os Estados Unidos em negócios ou turismo tornou-se impossível para a maioria dos cabo-verdianos

A partir do dia 21 de Janeiro, os portadores de passaporte cabo-verdiano que pedirem visto, para viajar em negócios ou turismo para os Estados Unidos da América (EUA), estarão sujeitos a ter de pagar uma caução de até 1500 dólares (mil e quinhentos contos) para o efeito. É que Cabo Verde passou a integrar a lista de 38 países que estão sujeitos a este tipo de restrição. A medida, que visa combater a emigração ilegal, deita por terra o sonho de muitos cabo-verdianos que já faziam contas à vida para irem ver os Tubarões Azuis jogar no Mundial de Futebol de 2026.

Depois de ter visto ser retido o financiamento de mais um compacto do Millennium Challenge Corporation (MCC) para apoiar o desenvolvimento regional de Cabo Verde, em Dezembro passado, Cabo Verde é agora confrontando com mais uma medida restritiva do governo de Donald Trump. A partir do próximo dia 21 deste mês, qualquer detentor de passaporte cabo-verdiano passa a estar sujeito a ter de pagar uma caução de até 1500 dólares para obter visto para os EUA, seja em negócios ou turismo.

A informação avançada na noite de terça-feira, 6, pela Embaixada dos EUA dá conta que este arquipélago passou a integrar a lista de 38 países que estão sujeitos a este tipo de restrição para que os seus cidadãos possam pedir vistos para viajar para os EUA em negócios ou turismo. 

De realçar que entre os países sujeitos a esta restrição apertada, a maioria são africanos. Entre eles Angola, Costa do Marfim, Guiné-Bissau, Guiné, República Centro Africana, Senegal, São Tomé e Príncipe, Nigéria, Namíbia, Tanzânia, Togo, Uganda, Zâmbia e Zimbabué, entre outros. Fora deste continente, na mesma lista estão, por exemplo, Cuba e Venezuela. 

Requisitos e condições 

Indo directamente aos requisitos exigidos e como vai funcionar o novo sistema de obtenção de vistos para os EUA sujeitos a caução, a partir do momento em que sejam considerados elegíveis para a obtenção de um visto de negócios ou turismo, também designados de B1 e B2, respectivamente, o portador de passaporte cabo-verdiano terá de pagar obrigatoriamente uma caução que pode variar entre 5000 mil a 1500 dólares. Porém, o requerente será reembolsado se cumprir todas as condições do visto e sair dos EUA antes do termo do período de permanência autorizado, ou seja, se regressar a Cabo Verde. 

Esta restrição de caução obrigatória para emissão de visto de negócios ou turismo para os EUA entra em vigor a partir do dia 21 de Janeiro deste ano, o que significa que todos os vistos obtidos até à data continuam a ser válidos. 

Travar emigração ilegal 

Na prática esta é mais uma medida da administração Trump para travar a emigração ilegal e impedir que as pessoas usem vistos de negócios ou turismo para chegar aos EUA e depois aí permanecerem para procurar trabalho e tentar uma vida melhor, como sabemos que acontece com muitos cabo-verdianos. 

Naturalmente, quanto maior for o risco imigratório ilegal detectado durante a entrevista para a obtenção de visto de turismo ou negócio, maior será a probabilidade de a caução solicitada atingir o tecto máximo de 1500 dólares. 

As autoridades norte-americanas chamam inclusive a atenção para que os requerentes destes tipos de visto B1 e B2 não efectuem qualquer pagamento antecipado, devendo a caução ser paga apenas após instruções directas de um oficial consular, de forma a evitar burlas ou pagamentos indevidos. Até ao fecho desta edição não era conhecida nenhuma reacção das autoridades cabo-verdianas relativamente a esta restrição para os cidadãos cabo-verdianos. 

Cidadãos apreensivos

Contudo, nas redes sociais, mal a Embaixada do EUA na cidade da Praia publicou a informação na sua rede social do Facebook, multiplicaram-se os comentários de surpresa e um misto de indignação e apreensão.

“Isso é a maneira mais educada de dizer aos cabo-verdianos que já não são Benvindo (sic) nos estados unidos. Agradecemos a educação, como diz o ditado para um bom entendedor meia palavra basta”, escreveu o cidadão Adélson Baptista. 

Houve igualmente quem lembrasse que os EUA estão a construir uma nova Embaixada na capital cabo-verdiana, mesmo ao lado do Palácio do Governo, numa altura em que apertam o cerco aos cidadãos do país. 

“Não sei para quê a construção de uma nova embaixada dos USA em Cabo Verde daquele porte, se já resolveram criar essa grande dificuldade para obtenção de visto aos cidadãos cabo-verdianos. Quem vão ser os solicitantes do visto?”, questionou um internauta.

Já Adalberto da Silva chamou a atenção para as questões de reciprocidade entre os dois países. “Será que o governo de Cabo Verde vai aplicar a reciprocidade de pagamento de caução para os americanos, como fez Burkina Faso e Mali?” 

Uma visão mais realista da medida tem Eloi Alector Semedo: “É uma caução de até 1.500 contos, mas ela depende de cada aplicante. Normalmente nestes casos, quanto maior for o risco imigratório, maior será a caução. Nem toda a gente vai ter de depositar os 1500 contos”. 

O certo é que a administração Trump aperta cada vez mais o cerco à emigração ilegal e nem Cabo Verde que tem uma relação e história de emigração sólida e reconhecida com os EUA foi poupado. 

O fim do sonho de ver Cabo Verde no mundial 

A informação sobre a integração de Cabo Verde no programa de cauções dos EUA para ter acesso a vistos de negócios e turismo (B1/B2) já a partir de 21 de Janeiro deita por terra o sonho de muitos cabo-verdianos que já faziam contas à vida para irem ver os Tubarões Azuis jogarem pela primeira vez no Mundial de Futebol. 

A prova acontece de 11 de Junho a 19 de Julho deste ano e, precisamente, os três jogos da primeira fase da competição de Cabo Verde, acontecem em Atlanta, Houston e Miami, todos nos EUA. 

Entre a caução e o bilhete, fica impossível para a maioria dos cabo-verdianos suportar os custos, mesmo que tenham apoio da família para estadia na América. “Onde estão as pessoas que iam ver o jogo de CV na copa”, escreveu Wilson Santos. Igualmente Manuela Eunice Almada lembrou do sonho do mundial. “Então ir para o Mundial já complicou”, lamentou. 

Cledmilson Alves foi outro dos internautas a comentar a medida e lamentou que a FIFA faça a Copa “em um País que não permite a entrada de adeptos para irem ver o jogo”. 

Cabo Verde ocupa a 6.ª posição no ranking de apoio social para imigrantes nos EUA

Cabo Verde ocupa a 6.ª posição no ranking de apoio social concedido pelo Governo daquele país para imigrantes nos EUA. A informação avançada pelo site Cabo Verde 24, que cita fonte oficial revelam que 63,1% das famílias da cabo-verdianas que aí residem recorrem a programas de assistência. 

Segundo a mesma fonte, há 63,1% das famílias da nossa diáspora nos EUA a beneficiarem de pelo menos um programa de assistência pública (que inclui saúde, apoio alimentar ou habitação).

Cabo Verde situa-se num grupo de países com necessidades sociais elevadas, ao ocupar a sexta posição. Em primeiro lugar está o Butão (81,4%), seguido da Somália (71,9%) e a República Dominicana em terceiro, com 71,2%. 

De acordo com a mesma fonte, estar no topo deste ranking não significa falta de esforço laboral. Pelo contrário, a comunidade cabo-verdiana é conhecida pela sua resiliência e há vários empresários de sucesso e gente muito activa nas comunidades. Recentemente tivemos o exemplo de Moisés Rodrigues, cidadão norte-americano natural dos Mosteiros, ilha do Fogo, que tomou posse esta segunda-feira,5, como o 51º mayor da cidade de Brockton. Contudo são conhecidos muitos desafios à comunidade cabo-verdiana nos EUA. 

Neste ranking em questão, os especialistas atribuem três quesitos determinantes para esta elevada taxa de acesso a apoios sociais por parte das famílias cabo-verdianos que residem nos EUA como o custo de vida nas áreas de residência; os agregados familiares numerosos e as barreiras linguísticas e de formação.

Conforme análise da mesma fonte, este 6.º lugar no ranking de assistência social deve ser lido como um sinal de alerta e uma oportunidade. “Reflecte a necessidade de maior investimento na capacitação dos nossos emigrantes antes e depois da partida, garantindo que a rede de segurança americana seja apenas um trampolim para a plena independência financeira”. 

Até porque a diáspora, como é sabido, continua a ser um pilar económico para o arquipélago, mas estes dados mostram que “o caminho para a prosperidade total ainda enfrenta desafios estruturais em solo americano”.

Publicado na Edição 958 do Jornal A NAção, de 08 de Janeiro de 2026

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4 Comentários

4 Comentários

  1. Manuel Miranda

    10 de Janeiro, 2026 at 20:44

    Por culpa de um governo inativo, que dorme à sombra da bananeira e na esteira do galho das árvores. Reconhecem a diáspora só quando a contabilidade enche a pia do tesouro em função das remessas enviadas pelos emigrantes que são exprimidas até o suco deixar de pingar. Azarado como este, a república jamais conheceu ao longo da sua história: recebeu a primeira notícia de que o financiamento do compato do Millennium Challenge Corporation (MCC) ficou sem nenhuma possibilidade e evidência, agora esta última bomba de que para entrar nesse país, os cabo-verdianos têm de fazer uma caução de mil e quinhentos contos, ou seja, quinze mil dólares. Um azar da política externa desastrosa e sem precedentes.

  2. Manuel Miranda

    10 de Janeiro, 2026 at 20:58

    Agora o governo deve estar a ultimar a retomada dos voos da TACV, que tinha sido prometido para antes do final de 2025, para a alegria dos conterrâneos, mas, que a gente saiba é que já estamos em 2026. É por isso, que ninguém acredita numa só palavra desta gente. Isto é, uma vergonha.

  3. E uma vergonha para o povo Cabo-verdiana ver isso acontecer na nossa cara,os governantes só se lucran do nosso sangue,trabalhamos sem parar com um Salário miserável e ainda feicham as portas de oportunidades de imigração para esse País,eu pergunto se lutamos para viajar com muitos sacrifícios como vai ser agora com caução de 1500 mil escudos,com isso viajar para EUA ja era…

  4. Edimilson

    14 de Janeiro, 2026 at 18:46

    Tenham atenção à escrita. É 15000 dólares equivalente a aproximadamente 15oo contos, e não 1500 dólares como tem escrito.

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