A poucos dias das eleições do próximo domingo, em Portugal, os candidatos passaram a orientar as respectivas declarações pelas sondagens ‘low-cost’, como já são chamadas, produzidas diariamente. Os novos tempos, os novos meios, como as redes sociais (FB, Tik Tok, Instagram), incluem também aquilo a que se tornou conhecido por “tracking polls” – termo inglês para designar sondagens diárias que pretendem medir, em tempo real, as intenções de voto dos portugueses. Uma novidade que já provou ter grande impacto dos discursos de campanha e estratégias adoptadas pelos candidatos.
Desde o dia 5, o sobe e desce dos resultados das sondagens é discutido diariamente em vários painéis dos canais televisivos, já que o formato é televisivo, considerado científico e com efeitos políticos incontornáveis. Se o método levanta dúvidas junto de especialistas, o certo é que os resultados apresentados não deixam ninguém indiferente.
E, nesta fase final da campanha eleitoral, a corrida a Belém parece ter ficado mais definida com a sondagem da Universidade Católica para a RTP, Antena 1 e Público, que coloca o candidato André Ventura (24%) ligeiramente à frente de António José Seguro (23%), com João Cotrim Figueiredo (19%) em terceiro lugar. Um resultado que a manter-se colocaria os dois candidatos na disputa da segunda volta destas eleições.
Para alguma surpresa, os candidatos Gouveia e Melo e Marques Mendes surgem em quarto e quinto lugar, ambos empatados com 14%, quando na pré-campanha estavam nos primeiros lugares. A maior queda registada foi mesmo a de Marques Mendes, que ainda há poucas semanas figurava em primeiro lugar e passeava convicto que era o único garantido na segunda volta.
Estas eleições presidenciais de 2026 são um espelho da mudança que vem ocorrendo em Portugal e o seu reflexo na vida política dos portugueses. Depois de tomar o lugar de Marcelo Rebelo de Sousa, no comentário semanal da SIC, ao longo de anos, Marques Mendes começou cedo a preparar a sua candidatura à Presidência da República. Foi a primeira figura a anunciar publicamente essa pretensão, que, segundo os analistas, já se adivinhava nas suas análises políticas, com um tom menos hostil ao partido socialista, procurando apresentar-se com alguma neutralidade, junto deste eleitorado. Mendes baseou o seu discurso de candidatura na experiência política, procurando mostrar conhecimento dos meandros do parlamento, governo e uma capacidade para obter consensos, necessários a um chefe de Estado.

Das televisões para a rua, o efeito nos resultados
As coisas pareciam estar a correr bem ao candidato do PSD, partido do governo. Os debates na televisão com os restantes candidatos sucederam-se, com o candidato apoiado pela AD mantendo uma postura serena e confiante. Até ao debate com Gouveia e Melo.
Aqui Marques Mendes acusou o choque do embate com um almirante mais acutilante e directo, e as suas acusações de ‘facilitador de negócios’ com governos. E nunca recuperou totalmente, o que só veio a piorar depois nas ruas.
A subida de Cotrim Figueiredo (Iniciativa Liberal) nas sondagens e a sua destreza junto das pessoas, imagem impoluta de tecnocrata, complicou mais as coisas para Marques Mendes, com este candidato também da direita a entrar pelo seu eleitorado.
Mas quem parece ter perdido também o gás inicia, na recta final, foi Gouveia e Melo. Como alguns previam, o almirante demonstrou pouca consistência nos debates e toda a falta de experiência política, socorrendo-se muitas vezes de notas preparadas pelos seus assessores.
A sua campanha revelou também alguma errância política, começando por um almoço com André Ventura, para logo se distanciar do líder do Chega. Revelou admiração pela presidência de Mário Soares e depois apressou-se a dizer-se acima dos partidos políticos, alguém que vem de fora do sistema. Entalado entre a esquerda de Seguro e a direita de Marques Mendes e Cotrim Figueiredo, Gouveia e Melo tem a árdua tarefa de tentar conseguir votos de ambos os lados, o centro que elege presidentes em Portugal.
António José Seguro, por seu lado, surgiu nesta corrida como um ‘mal-amado’ dentro do Partido Socialista. Depois de dez anos afastado da política, a sua candidatura fez acordar os anticorpos existentes no PS, quando outros nomes, como Augusto Santos Silva ou António Vitorino, mantinham ainda o suspense quanto a avançar.
Seguro e Ventura, astutos e inteligentes
Sereno e procurando apresentar a imagem de homem de equilíbrios, postura de estadista, e fugindo das questões mais polémicas, Seguro foi fazendo um caminho sem deslizes. A previsibilidade e moderação, evitando ataques aos adversários, passou a contrastar nitidamente com a inexperiência e errância de Gouveia e Melo e o cansaço visível de Marques Mendes, à medida que as “tracking polls” começam a surgir e aproduzir efeitos.
Se António José Seguro tem sido até agora o candidato mais astuto, André Ventura foi o mais inteligente: moderou o discurso, abandonou os habituais ataques virulentos nesta fase final e tirou partido da sua grande empatia e popularidade nas ruas. Conseguiu segurar o eleitorado fiel do Chega, o que lhe garantirá, de acordo com todas as previsões, estar na segunda volta depois de vencer a primeira.
No entanto, a sua enorme taxa de rejeição (33%), a maior revelada pelas sondagens, comparando aos restantes candidatos, será o seu maior óbice a uma eleição final. Nesta segunda fase da eleição, as sondagens indicam que Ventura perde contra qualquer um dos outros quatro candidatos.
Mas a maior surpresa desta campanha eleitoral é João Cotrim Figueiredo, que passa de uns 5%, no início da campanha, para 19%, esta última terça-feira (quando a sua meta inicial, disse, era chegar aos dois dígitos), colocando-o, pela margem de erro da sondagem da Universidade Católica, como um possível candidato na segunda volta. No entanto, inexplicavelmente, numa intervenção considerada desastrosa, pelo próprio, ainda nesta semana, declarou poder apoiar qualquer outro dos candidatos na segunda volta (incluindo André Ventura), o que lançou alguma confusão entre os analistas e restantes candidatos. Na mesma semana, Cotrim Figueiredo viu-se ainda envolvido numa acusação (ainda que indirecta) de assédio sexual por parte de uma funcionária, actualmente no governo da AD, quando ela era sua colaboradora.
A segunda linha, candidatos mais ‘presenciais’
A chamada segunda linha dos candidatos da esquerda, nesta corrida presidencial, Catarina Martins (BE), António Filipe (PCP) e Jorge Pinto (Livre), somam, juntos, cerca de 5% das intenções de voto dos portugueses. A grande questão aqui será a desistência de algum dos candidatos a favor do candidato oficial do Partido Socialista, António José Seguro, ou os efeitos da possível indicação de apoio ao candidato do PS, na segunda volta. A falta de uma unidade à volta do candidato mais forte é já uma característica das eleições presidenciais em Portugal, sobretudo nos últimos anos.
A eleição presidencial, que alguns analistas consideram estar completamente banalizada e ter perdido a dimensão e dignidade de outros tempos, actualmente serve de montra para as causas de pequenos partidos, ao apresentarem candidatos – chamados candidatos mais ‘presenciais’ do que presidenciais. A perda de eleitorado e a sua fuga para outros partidos, como o Chega, sobretudo na província, leva a que o Bloco de Esquerda e o PCP tentem, em eleições presidenciais, europeias e autárquicas, dar o ‘ar de sua graça’, mostrando-se vivos e reafirmando as causas da sua razão de existir. A eles juntam-se ainda, nesta corrida a Belém, Manuel João Vieira, Humberto Correia e o sindicalista André Pestana, com menos de 1% cada.
Joaquim Arena



