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Cabo Verde e os novos ventos da geopolítica

Por: João Serra*

A ordem internacional atravessa uma das suas fases mais decisivas desde o final da Segunda Guerra Mundial. A redistribuição do poder económico, tecnológico e político está a remodelar as hierarquias globais de forma profunda e permanente, obrigando países de todas as dimensões a repensarem o seu posicionamento externo. 

Entre os analistas que têm procurado interpretar estes realinhamentos destaca-se Jeffrey D. Sachs, cuja leitura sistemática da emergência de uma nova geopolítica oferece um enquadramento particularmente útil para Estados pequenos e abertos, como Cabo Verde, que dependem de previsibilidade, cooperação multilateral e estabilidade económica para assegurar o seu desenvolvimento. 

Saliente-se que Sachs é um dos mais conceituados economistas norte-americanos de atualidade, professor na Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, e autor conhecido pelo seu trabalho em desenvolvimento sustentável, redução da pobreza e pela consultoria a governos e organizações internacionais.

Com o declínio da hegemonia norte-americana, o mundo entrou numa multipolaridade competitiva, marcada menos por novas formas de cooperação e mais por rivalidades abertas. A Administração Trump “2.0” acelera esta degradação ao tratar instituições multilaterais como obstáculos e ao reduzir a política externa a uma soma de interesses imediatos. 

Cabo Verde, que não dispõe de poder militar, económico ou demográfico para se proteger sozinho, vê nesta deriva unilateralista um perigo estrutural: quando a regra cede ao improviso, é sempre o mais fraco que paga o preço. 

A politização do financiamento internacional por parte de Washington reforça esta assimetria, transformando aquilo que deveria ser um instrumento de estabilidade global numa ferramenta de pressão circunstancial.

A hostilidade norte-americana à ONU, ao Acordo de Paris ou à Organização Mundial do Comércio não é meramente simbólica – é uma agressão direta ao equilíbrio mínimo que permitia que países pequenos tivessem garantias no sistema internacional. Ao desvalorizar compromissos climáticos e regulatórios, Washington fragiliza Estados insulares que dependem de financiamento climático, previsibilidade jurídica e mecanismos de compensação. 

É difícil imaginar maior ironia: Cabo Verde, que nada fez para alimentar a crise climática ou para desestabilizar mercados energéticos, é precisamente um dos países que mais sofre quando as grandes potências recuam das suas responsabilidades. Nesta nova realidade, a vulnerabilidade dos pequenos Estados deixa de ser exceção e passa a ser regra – e uma regra tolerada.

A ascensão da China e da Índia poderia constituir uma oportunidade de reequilíbrio global, mas a resposta norte-americana transforma essa ascensão num pretexto para bloqueios tecnológicos, guerras comerciais e tentativas de contenção que fragmentam cadeias de valor e encarecem bens essenciais. 

Para Cabo Verde, esta rivalidade traduz-se em inflação persistente, custos logísticos acrescidos e maior pressão sobre as finanças públicas. A guerra na Ucrânia trouxe uma prova inequívoca: um conflito remoto pode, em poucas semanas, desestabilizar economias insulares dependentes do exterior, mostrando quão pouco os países periféricos controlam as forças que moldam o seu destino económico.

No continente africano, a dissonância entre discurso e prática é gritante. A União (UA) Africana fala de integração, mas permanece politicamente dividida e dependente de financiamentos externos que condicionam a sua autonomia. A sua capacidade operacional está longe de corresponder à retórica de “soluções africanas para problemas africanos”. 

Para Estados insulares como Cabo Verde, esta lacuna é particularmente grave: falta uma estratégia africana coerente para o clima, para a segurança marítima e para o financiamento do desenvolvimento. A UA reconhece vulnerabilidades, mas não as transforma em prioridades reais; reconhece diversidade, mas administra o continente como se fosse homogéneo.

A AfCFTA, celebrada como o grande salto económico do continente, enfrenta obstáculos internos que muitos governos preferem ignorar: barreiras não pautais, fraca conectividade, inércias administrativas e divergências políticas profundas. 

Para Cabo Verde, que procura diversificar uma economia altamente dependente do turismo, a AfCFTA permanece uma plataforma cheia de potencial, mas largamente incapaz de entregar resultados. A integração continental continua a ser uma promessa adiada – e promessas adiadas não resolvem vulnerabilidades presentes.

A CEDEAO, por sua vez, mergulhou numa crise profunda, marcada por sucessivos golpes militares e pela erosão da confiança institucional. A organização perdeu capacidade de influência e, pior ainda, perdeu credibilidade junto dos seus próprios cidadãos. A opção norte-americana por relações bilaterais “à la carte” contribui para enfraquecer um bloco que já vinha debilitado. Cabo Verde tem agora de avaliar se permanecer num agrupamento politicamente instável é um ato de solidariedade estratégica ou simplesmente uma forma de inércia diplomática que lhe retira margem de manobra.

A economia azul, frequentemente apresentada como a nova fronteira do desenvolvimento sustentável, enfrenta agora um paradoxo: o seu potencial é imenso, mas a sua viabilidade depende de um ecossistema internacional que está a ser desmantelado. Sem financiamento concessional, sem transferência de tecnologia e sem quadros regulatórios robustos, o risco é que a economia azul se transforme numa miragem – uma promessa retórica sem lastro material. A nova Administração norte-americana, ao desvalorizar o combate às alterações climáticas e ao cortar fundos para iniciativas ambientais globais, compromete diretamente a capacidade de países como Cabo Verde de avançar com projetos estruturantes nesta área.

Face a estas dinâmicas, a política externa cabo-verdiana precisa de uma atualização estratégica. O multilateralismo continua a ser um pilar essencial, mas já não basta como resposta única. Cabo Verde necessita de uma diplomacia mais assertiva, mais diversificada e mais preparada para dialogar com múltiplos centros de poder. A sua identidade híbrida – africana, atlântica e lusófona – deve ser encarada como trunfo geopolítico, e não como limitação estrutural. Tal postura implica coragem para afirmar interesses próprios, flexibilidade para ajustar alianças e inteligência diplomática para navegar entre rivalidades que o país não controla, mas que o afetam profundamente.

A lição central de Jeffrey Sachs mantém-se: a cooperação internacional não é um luxo – é uma condição de sobrevivência. Mas essa cooperação, hoje, está sob cerco. E os países pequenos, como Cabo Verde, não podem esperar por consensos que talvez nunca cheguem. Precisam de agir com base numa leitura lúcida do mundo real, onde a incerteza é a nova norma e onde a vulnerabilidade só se transforma em força quando há visão, estabilidade e diplomacia estratégica. 

Praia, 17 de janeiro de 2026

*Doutorado em Economia/Blog: www.economianaserra.blogspot.com)

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