
António Delgado Medina*
Em campanha política na ilha de Santo Antão, o Primeiro-Ministro insiste em afirmar que a ilha “está a desenvolver-se”. A afirmação soa bem em palanque, rende aplausos momentâneos, mas não resiste ao confronto com os dados oficiais do próprio Estado cabo-verdiano.Porque desenvolvimento que expulsa a sua população – sobretudo os jovens – não é desenvolvimento. É abandono com discurso otimista.
Os números do Instituto Nacional de Estatística são claros, inequívocos e politicamente incómodos. Entre 1980 e 2021, Cabo Verde cresceu demograficamente. Mas Santo Antão não cresceu. Encolheu. E encolheu de forma persistente, estrutural e profundamente seletiva.
Em 1980, Santo Antão tinha cerca de 45 mil habitantes, valor semelhante ao de São Vicente. Em 2000, ainda registava 47.170 residentes. A partir daí, inicia-se um declínio contínuo. Em 2021, a população cai para 36.950 habitantes. Em pouco mais de duas décadas, a ilha perdeu mais de 10 mil pessoas.
Não estamos a falar de um fenómeno natural. Estamos a falar de gente que foi empurrada para fora.
Nenhuma ilha perde população jovem porque está a desenvolver-se. Jovens migram quando não há emprego, quando não há perspetiva, quando não há futuro. E é isso que está a acontecer em Santo Antão há décadas, apesar das promessas, dos discursos e das campanhas repetidas.
Enquanto Santiago cresce de forma contínua, consolidando-se como centro político, administrativo e económico do país, enquanto Sal e Boa Vista explodem demograficamente ao ritmo do turismo e do investimento privado, e enquanto São Vicente se mantém como polo urbano intermédio, Santo Antão transforma-se numa ilha emissora de população.
Segundo dados do INE, 32% dos migrantes de Santo Antão vão para São Vicente, 24% para Santiago, 18% para o Sal e 14% para a Boa Vista. Isto significa uma coisa simples: Santo Antão forma pessoas para desenvolver outras ilhas.
Se isso é desenvolvimento, então estamos a redefinir perigosamente o conceito.
É legítimo perguntar: desenvolvimento para quem? Para quem fica ou para quem sai? Para quem trabalha a terra ou para quem governa a partir da capital? Para as comunidades locais ou para os centros onde se concentram os investimentos públicos e privados?
Uma ilha que perde população ativa perde economia local, perde dinamismo social, perde capacidade produtiva e perde futuro. Escolas fecham ou esvaziam-se, campos são abandonados, serviços públicos tornam-se frágeis, famílias sobrevivem à base de remessas enviadas por quem foi obrigado a partir. Isto não é progresso. É sobrevivência mascarada de sucesso político.
O discurso não fixa pessoas
Não há campanha, por mais ruidosa que seja, que consiga esconder uma verdade simples: as pessoas votam com os pés. E em Santo Antão, há décadas, os pés apontam para fora da ilha.
Se Santo Antão estivesse realmente a desenvolver-se, os jovens ficariam. Ou regressariam. Criariam negócios. Constituiriam família. Apostariam o seu futuro na ilha. O que vemos é o contrário: uma hemorragia silenciosa, contínua, ignorada nos discursos oficiais.
Dizer que Santo Antão está a desenvolver-se enquanto perde população é o mesmo que dizer que uma casa está a prosperar enquanto os filhos são obrigados a sair porque não há pão.
Santo Antão não precisa de propaganda
Santo Antão não precisa de discursos eleitorais. Precisa de políticas públicas sérias, estruturais e corajosas. Precisa de investimento produtivo real, descentralização efetiva, valorização da agricultura e da agroindústria, criação de emprego qualificado, fixação de jovens e famílias.
Enquanto isso não acontecer, cada proclamação de desenvolvimento será desmentida pelos censos, pelas estatísticas e – sobretudo – pelas malas feitas dos seus jovens.
Uma ilha que perde as suas gentes não está a desenvolver-se. Está a ser deixada para trás. E negar isso não é otimismo político. É desonestidade intelectual.
26 de janeiro de 2026
*Geógrafo, doutorando em Ciências Sociais



