
Por: Sandra Cardão
Há apenas uma década, aterrarem vinte aviões na ilha do Sal, em Cabo Verde, era uma miragem longínqua – dessas que se avistam no horizonte e que só alguns ousariam sonhar.
Hoje, porém, o céu já não se limita a acolher turistas que fugiam do inverno do norte europeu: nos últimos três meses, os voos multiplicaram-se e transformaram-se em pontes permanentes para uma Europa inteira que redescobre o prazer de viajar, embalada por uma euforia pós-pandémica feita de festas, música alta e promessas de liberdade sem limites.
Mas com eles chegou também outra epidemia, menos visível e talvez mais persistente: a da escassez de casa. Um modelo importado, copiado quase à letra do que já se vive em tantas cidades europeias – onde o mercado manda, a pressa constrói e o lucro ocupa o lugar da vida.
No Sal, onde antes havia quintais, dunas ou terrenos vazios, erguem-se prédios apressados: qualquer buraco serve, qualquer espaço vira alojamento local. É preciso fazer dinheiro, e depressa. E assim, como num espelho do continente que chega de avião, os locais vão ficando sem alternativa de habitação na própria terra.
Entre aviões que não param de chegar e casas que deixam de existir para quem sempre cá viveu, o Sal reinventa-se à imagem de um mundo que corre depressa demais
Até o mar parece ter sentido a mudança. Tornou-se mais revolto, como se não gostasse de tanta gente a ocupar as praias onde antes desaguava em silêncio. O clima, cúmplice desse desconforto, também se alterou: o sol, outrora generoso, agora esconde-se com mais frequência, como se protestasse à sua maneira.
E os ritmos da ilha já não são os mesmos. Nas ruas, nas praças, nas esplanadas, vêem-se cada vez menos as gentes da terra. O velho mantra do “no stress” foi ficando para trás, substituído por dias apressados, contas para pagar e serviços novos a inventar.
Enquanto alguns surfam a onda do desenvolvimento, muitos outros continuam presos a salários baixos ou à necessidade de partir. Emigrar – verbo antigo, sempre atual – permanece tábua de salvação e, ao mesmo tempo, sinónimo de desenraizamento. Leva-se o corpo, ficam as raízes. Mas é também essa partida que alimenta a mestiçagem, mistura destinos e devolve à ilha, em ciclos imprevisíveis, novas formas de ser cabo-verdiano.
Entre aviões que não param de chegar e casas que deixam de existir para quem sempre cá viveu, o Sal reinventa-se à imagem de um mundo que corre depressa demais: belo, inquieto… mas será que um dia se encontrará o equilíbrio entre o nada, o pouco e o demasiado?
15 de Janeiro de 2026



