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Cabo Verde, dívida pública e poder de decisão: Os limites político-económicos da consolidação fiscal

Por: Eurico Mendes*

A discussão sobre a dívida pública em Cabo Verde tem sido tratada sobretudo como uma questão técnica, expressa em rácios, metas fiscais e modelos de sustentabilidade.

Contudo, por detrás desses indicadores existe uma dimensão política incontornável: a forma como o Estado decide, negocia e prioriza políticas económicas num contexto de limitações estruturais e dependência externa. 

Assim, a consolidação fiscal é mais do que um exercício contabilístico – é um processo político-económico que revela os limites e as escolhas de um pequeno Estado insular em desenvolvimento.

Ao longo das últimas décadas, Cabo Verde construiu uma reputação internacional de boa governação económica, beneficiando de financiamento concessionado e de uma relação positiva com parceiros multilaterais. 

Este “capital institucional” funcionou como ativo estratégico, permitindo ao país recorrer a endividamento para financiar infraestruturas, estabilizar ciclos e compensar fragilidades produtivas. No entanto, esta dependência do financiamento externo acabou por criar incentivos políticos à manutenção de um Estado investidor, frequentemente pressionado por expectativas públicas crescentes e por ciclos eleitorais que tendem a privilegiar políticas de curto prazo.

A dívida pública, sobretudo quando cresce em contexto de choques externos, passa a condicionar as margens de ação do próprio governo. A necessidade de garantir credibilidade fiscal perante doadores e mercados financeiros internacionais transforma-se num fator político relevante, reduzindo a flexibilidade para responder a demandas sociais e para implementar políticas expansionistas. 

O desafio para os próximos anos será gerir a relação entre dívida, credibilidade e autonomia num contexto internacional incerto. A consolidação fiscal deve ser encarada como etapa de uma estratégia mais ampla: transformar vulnerabilidade estrutural em resiliência institucional e converter dependência externa em capacidade interna de decisão.

A literatura sobre economia política demonstra que pequenas economias abertas, com forte dependência de capital externo, enfrentam “restrições de soberania fiscal”: o espaço de decisão interna é moldado por compromissos e condicionalidades implícitas na relação com financiadores. Cabo Verde não é exceção.

A consolidação fiscal em curso deve, portanto, ser lida como uma estratégia de reposicionamento político. Reduzir a dívida e reforçar a disciplina orçamental não é apenas um objetivo macroeconómico: é uma forma de recuperar autonomia decisória, aumentar previsibilidade institucional e reposicionar o país como parceiro fiável num cenário internacional competitivo. 

Contudo, esse processo envolve escolhas difíceis. Consolidar significa reavaliar prioridades, conter despesas pouco produtivas e resistir a pressões distributivas que, embora legítimas, podem comprometer a credibilidade externa.

Limitar o debate da dívida ao campo técnico é insuficiente. A questão central é política: que modelo de Estado e que modelo de desenvolvimento o país pretende sustentar? Um Estado grande, financiado por dívida, pode estimular crescimento de curto prazo, mas tende a aumentar dependência e reduzir resiliência. Um Estado mais contido pode preservar estabilidade, mas corre o risco de limitar capacidade de investimento estratégico. Este é o dilema estrutural da economia cabo-verdiana.

Para ultrapassar este impasse, Cabo Verde precisa de articular três frentes: reforçar instituições económicas, promover reformas estruturais que reduzam custos de contexto – sobretudo para empresas nacionais – e apostar num crescimento menos dependente do financiamento externo. A diversificação produtiva, a modernização administrativa e a competitividade das exportações devem ser vistas não apenas como objetivos económicos, mas como instrumentos de soberania política.

O desafio para os próximos anos será gerir a relação entre dívida, credibilidade e autonomia num contexto internacional incerto. A consolidação fiscal deve ser encarada como etapa de uma estratégia mais ampla: transformar vulnerabilidade estrutural em resiliência institucional e converter dependência externa em capacidade interna de decisão. Este é, em última análise, o verdadeiro sentido político-económico da sustentabilidade fiscal em Cabo Verde.

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