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Câmara radical

Por: Jorge Eurico*

Gilson Alves, antigo líder do PTS, anunciou a candidatura à Presidência de Cabo Verde. Escolheu a sombra. Recusou a exposição da luz pública. A política, quando se aproxima da estética da ameaça, abandona o terreno da disputa democrática. Aproxima-se da encenação da força.

A opção pelo ambiente nocturno, pelo rosto coberto e por uma rua sem identificação introduziu tensão simbólica. A mensagem ultrapassa a simples apresentação de um projecto político. A Televisão de Cabo Verde aceitou a proposta. Deu voz, rosto e espaço ao radicalismo político.

Houve leveza editorial e fragilidade técnico-profissional. Transformou o momento em produto informativo com forte carga performativa. Quatro indivíduos encapuzados. Armas brancas visíveis. Imagem de intimidação simbólica.

O candidato falou. Prometeu concentração de poder na Chefia do Estado. «L’État, ce sera lui». Fórmula associada a Louis XIV. Metáfora histórica do absolutismo político. Prometeu purgar o sistema judicial. Prender magistrados considerados corruptos. Declarou que poderia vencer “à jeito ou à força”.

No espaço africano lusófono, a expressão evoca memórias políticas duras, associadas ao legado de Jonas Savimbi e aos períodos de confrontação política. Trinta dias depois, ocorreu a detenção por alegada posse de armas e associação criminosa. A justiça segue o seu curso.

O debate central não é apenas judicial. O problema reside no espaço mediático. Os meios de comunicação social de natureza pública não devem funcionar como palco de radicalização política. São pilares da arquitectura democrática.

O pluralismo não implica equivalência moral entre democracia constitucional e projectos autoritários. A liberdade de expressão exige responsabilidade editorial. Democracias de pequena dimensão são vulneráveis à erosão silenciosa.

A força começa a normalizar-se no discurso. Não começa nos confrontos físicos. Quando a ameaça se transforma em conteúdo mediático, o espaço público perde anticorpos democráticos. Cabo Verde construiu estabilidade política histórica.

Angola conhece o preço da fusão entre política e violência. Que a política cabo-verdiana permaneça distante da sedução do radicalismo populista. A democracia não se rompe apenas com rupturas visíveis.

Pode ser corroída pela naturalização da ideia de que a força é solução política. Quando a comunicação política entra na dramaturgia da ameaça, o debate público empobrece. A liberdade exige vigilância. A democracia exige responsabilidade.

* Jornalista  radicado  no  Canadá

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