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Quando os jovens partem e o país envelhece: Fecundidade, migração e o futuro da proteção social em Cabo Verde

Por: António Delgado Medina*

Cabo Verde enfrenta hoje um paradoxo silencioso que pode marcar profundamente o seu futuro. Ao mesmo tempo que forma jovens qualificados, o país vê esses mesmos jovens partir para construir as suas vidas e famílias noutras latitudes. 

Enquanto isso, os nascimentos diminuem e a população envelhece gradualmente. Se esta tendência persistir, o país poderá enfrentar um cenário preocupante: menos jovens para trabalhar, produzir riqueza e sustentar o sistema de proteção social.

Historicamente, Cabo Verde sempre foi um país de emigrantes. Durante décadas, a emigração constituiu uma estratégia de sobrevivência para muitas famílias e desempenhou um papel importante na economia nacional, sobretudo através das remessas enviadas pela diáspora. No entanto, o fenómeno migratório atual apresenta características diferentes.

Hoje observa-se uma saída crescente de jovens em idade ativa que procuram melhores oportunidades de emprego, salários mais elevados e maior estabilidade económica em países como Portugal, Estados Unidos, França ou Holanda. Esta mobilidade representa mais do que uma simples deslocação laboral. Representa também uma perda significativa de capital humano e de potencial demográfico para o país.

Ao mesmo tempo, Cabo Verde tem vindo a registar uma redução consistente da taxa de fecundidade. Nas últimas décadas, o número médio de filhos por mulher diminuiu de forma significativa, aproximando-se ou mesmo situando-se abaixo do nível necessário para garantir a reposição natural da população.

Esta evolução resulta de transformações sociais importantes, como o aumento da escolaridade, particularmente entre as mulheres, a maior participação feminina no mercado de trabalho, a urbanização crescente e as mudanças nos modelos familiares. Em muitos contextos, estas mudanças acompanham processos de modernização e desenvolvimento.

O problema surge quando a baixa fecundidade se combina com níveis elevados de emigração jovem. Quando os jovens partem, não levam apenas a sua força de trabalho. Levam também consigo o seu potencial reprodutivo. Os filhos que poderiam nascer em Cabo Verde acabam por nascer nos países de destino, contribuindo para o crescimento demográfico e para a renovação da força de trabalho dessas economias.

O problema surge quando a baixa fecundidade se combina com níveis elevados de emigração jovem. Quando os jovens partem, não levam apenas a sua força de trabalho. Levam também consigo o seu potencial reprodutivo. (…) Dito de forma simples, Cabo Verde acaba por contribuir para o rejuvenescimento demográfico de outros países enquanto começa lentamente a enfrentar o seu próprio envelhecimento populacional. (…) Se continuarmos neste caminho, a pergunta que inevitavelmente teremos de enfrentar será simples, mas decisiva: quem sustentará o Cabo Verde de amanhã?

Dito de forma simples, Cabo Verde acaba por contribuir para o rejuvenescimento demográfico de outros países enquanto começa lentamente a enfrentar o seu próprio envelhecimento populacional.

Os dados dos Recenseamentos Gerais da População e Habitação de 2010 e 2021 mostram que o país praticamente não registou crescimento populacional ao longo desse período. Esta estagnação resulta, em grande medida, da conjugação de três fatores: a redução da fecundidade, o aumento da emigração e o envelhecimento progressivo da população.

As implicações desta evolução são profundas. À medida que a população envelhece e o número de jovens diminui, altera-se a relação entre a população ativa e a população dependente. Em termos simples, passa a existir um número cada vez menor de trabalhadores para sustentar um número crescente de reformados.

Esta realidade coloca desafios importantes ao sistema de proteção social, especialmente ao sistema de pensões. Em muitos países, as reformas são financiadas através de um modelo de solidariedade intergeracional, no qual os trabalhadores ativos contribuem para pagar as pensões dos atuais reformados.

Se as tendências atuais persistirem em Cabo Verde, o país poderá enfrentar desafios semelhantes no futuro. Um país com menos jovens, menos trabalhadores e mais idosos terá inevitavelmente de repensar a sustentabilidade do seu sistema de proteção social.

Neste contexto, a questão demográfica deveria ocupar um lugar central no debate público nacional. Discutem-se frequentemente grandes projetos de investimento, infraestruturas ou turismo. Tudo isso é importante, mas raramente se coloca a pergunta fundamental: quem irá trabalhar, produzir riqueza e sustentar o país nas próximas décadas?

O desenvolvimento de uma nação depende, antes de tudo, das pessoas. Se os jovens continuam a partir e os nascimentos continuam a diminuir, Cabo Verde corre o risco de enfrentar um envelhecimento populacional acelerado.

Estamos, em certa medida, a exportar a nossa juventude e a importar o nosso próprio envelhecimento.

Se continuarmos neste caminho, a pergunta que inevitavelmente teremos de enfrentar será simples, mas decisiva: quem sustentará o Cabo Verde de amanhã?

10 de janeiro de 2026

*Geógrafo, doutorando em Ciências Sociais

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