A Cabo Verde Interilhas confirmou que vai levar a CABNAVE a tribunal, acusando esta empresa de reparação naval, em São Vicente, de falhas graves na docagem do seu navio Dona Tututa. A visada garante, por seu turno, que os trabalhos e testes decorreram sem problemas e aguarda a peritagem para apurar responsabilidades do “incidente” envolvendo o Dona Tututa.
Na sua edição da semana passada A NAÇÃO reportou a intenção de a CV Interilhas processar a Cabnave, empresa de reparação naval, em São Vicente, por alegados danos graves causados ao Dona Tututa, durante o período em que este navio de passageiros e cargas esteve nos seus estaleiros. Isto depois dessa embarcação, como veio confirmar a CVI, esta semana em esclarecimento público, ter sido impedida de se deslocar a Portugal para reparações profundas.
A versão da CV Interilhas
No referido esclarecimento público, sob forma de comunicado, a CVI confirmou, no essencial, o artigo do A NAÇÃO, afirmando que pretende accionar “os mecanismos legais necessários para salvaguardar os seus interesses e os dos passageiros” do Dona Tututa, neste momento imobilizado na baía do Mindelo. Essa companhia quer ser ressarcida dos “estragos e prejuízos” a essa sua embarcação, um caso que vem agravar as más relações existentes entre ela e o Estado de Cabo Verde.
No seu “esclarecimento” a CVI acusa a Cabnave de incapacidade técnica, apontando uma avaria grave após a docagem obrigatória em São Vicente. “A docagem correspondeu a um procedimento obrigatório de manutenção, mas registaram-se falhas técnicas do estaleiro após o incidente durante o teste de navegação”.
A CVI esclarece ainda que “este tipo de intervenção ocorre de dois em dois anos e é essencial para garantir a continuidade da operação e a segurança da navegação”.
A mesma companhia deixa claro que ela é que “não Por causa do “Dona Tututa” CABNAVE e CV Interilhas em conflito aberto pode assumir responsabilidades por falhas técnicas que comprometem a operacionalidade do navio e, por isso, acionará os mecanismos legais necessários para salvaguardar os seus interesses e os dos passageiros”.
A versão da CABNAVE
Como revelou o artigo do A NAÇÃO, num breve contacto com este Jornal, o PCA da Cabnave, Ivan Bettencourt, admitiu ter havido um “incidente” com o Dona Tututa; mais tarde, depois da saída do jornal, veio afirmar em comunicado que o “incidente” aconteceu fora dos estaleiros e que aguarda relatórios de peritagem para efeitos de seguro.
Em defesa da sua imagem, a Cabnave avoca a sua experiência de 42 anos de actividade, milhares de navios reparados e reconhecimento internacional. No caso do Dona Tututa a empresa afirma e salienta que todos os trabalhos solicitados pela sua cliente, Cabo Verde Interilhas, foram concluídos “com rigor e aprovados, conforme normas internacionais aplicáveis”, acrescentando que o navio foi entregue ao armador em condições de operar.
A Cabnave destaca ainda que parte das responsabilidades de manutenção cabe ao armador, incluindo trabalhos executados pela tripulação e técnicos contratados externamente. Sublinha que “a situação a que se refere a notícia, publicada na edição anterior do A NAÇÃO, não aconteceu durante a reparação na CABNAVE, nem durante os testes executados pelos estaleiros, muito menos na presença dos seus técnicos”.
A Cabnave conclui dizendo, no seu comunicado, que “continua, serenamente, a aguardar o posicionamento formal do Armador do navio sobre o ocorrido, pelo que neste momento, sobre as causas e responsabilidades, não emite nenhum posicionamento público”.
Críticas da população
O Dona Tututa, adquirido pela CV Interilhas para reforço da frota nacional no quadro do contrato de concessão assinado com o Estado de Cabo Verde, tornou-se o epicentro de um diferendo que expõe fragilidades estruturais do sistema marítimo cabo-verdiano.
Desde a sua criação, a CV Interilhas tem sido alvo de críticas por parte dos seus utentes, que consideram que a empresa não tem conseguido garantir o transporte marítimo regular entre as ilhas. Cancelamentos sucessivos, atrasos e falta de alternativas reforçam a percepção de que o serviço público essencial está comprometido. Comerciantes, principalmente, denunciam prejuízos com mercadorias perecíveis retidas em armazéns.
Para muitos cabo-verdianos, o Dona Tututa é apenas o símbolo mais recente de um problema crónico: a ausência de garantias de mobilidade marítima entre as ilhas de Cabo Verde.
João A. do Rosário
Publicado na Edição 967 do Jornal A Nação, de 12 de Março de 2026



