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Ascensão económica e social da China: lições para Cabo Verde (parte 1)

Por: João Serra*

A trajetória da República Popular da China rumo à hegemonia económica global e a sua transmutação de uma sociedade agrária e fragmentada numa superpotência tecnológica e industrial constituem, indubitavelmente, o fenómeno geoeconómico mais disruptivo da história contemporânea, oferecendo um espelho analítico de inestimável valor para nações em desenvolvimento. 

Quando colocamos em perspetiva este “milagre” chinês, edificado em pouco mais de quatro décadas, e o confrontamos com a realidade de Cabo Verde, que ultrapassou recentemente a barreira simbólica do meio século de independência nacional, o contraste que emerge não é apenas de escala ou de geografia, mas, fundamentalmente, de doutrina de Estado, de qualidade de governação e de cultura institucional. 

Enquanto a China logrou retirar mais de 850 milhões de cidadãos da pobreza extrema e assumir a liderança em setores de ponta, Cabo Verde, volvidos cinquenta anos de soberania, permanece enredado em constrangimentos estruturais que, em muitos casos, derivam menos da sua condição arquipelágica e mais de uma incapacidade crónica de desenhar, implementar e manter uma visão estratégica de longo prazo que sobreviva à vertigem dos ciclos eleitorais e à voracidade das clientelas partidárias. 

A análise crítica desta dicotomia revela que o sucesso chinês não é fruto do acaso, mas da aplicação férrea de princípios de planeamento e de meritocracia – precisamente os vetores onde o Estado cabo-verdiano tem falhado de forma reiterada e preocupante.

O primeiro e talvez mais gritante abismo que separa a gestão pública chinesa da realidade cabo-verdiana reside na conceção do tempo político e na existência de um projeto de nação. A China opera com base numa planificação temporal dilatada, materializada nos seus Planos Quinquenais, que não são meras cartas de intenções, mas roteiros operativos rigorosos, onde metas económicas, sociais e ambientais são perseguidas com disciplina quase militar, independentemente das oscilações táticas da política interna. Existe, em Pequim, um consenso estratégico sobre, por exemplo, onde o país deve estar em 2035 ou 2050, e toda a máquina estatal é mobilizada para esse fim. 

Em contrapartida, Cabo Verde, meio século após a libertação do jugo colonial, ainda não conseguiu forjar um pacto de regime robusto sobre os pilares fundamentais do seu desenvolvimento. O país sofre de uma patologia de curto-prazismo agudo, em que o horizonte de planeamento raramente ultrapassa os cinco anos de uma legislatura. Os documentos orientadores de políticas públicas, acabam frequentemente por não ser devidamente socializados nem apropriados pela sociedade civil ou pela oposição política, transformando-se em “planos de governo” e não em “planos de Estado”. 

Além disso, revelam fragilidades significativas ao nível da sua execução. Esta descontinuidade administrativa é uma ferida aberta no desenvolvimento nacional: a cada alternância de poder assiste-se a uma espécie de terraplanagem institucional, em que projetos estruturantes são descontinuados, rebatizados ou sabotados apenas por terem a paternidade do partido político adversário, resultando num desperdício criminoso de recursos escassos e de tempo histórico que um pequeno Estado insular não se pode dar ao luxo de perder.

O primeiro e talvez mais gritante abismo que separa a gestão pública chinesa da realidade cabo-verdiana reside na conceção do tempo político e na existência de um projeto de nação. A China opera com base numa planificação temporal dilatada, materializada nos seus Planos Quinquenais, que não são meras cartas de intenções, mas roteiros operativos rigorosos, onde metas económicas, sociais e ambientais são perseguidas com disciplina quase militar. (…) Em contrapartida, Cabo Verde, ainda não conseguiu forjar um pacto de regime robusto sobre os pilares fundamentais do seu desenvolvimento. O país sofre de uma patologia de curto-prazismo agudo, em que o horizonte de planeamento raramente ultrapassa os cinco anos de uma legislatura.

A ausência de continuidade estratégica agrava-se, e em grande parte explica-se, pela profunda degradação da qualidade da Administração Pública cabo-verdiana, vítima de um processo de partidarização excessiva que corrói os alicerces do Estado. 

A China, pese embora o seu sistema de partido único e as críticas legítimas quanto à falta de liberdades políticas, implementou no seio do seu aparelho administrativo e partidário uma meritocracia feroz. A ascensão de quadros na hierarquia estatal chinesa depende, em larga medida, de métricas de desempenho tangíveis – crescimento do PIB local, atração de investimento, estabilidade social –, criando uma elite burocrática altamente qualificada e orientada para resultados. 

Inversamente, em Cabo Verde, a administração do Estado foi capturada pela lógica do clientelismo e do amiguismo. O fenómeno da nomeação de “boys” partidários – indivíduos cuja principal qualificação é a lealdade à cor partidária do momento, seja ela do MpD ou do PAICV, em detrimento da competência técnica ou da experiência comprovada – tornou-se norma na ocupação de cargos de direção na administração central, nos institutos públicos e nas empresas estatais. 

Esta prática nefasta tem consequências devastadoras: desprofissionaliza a gestão da coisa pública, promove a incompetência em posições de decisão crítica e, talvez o mais grave, destrói a memória institucional. 

A cada mudança de ciclo político, quadros técnicos competentes são saneados ou marginalizados e substituídos por comissários políticos muitas vezes impreparados, o que obriga a administração a “reinventar a roda” constantemente, perpetuando erros e impedindo a acumulação de saber técnico necessário para resolver problemas complexos. 

O Estado, que deveria ser o garante da estabilidade e da excelência, transformou-se numa agência de emprego para clientelas partidárias, onde o mérito é preterido em favor do compadrio e do nepotismo, asfixiando as aspirações de quem procura servir o país com base na competência e no rigor.

Este défice de meritocracia e de visão estende-se, de forma alarmante, ao setor da educação, pilar central sobre o qual a China alicerçou a sua transformação. Pequim compreendeu, desde as reformas de Deng Xiaoping, que a soberania no século XXI se constrói com capital humano de excelência, investindo massivamente na qualidade do ensino básico, na expansão de universidades de elite e em investigação e desenvolvimento. 

Em Cabo Verde também houve uma aposta na massificação do acesso e na construção de infraestruturas educativas, mas, com o evoluir do tempo, descurou-se tragicamente a substância. 

O sistema de ensino superior em Cabo Verde enfrenta desafios significativos, incluindo currículos desalinhados com a economia global e as necessidades locais, docentes desmotivados e uma oferta excessiva de diplomas sem correspondência no mercado de trabalho. 

Apesar de algumas exceções, as instituições de ensino superior não têm cumprido a sua missão de promover inovação e pensamento crítico, formando licenciados com baixa empregabilidade, enquanto o país carece de profissionais técnicos intermediários, como engenheiros e especialistas em áreas-chave como economia azul, energias renováveis e tecnologia digital. 

A excessiva politização das lideranças educativas e a resistência a reformas estruturais que privilegiem a exigência e a excelência condenam a juventude cabo-verdiana a uma subalternidade competitiva. Ao contrário da China, que formou exércitos de engenheiros e cientistas para suportar a sua industrialização, Cabo Verde parece formar uma geração com expetativas frustradas, sem as ferramentas analíticas e técnicas para transformar a economia nacional, perpetuando a dependência de consultoria externa e de ajuda ao desenvolvimento.

Continua…

Praia, 21 de março de 2026

*Doutorado em Economia/Blog: www.economianaserra.blogspot.com)

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