
Por: Eurico Mendes*
A economia cabo-verdiana enfrenta, no horizonte da próxima década, um conjunto de desafios estruturais que condicionam a sua capacidade de gerar crescimento sustentado, inclusivo e resiliente. Trata-se de questões profundas, que transcendem ciclos políticos e conjunturas externas, exigindo reformas consistentes, coordenação institucional e visão estratégica de longo prazo.
Entre os fatores críticos destacam-se a elevada dependência externa, a baixa diversificação produtiva, a fragilidade do mercado de trabalho, a limitada capacidade de financiamento interno e a vulnerabilidade a choques climáticos e geopolíticos.
O primeiro desafio reside na forte dependência de importações e fluxos externos que molda a estrutura macroeconómica do país desde a independência. O défice estrutural da balança de bens, compensado por turismo, remessas e ajuda externa (1), torna o modelo económico particularmente sensível a flutuações globais e a ciclos recessivos nos principais mercados emissores. Este padrão limita a autonomia da política económica, aumenta a volatilidade do crescimento e mantém elevadas necessidades de financiamento externo(2).
A diversificação produtiva constitui o segundo eixo central. A economia permanece concentrada em serviços – especialmente turismo – responsáveis pela maior parte das exportações e da geração de emprego.
Embora o setor tenha elevado potencial, a falta de integração com a produção local e a reduzida sofisticação da base empresarial limitam os efeitos de arrastamento sobre agricultura, indústria e serviços modernos(3). Sem avanços na produtividade, na inovação e na capacidade tecnológica, o país continuará preso a um modelo de baixo valor acrescentado.
O mercado de trabalho representa outro ponto crítico. A economia revela níveis persistentes de desemprego jovem, informalidade e subemprego, indicadores que evidenciam a insuficiente absorção da mão de obra qualificada e a fraca articulação entre formação e necessidades reais do tecido económico(4). Investimentos em educação técnica, ensino superior aplicado e programas de requalificação profissional são fundamentais para elevar a competitividade nacional.
A fragilidade do financiamento interno constitui um quarto obstáculo estrutural. A reduzida poupança doméstica e a estagnação dos mercados de capitais obrigam o Estado e as empresas a recorrerem ao financiamento externo para investimentos de médio e longo prazos5. Isto agrava a exposição ao risco de dívida, sobretudo num contexto de custos de financiamento crescentes e pressões sobre as contas públicas. Reforçar a mobilização de poupança interna, ampliar o mercado obrigacionista e acelerar reformas no sistema financeiro são prioridades inadiáveis.
Por fim, as vulnerabilidades climáticas tornam-se cada vez mais relevantes para a trajetória económica de Cabo Verde. A escassez hídrica, a erosão costeira, a irregularidade dos ventos e a intensificação de fenómenos climáticos extremos representam custos elevados para a infraestrutura, agricultura e turismo6. A resiliência climática e a transição energética emergem assim como pilares estratégicos de sobrevivência e crescimento.
Enfrentar estes desafios exige reformas estruturais articuladas: políticas industriais seletivas; fortalecimento da capacidade produtiva local; consolidação fiscal gradual e sustentável; inovação tecnológica; integração de cadeias de valor internas; e uma estratégia nacional de desenvolvimento de longo prazo que coloque a produtividade, a inclusão e a resiliência no centro das prioridades. A próxima década será decisiva para determinar se Cabo Verde continuará dependente de choques externos ou se conseguirá construir um modelo económico mais robusto, competitivo e soberano.
Notas de Rodapé
1-Banco de Cabo Verde (2024). Relatório de Política Monetária – Abril e Outubro. Praia.
2-Banco Mundial (2023). Cabo Verde Economic Update. Washington, D.C.
3-Banco Africano de Desenvolvimento (2023). Country Strategy Paper – Cabo Verde. Abidjan.
4-INE (2024). Inquérito ao Emprego – IV Trimestre. Praia.
5-FMI (2024). Article IV Consultation – Cabo Verde. Washington, D.C.
6-Banco Mundial (2022). Climate Risk Profile: Cabo Verde. Washington, D.C.
*Economista e Bancário
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