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Como sirenes: em alerta

Por: Sandra Cardão

O stress crónico tornou-se uma condição quase normalizada no mundo ocidental, sobretudo desde os confinamentos impostos pela pandemia. O que começou como uma resposta excecional a uma ameaça sanitária transformou-se, para muitos, num ponto de rutura silencioso e duradouro. O confinamento, por si só, foi um poderoso agente disparador de trauma no ser humano: pelo seu carácter inusitado, pela imobilidade forçada, pela imposição súbita e pela manipulação direta da vida individual. Para muitos, foi vivido não apenas como proteção, mas como abuso — ainda que legitimado.

A partir daí, os sinais de instabilidade acumularam-se. Pelos meios de comunicação social e pelas redes sociais instalou-se a perceção de que o mundo já não obedece a referências conhecidas. Valores antes partilhados tornaram-se motivo de incredulidade. As guerras, outrora distantes, passaram a ser sentidas como próximas — não apenas pelos conflitos armados em si, mas pela crescente sensação de insegurança nas cidades e nos territórios onde se vive. Espaços familiares tornaram-se estranhos, atravessados por tensões culturais, violência sem mediação e uma perceção constante de ausência de limites.

A esta instabilidade somou-se o ruído — literal e simbólico. O aumento exponencial de motas e do seu barulho ensurdecedor em todo o lado. O crescimento do número de carros, a ocupação agressiva do espaço público, a falta de estacionamento até em locais improváveis, como na outrora pacata ilha do Sal, apesar de um turismo que já existia, mas que agora assume outra escala e impacto.

Vieram também os aumentos sucessivos dos preços, até nos bens mais básicos, o encarecimento das rendas e a escassez de habitação disponível. Com isso, surgiram obras por todo o lado: contínuas, fragmentadas, arrastando-se sem prazo definido – as mesmas que sendo-me vizinhas, me inspiraram a esta reflexão. Em qualquer bairro, em qualquer rua, ouve-se um berbequim, um martelo, uma demolição. O ruído torna-se permanente e imprevisível, infiltrando-se na vida quotidiana como um fundo constante de agressão sensorial.

Não se trata apenas de uma alteração de costumes. Trata-se de um confronto direto com a própria ideia de limite — limite físico, psicológico e jurídico. A vida privada parece cada vez menos protegida. A jurisdição corre atrás dos factos, incapaz de acompanhar a intensidade e a velocidade das transformações. Instala-se, assim, a sensação inquietante de que existe uma guerra difusa contra a vida humana, ou pelo menos contra a sua qualidade de vida.

 

É neste contexto que a saúde começa a deteriorar-se. Desde 2021, muitos relatam uma quebra da imunidade, um cansaço profundo, uma pressa constante, uma incapacidade de repouso verdadeiro. O stress deixa de ser episódico e torna-se estrutural. O corpo passa a viver em estado de alerta permanente, não por fragilidade individual, mas porque o ambiente se tornou incessantemente exigente, invasivo e imprevisível. E como impactam estas condições o sistema nervoso, para não falarmos da psique inerentemente a este unida?

O sistema nervoso reage sobretudo à imprevisibilidade – é esta que convoca o alarme, a vigilância interior, especialmente quando há repetição de estímulos. Estímulos que surgem sem aviso ativam automaticamente o estado de alerta, mesmo em pessoas calmas e resilientes. Quando não existe um prazo definido para o fim da situação, o corpo mantém-se em vigilância contínua, porque nunca recebe um sinal claro de segurança. A casa, que deveria ser o principal espaço de recuperação do sistema nervoso, deixa de cumprir essa função quando é invadida repetidamente; o corpo perde, assim, a possibilidade de descansar e recuperar.

E como poderia o sistema nervoso distinguir se o ruído é “legal” ou “temporário”? Apenas reage ao impacto real, repetido e prolongado. Resistência emocional não significa imunidade fisiológica. Pessoas tolerantes podem aguentar mais tempo, mas o desgaste acumula-se e manifesta-se mais tarde. Mesmo um sistema nervoso forte entra, assim, em estado de alerta permanente sempre que exposto a estímulos imprevisíveis, prolongados e fora de controlo, sobretudo dentro do espaço de habitação ou naquele onde a pessoa passa longas horas do seu dia. Precisamos de atenção a novos cuidados pessoais, para que não venhamos a acompanhar Fernando Pessoa quando escreve:

“Sinto-me às vezes tão cansado que não sinto coisa nenhuma, nem o cansaço.”

30 de Janeiro de 2026, , Santa Maria, Sal.

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