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Da Relevância Diplomática ao Isolamento: O Retrocesso da Política Externa Cabo-verdiana

Por: Prof. Dr. Julio C. de Carvalho

Na década de 1980, quando integrei o pessoal da embaixada de Cabo Verde em Washington, D.C., o país contava com menos de dez anos de independência. Era, à época, uma nação ainda pouco conhecida no panorama internacional. Contudo, foi precisamente nesse contexto de fragilidade que a diplomacia cabo-verdiana revelou a sua grande capacidade estratégica.

Graças a uma atuação consistente, bem orientada e altamente qualificada, a embaixada em Washington conseguiu não apenas estabelecer relações sólidas com o governo dos Estados Unidos, como também conquistar acesso e credibilidade junto das mais altas instâncias do poder político americano, incluindo o Congresso e autoridades estaduais em regiões historicamente ligadas à diáspora cabo-verdiana.

Essa credibilidade, aliada ao contexto geopolítico da época, marcada pela instabilidade na África Austral em pleno período da Guerra Fria, permitiu a Cabo Verde assumir um papel relevante como mediador e/ou facilitador na busca de soluções diplomáticas para os conflitos que envolviam a África do Sul e países da região, com particular destaque para Angola. Esse protagonismo foi reconhecido ao mais alto nível, nomeadamente com a visita do Presidente Aristides Pereira a Washington, onde se reuniu com o Presidente Ronald Reagan, na sequência de vários encontros bilaterais realizados tanto nos Estados Unidos como em Cabo Verde.

Relembrar esse período é essencial, pois demonstra que uma diplomacia competente, estratégica e orientada pelo interesse nacional pode gerar resultados concretos e prestígio internacional. Diante disso, impõe-se uma questão: o que aconteceu à diplomacia cabo-verdiana atual nas suas relações com os Estados Unidos?

Hoje, o cenário é substancialmente diferente e é motivo de preocupação. A assertividade de outrora deu lugar a uma aparente inércia. Os sinais de negligência acumulam-se, com impactos diretos sobre os cidadãos cabo-verdianos. Um exemplo particularmente preocupante é a inclusão de Cabo Verde em medidas restritivas severas por parte dos Estados Unidos no domínio da mobilidade e imigração, apesar das facilidades e privilégios concedidos aos EUA em território cabo-verdiano, nomeadamente no âmbito do SOFA e da construção de infraestruturas ligadas à defesa, à segurança e à presença diplomática americana na região.

Na prática, Cabo Verde passou a integrar listas de países sujeitos a fortes limitações ou mesmo anulações no que respeita à mobilidade turística e migratória. Tal situação parece ignorar os profundos e seculares laços históricos que unem os dois países. Perante isso, questiona-se: que ações concretas adotou a diplomacia cabo-verdiana para prevenir ou reverter essas medidas? A resposta, infelizmente, parece ser: muito pouco ou nada de relevante.

Em vez de uma abordagem diplomática discreta, contínua e eficaz junto das autoridades americanas, o governo opta publicamente por atribuir responsabilidades a cidadãos cabo-verdianos que, por razões diversas, ultrapassaram o prazo legal de permanência nos Estados Unidos. Uma estratégia mais construtiva passaria por valorizar e reforçar os laços históricos e estratégicos que distinguem a relação bilateral entre os dois países.

Nos anos 80, Cabo Verde destacou-se como um parceiro credível e útil para os Estados Unidos, alcançando um nível de relacionamento digno de reconhecimento. Hoje, observa-se um certo desleixo e, por vezes, uma aparente desvalorização da diáspora cabo-verdiana nos Estados Unidos.

A história demonstra que Cabo Verde tem capacidade para fazer mais e melhor. A questão que permanece é saber se há vontade política para inverter o rumo atual. Só o tempo permitirá responder a essa pergunta.

* Residente nos Estados Unidos, o Professor Doutor Júlio C. de Carvalho integrou a equipa da Embaixada de Cabo Verde em Washington, D.C., durante a década de 1980. É membro da União Caboverdeana Independente e Democrática (UCID), partido político cabo-verdiano, e candidato às eleições legislativas de 17 de maio, pelo círculo eleitoral da África.

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