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Sociedade

Cinema/memória: Luandino Vieira: o Tarrafal de uma vida

A primeira pergunta a fazer é quanto valem oito anos de cativeiro numa vida que já leva 91, acabados de cumprir esta segunda-feira. Qual o peso do silêncio de dias, semanas, meses, de Natais, datas de aniversário, de milhares de linhas das muitas cartas, anotações, histórias, escritas ao longo desse tempo. E o que resta hoje de tudo isso, passados que estão quase sessenta anos? É o que a realizadora portuguesa Sandra Inês Cruz procura responder a estas e a outras questões ao longo do filme Chão Verde de Pássaros Escritos, estreado o mês passado nas salas de cinema de Portugal, e que tem a prisão do Tarrafal e o angolano José Luandino Vieira como protagonista e cenário. 

Os anos e as várias vidas retratadas no documentário são os do escritor luso-angolano José Luandino Vieira. Mas também do homem e activista pela liberdade da sua pátria de adopção, José Vieira Mateus da Graça, natural de Lagoa do Furadouro, em Vila Nova de Ourém (1935). A infância e a juventude estavam destinadas a ser vividas entre o centro de Luanda e os musseques da periferia. Entre a escrita e o desporto, em jogos de futebol, de onde lhe viria a alcunha tornada pseudónimo literário: “Eu só jogava pela equipa de Luanda, por isso fiquei o Luandino”. 

As primeiras letras são orientadas por António Cardoso e António Jacinto para temas no campo mais social. Luandino é demasiado irrequieto para a disciplina escolar e abandona cedo a sala de aulas, preferindo a rotina e a curiosidade do trabalho prático, como lidar com peças de camiões. Mas lê muito, tudo o que lhe chega às mãos, sobretudo pela via clandestina. Durante o serviço militar, torna-se bibliotecário do quartel de Luanda. Mas também é cada vez mais cinéfilo e será um dos fundadores do cineclube de Luanda, ocupando-se a desenhar os cartazes dos filmes que lhes chegam para exibição. 

Em 1959, conhece a prisão pela primeira vez, na cadeia de São Paulo, em Luanda, depois de denunciado pelo dono de uma tipografia sobre o conteúdo de uns escritos que tencionava publicar. Participou também na campanha da candidatura do general Humberto Delgado, colando cartazes. Depois de solto casa com Hermelinda Cunha, Linda para os amigos, que irá ser a sua âncora nos anos duros que lhe esperam. Mas nada disso se adivinha quanto se prepara para embarcar, na cidade do Porto, com Linda e o filho Alexandre, de meses, o ‘Xexe’, para Inglaterra, para uma formação na empresa para a qual trabalha. O avião é mandado parar na pista e Luandino acaba na prisão do Aljube, em Lisboa. 

De Luanda para o Tarrafal

Dali é reenviado para Luanda, pela PIDE, que ordena a sua prisão. Luandino diz à Linda que se deve tratar de um mal-entendido, que tudo se irá resolver dentro de dias. Mas não é. Irá passar os três anos seguintes pelas cadeias angolanas, numa aprendizagem de personagens e factos que farão parte da literatura angolana: a vida verdadeira de Domingos Xavier, as vidas das gentes dos musseques, muitos desenhos para ilustrar textos e poemas, publicados em Luanda, de onde também tira algum rendimento. 

A partir 2 de Julho de 1963, a vida de José Vieira Mateus da Graça vai mesmo mudar completamente. É condenado a 14 anos de prisão maior pelo crime de “conspiração para separar da mãe-pátria a província de Angola”. Uma pena de prisão a ser cumprida em Cabo Verde, no Campo de Trabalho de Chão Bom, no Tarrafal de Santiago, juntamente com António Jacinto e António Cardoso, todos eles escritores nacionalistas.

Luandino e os dois companheiros embarcam para as duas semanas de viagem no navio Quanza. É uma nova vida que começa, um outro tempo que chega. Um tempo diferente, numa terra estranha e de outras gentes. Uma vida que irá florescer nas cartas que envia à esposa Linda. Os anos irão passar muito lentamente e trazer consigo muita angústia e questionamentos vários. Luandino refugia-se no mundo das palavras, das estórias que dali irão surgir, nas memórias de uma vivência rica por terras angolanas, algumas recolhidas ou inspiradas das muitas estórias que vai ouvir dos camaradas angolanos presos em Chão Bom. 

São dezenas de outros companheiros presos que ele encontra nas casernas do Tarrafal: 31 angolanos (do processo dos 50) pertencentes ao MPLA e à UPA/FNLA e mais tarde da UNITA, e guineenses. Para além da camaradagem, Luandino tem os livros de Maxim Gorky, Shakespeare e a Bíblia, como companhia. Discute a literatura de Guimarães Rosa com António Jacinto, Liceu Vieira Dias e António Cardoso. Está decidido: irá adoptar o estilo inovador da linguagem do escritor brasileiro, na sua recriação do universo literário angolano. 

O chão verde e os pássaros da escrita

Chão Verde de Pássaros Escritos como que resume no título o chão que Luandino calcorreia pelo perímetro em volta do Campo e a cor verde da chuva que cai a cada ano. É o chão ora duro e seco, ora verde e fresco que revitaliza a escrita e dela faz nascer vidas passadas algures na memória do escritor. Estes escritos do Tarrafal irão no futuro ver a luz do dia numa compilação, com o título “Papéis da Prisão” (17 cadernos, de entre 1962-1971, publicados pela Caminho e a Fundação Calouste Gulbenkian). Nos pássaros do título está a paixão de Luandino pelos passarinhos, cuja alcunha do filho Alexandre também é ‘Xexe’, nome de pássaro angolano. 

O filme de Sandra Cruz está entre o documentário e a reportagem, num género indefinido e contendo elementos destas duas formas da narrativa através de imagens.  Um modelo escolhido para retratar oito anos de resistência, numa vida como que condenada, mas de grande intensidade literária. Os escritos são vários: contos, novelas, cartas para Linda, e o diário. Este último como espaço do registo íntimo, juntamente com as cartas à mulher. Mas se as cartas são o cordão umbilical que o mantém ligado à vida familiar, cartas detalhadas, extensas, escritas numa caligrafia disciplinada, clara e rica de emoções, o diário vai perdendo a capacidade para reter as suas reflexões. 

Joaquim Arena

Leia a matéria na íntegra na Edição 975 do Jornal A Nação, de 07 de Maio de 2026

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