
Por: Alector Timas
Há eleições que decidem governos. Há eleições que decidem eras. As legislativas cabo-verdianas de 17 de maio de 2026 situam-se algures entre estes dois territórios, e é precisamente essa ambiguidade que as torna politicamente fascinantes e analiticamente exigentes.
I. O peso do tempo e o sopro da mudança
Cabo Verde, este pequeno arquipélago atlântico que o mundo admira como exceção democrática africana, chega a esta data com uma pergunta que nenhum dado estatístico responde por si só, o crescimento económico dos últimos anos chegou, de facto, à mesa das famílias?
Quanto mais tempo um partido governa, menor é a tolerância do eleitorado para com os seus erros. O MpD enfrenta, em 2026, aquilo que a literatura designa como a maldição do terceiro mandato, o desgaste cumulativo de dez anos de poder, agravado pela inflação pós-pandémica e pelo custo de vida crescente.
II. A conta do custo de vida
Os números macroeconómicos são, objetivamente, razoáveis. Cabo Verde recuperou bem da pandemia, manteve a credibilidade internacional e atraiu investimento externo. Porém, os números macroeconómicos não pagam a renda. Não baixam o preço dos produtos no mercado. Não cobrem os custos de uma deslocação de emergência de Santo Antão à Praia.
A teoria do voto económico é implacável, em 2026, a inflação acumulada e a erosão do poder de compra serão faturas cobradas diretamente ao executivo.
III. O PAICV e a arte de capitalizar o descontentamento
Francisco Carvalho construiu, ao longo de dois mandatos como autarca da Praia, o último ganho com 61 por cento dos votos, uma imagem de eficácia local. A vitória do PAICV em quinze das vinte e duas câmaras municipais em dezembro de 2024 foi um sismo político que redesenhou o mapa do poder em Cabo Verde.
A narrativa do partido governo enxuto, emprego como prioridade, passagens mais baratas e transparência, é simultaneamente apelativa e coerente. O risco está no que vem a seguir, as expectativas criadas são elevadas e a margem para as defraudar, em caso de vitória, é estreita.
Os números macroeconómicos são, objetivamente, razoáveis. Cabo Verde recuperou bem da pandemia, manteve a credibilidade internacional e atraiu investimento externo. Porém, os números macroeconómicos não pagam a renda. Não baixam o preço dos produtos no mercado. Não cobrem os custos de uma deslocação de emergência de Santo Antão à Praia. A teoria do voto económico é implacável, em 2026, a inflação acumulada e a erosão do poder de compra serão faturas cobradas diretamente ao executivo.
IV. A juventude e o eleitorado que os partidos não conquistam
Nenhum tema é mais consensualmente reconhecido e menos eficazmente tratado do que o desemprego jovem. A abstenção superior a cinquenta por cento nas autárquicas de 2024, especialmente pronunciada entre os dezoito e os trinta e cinco anos, não é indiferença, é uma declaração de descrença.
O PTS incorpora autenticamente esta geração nas suas listas. A UCID tenta captar o jovem urbano que rejeita o bipartidarismo. Todavia, o PAICV e o MpD apresentam propostas que carecem da urgência que o problema exige.
O partido que mobilizar eficazmente este eleitorado abstencionista, particularmente em Santiago Sul, obterá uma vantagem que nenhuma sondagem consegue prever.
V. A UCID e o valor da terceira via
Seria um erro subestimar a UCID. Com quatro deputados e implantação sólida em São Vicente, o partido de João Santos Luís representa a possibilidade de um parlamento onde o bipartidarismo não seja absoluto.
Num cenário de governo minoritário, plausível à luz dos dados disponíveis, a UCID transforma-se no árbitro político por excelência, com uma influência desproporcional à sua dimensão numérica.
VI. O que estas eleições não dizem
A análise honesta exige reconhecer o que não sabemos, não existem sondagens metodologicamente rigorosas e publicamente disponíveis.
Sabemos, contudo, que o eleitor cabo-verdiano tem demonstrado, ao longo de trinta e cinco anos de democracia, uma capacidade consistente de alternância e de avaliação racional do desempenho governativo.
Vota com o estômago, avaliando o custo de vida, mas também com a cabeça, analisando a competência de gestão.
VII. Um país a decidir o seu caminho
As eleições de 17 de maio de 2026 são sobre o tipo de Estado que Cabo Verde quer ter nos próximos cinco anos, um Estado que continua o modelo de modernização liberal, ou um Estado que coloca a redistribuição e a proximidade no centro das suas prioridades.
As tendências disponíveis, a força expressa nas autárquicas, o custo de vida como variável punitiva e a mobilização da oposição, apontam para que 17 de maio seja, muito provavelmente, um dia de mudança. A história dirá se foi apenas uma mudança de partido ou o início de uma transformação mais profunda na forma como Cabo Verde honra os seus jovens e responde ao chamado de uma democracia madura.

