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“Mêsti muda”

Por: João Serra*

A campanha eleitoral recolocou no centro do debate a narrativa de uma década de sucesso: crescimento, estabilidade e progresso social. Mas essa leitura não resiste a uma análise mais abrangente. O que os dados e os factos mostram é um país que recuperou parcialmente de choques externos, mas que não concretizou a transformação estrutural prometida em 2016 e 2021, não resolveu fragilidades centrais – e falhou de forma particularmente evidente num domínio crítico: os transportes.

A promessa inicial era clara: rutura com o passado, diversificação económica, criação de emprego digno, transformação de Cabo Verde num “hub” aéreo e marítimo, investimento em infraestruturas e despartidarização do Estado. Dez anos depois, uma parte significativa desse programa continua no domínio do anúncio, e não da concretização. Pior: várias dessas promessas estão agora a ser recicladas nesta nova campanha eleitoral, como se o país pudesse esquecer que já ouviu o mesmo enredo, em duas campanhas eleitorais, e esperou, em vão, pelos resultados.

No plano económico, não houve o “milagre” anunciado. Houve recuperação, sim, sobretudo após a pandemia, mas não houve transformação estrutural. O crescimento médio ficou muito aquém da meta política originalmente proclamada de 7% ao ano e continuou excessivamente dependente do turismo e de setores de serviços vulneráveis a choques externos, enquanto  as despesas de funcionamento do Estado e a dívida pública cresceram de forma inquietante, restringindo a margem de manobra do Estado e desmentindo, na prática, a ideia de uma gestão orçamental exemplar.

Mas é no setor dos transportes que o falhanço da governação se torna mais evidente e estrutural. Num país arquipelágico, a mobilidade não é um assunto secundário; é uma condição de integração nacional, de coesão territorial, de desenvolvimento económico e de cidadania efetiva. Ora, foi precisamente neste domínio que o desempenho governativo ficou mais aquém do prometido. Os aeroportos anunciados para ilhas como Santo Antão, Fogo e Maio continuaram, em larga medida, no plano da promessa, enquanto a modernização dos portos nas ilhas do Maio, Fogo e Santo Antão praticamente não avançou.

O caso dos transportes marítimos é particularmente eloquente. Em vez de se afirmar como eixo de integração nacional, o sistema continuou a funcionar como obstáculo quotidiano à mobilidade dos cidadãos. Horários incertos, custos elevados, disfunções operacionais e falta de previsibilidade transformaram o que deveria ser um serviço público essencial num fator de frustração permanente. Num país de ilhas, isto não é um detalhe logístico: é uma falha estrutural de governação.

No setor aéreo, o cenário não é melhor. A trajetória da TACV – transformada em Cabo Verde Airlines – tornou-se um exemplo paradigmático de decisões erráticas e dispendiosas. Entre privatizações malconduzidas, reversões onerosas e sucessivas intervenções públicas, o resultado foi um pesado encargo para os contribuintes e o fracasso da ambição de transformar o país num “hub” aéreo competitivo. O projeto, amplamente anunciado como estruturante, acabou por se traduzir num ciclo de erros estratégicos e avultadíssimos custos acumulados.

A última década ficou marcada por crescimento insuficiente, dívida elevada, poder de compra em erosão, emprego de baixa qualidade, pobreza mal medida e – de forma particularmente crítica – um falhanço estrutural no setor dos transportes, que continua a bloquear a mobilidade e a integração do país. A isto soma-se uma degradação institucional evidente, marcada por uma excessiva partidarização do Estado e do espaço público, nepotismo e falta de transparência. Cabo Verde não está em colapso. Mas também não está na trajetória de desenvolvimento prometida. 

A mesma lógica de promessa não cumprida repete-se noutras áreas estruturantes. O Hospital Nacional foi anunciado como resposta de fundo às fragilidades da saúde, mas continua por concretizar. Os projetos de saneamento básico, sobretudo nas periferias urbanas, foram apresentados como prioridade social e sanitária, mas os avanços ficaram muito aquém do prometido. 

No plano social, o país também não saiu do lugar que lhe foi prometido. O custo de vida aumentou de forma persistente, a inflação corroeu o poder de compra e os rendimentos não acompanharam a subida dos bens essenciais. As famílias sentem isso na alimentação, na habitação, na energia e nos transportes. A classe média foi sendo comprimida e os agregados mais vulneráveis continuaram expostos a uma pressão crescente. A estabilidade macroeconómica, quando existe, não se traduz automaticamente em bem-estar concreto.

Quanto ao emprego, as promessas ficaram muito aquém do anunciado. O compromisso de criar 45 mil empregos dignos não foi cumprido, e a realidade mostra um país incapaz de absorver, em condições aceitáveis, o talento que forma. O resultado é conhecido: emigração, frustração e perda de capital humano.

No dossier da pobreza, os dados divulgados foram rapidamente apresentados como prova de uma redução histórica, mas a metodologia usada levanta sérias reservas: limiares desatualizados, critérios internacionais inadequados ao estatuto do país e atrasos na publicação dos resultados definitivos. Em termos substantivos, isso fragiliza a conclusão de que houve uma redução real e sustentada da pobreza; em termos políticos, permite ao poder construir uma imagem mais favorável do que a realidade justifica.

No plano institucional, o balanço é igualmente preocupante. A prometida despartidarização da Administração Pública deu lugar a uma rápida e nunca dante vista partidarização do Estado. A lógica de nomeações por proximidade política e familiar – os chamados “jobs for the boys” – tornou-se recorrente, promovendo a mediocridade e desvalorizando o mérito.

O nepotismo, o compadrio e a opacidade em decisões públicas alimentam suspeitas de favorecimento e indícios persistentes de corrupção. A falta de transparência e de escrutínio efetivo corrói a confiança nas instituições e enfraquece a qualidade da governação.

A isto junta-se um ambiente propício à autocensura, marcado por pressões indiretas e dificuldades de acesso à informação. A liberdade formal mantém-se, mas o seu exercício torna-se mais condicionado, limitando o debate público e o escrutínio democrático.

É neste contexto que o martelamento estatístico assume o seu papel mais visível. Quando faltam resultados sólidos, multiplicam-se os números convenientes, selecionam-se períodos de comparação favoráveis e atamancam-se dados como prova de êxito. Mas a realidade não desaparece por ser mal-enquadrada. Pois, os cidadãos continuam a ver o que lhes falta, a sentir o que lhes pesa e a perceber a distância entre o discurso e a vida concreta.

Em síntese, a última década ficou marcada por crescimento insuficiente, dívida elevada, poder de compra  em erosão, emprego de baixa qualidade, pobreza mal medida e – de forma particularmente crítica – um falhanço estrutural no setor dos transportes, que continua a bloquear a mobilidade e a integração do país. A isto soma-se uma degradação institucional evidente, marcada por uma excessiva partidarização do Estado e do espaço público, nepotismo e falta de transparência.

Cabo Verde não está em colapso. Mas também não está na trajetória de desenvolvimento prometida. Está, isso sim, num ponto em que a repetição das promessas já não consegue esconder a persistência dos problemas – nem o custo de uma década que ficou aquém do que foi anunciado.

É por isso que “mesti muda”.

Praia, 09 de maio de 2026

*Doutorado em Economia/Blog: www.economianaserra.blogspot.com)

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