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A necessária reformulação das competições da CAF: uma perspetiva cabo-verdiana

Por: William Sena Vieira 

Tal como existe espaço para gigantes históricos do futebol africano, como o Al Ahly SC, Espérance Sportive de Tunis, Orlando Pirates, Wydad AC e Raja Club Athletic, também deve existir espaço competitivo e institucional para clubes representativos de mercados emergentes e insulares, como o SC Mindelense, Sporting Clube da Praia, Boavista Futebol Clube da Praia, Sport Bissau e Benfica, ASC Diaraf. 

Afinal, o verdadeiro crescimento do futebol africano só será possível quando o desenvolvimento continental incluir, de forma equilibrada, tanto as grandes potências tradicionais como os pequenos ecossistemas futebolísticos que procuram afirmar-se no panorama africano.

A recente conquista e afirmação do Mamelodi Sundowns no panorama do futebol africano volta a colocar em evidência a evolução gradual das competições organizadas pela Confederação Africana de futebol. Sob a liderança de Patrice Motsepe, a organização continental (CAF) iniciou um processo de modernização institucional, comercial e competitiva que merece reconhecimento.

O aumento das receitas associadas às competições africanas, o reforço dos critérios de licenciamento de clubes e estádios, a melhoria da organização competitiva e a crescente preocupação com a valorização do produto “futebol africano” demonstram uma visão mais estruturada, profissional e alinhada com as exigências do desporto contemporâneo.

Contudo, apesar dos progressos alcançados, persistem profundas assimetrias entre os diferentes ecossistemas futebolísticos do continente. A realidade financeira, logística e estrutural dos clubes africanos continua marcada por fortes desigualdades, limitando a capacidade de participação regular de inúmeras equipas oriundas de mercados emergentes ou geograficamente periféricos, como é o caso de Cabo Verde.

Neste contexto, torna-se pertinente refletir sobre a necessidade de a CAF avançar para uma reformulação mais abrangente do seu modelo competitivo, através da criação de uma terceira competição continental de clubes, inspirada em determinados princípios da UEFA Conference League, mas naturalmente adaptada às especificidades económicas, territoriais e infraestruturais do continente africano.

A implementação de uma competição inicialmente regionalizada, organizada por zonas geográficas, poderia representar uma solução estratégica para promover maior equilíbrio competitivo, sustentabilidade financeira e inclusão desportiva no futebol africano.

Torna-se pertinente refletir sobre a necessidade de a CAF avançar para uma reformulação mais abrangente do seu modelo competitivo, através da criação de uma terceira competição continental de clubes, inspirada em determinados princípios da UEFA Conference League, mas naturalmente adaptada às especificidades económicas, territoriais e infraestruturais do continente africano. (…)Tal como existe espaço para gigantes históricos do futebol africano, como o Al Ahly SC, Espérance Sportive de Tunis, Orlando Pirates, Wydad AC e Raja Club Athletic, também deve existir espaço competitivo e institucional para clubes representativos de mercados emergentes e insulares, como o SC Mindelense, Sporting Clube da Praia, Boavista Futebol Clube da Praia, Sport Bissau e Benfica, ASC Diaraf. 

Na perspetiva cabo-verdiana, os benefícios de um modelo desta natureza seriam particularmente relevantes.

Clubes históricos e representativos do futebol nacional como o Boavista, SC Mindelense, Palmeira, Sporting da Praia, poderiam passar a participar com maior regularidade em competições internacionais, sem que os elevados custos logísticos atualmente associados às provas continentais constituíssem um fator de exclusão quase automática. A redução das despesas com deslocações, alojamento e organização permitiria uma participação mais sustentável e lucrativa, sobretudo para clubes provenientes de economias desportivas de pequena dimensão e territórios insulares.

Paralelamente, a introdução de prémios financeiros de participação, incentivos por resultados desportivos e receitas associadas ao desempenho competitivo poderia transformar a realidade económica dos clubes cabo-verdianos.

Importa sublinhar que, no futebol contemporâneo, as competições internacionais representam um dos principais instrumentos de geração de receitas, valorização institucional e crescimento estrutural dos clubes. Na Europa, as provas organizadas pela UEFA constituem uma componente essencial do modelo económico de inúmeras organizações desportivas. Em determinadas ligas, como sucede nos Países Baixos, parte das receitas geradas pelo desempenho europeu dos clubes é redistribuída internamente, reforçando a competitividade global da Liga e promovendo maior equilíbrio financeiro entre os participantes.

Em África, porém, a realidade permanece substancialmente distinta. Para muitos clubes, a participação continental continua a representar um esforço financeiro elevado, frequentemente sem retorno económico proporcional. Esta situação condiciona não apenas o desenvolvimento institucional dos clubes, mas também a competitividade e a atratividade global das próprias competições africanas.

Cabo Verde não constitui exceção. Persistem limitações estruturais e financeiras que dificultam uma presença africana mais consistente e competitiva por parte dos clubes nacionais.

A criação de uma competição africana regionalizada poderia, por conseguinte, produzir impactos positivos em múltiplas dimensões: fortalecimento institucional dos clubes, valorização dos atletas nacionais, incremento da visibilidade internacional do futebol cabo-verdiano, atração de patrocinadores, desenvolvimento do mercado desportivo e estímulo à profissionalização gradual do setor.

Mais do que uma simples expansão competitiva, tratar-se-ia de um verdadeiro mecanismo de integração desportiva e económica dos diferentes ecossistemas futebolísticos africanos.

A CAF encontra-se atualmente perante um desafio estratégico decisivo: continuar a desenvolver prioritariamente os mercados historicamente dominantes ou construir um modelo verdadeiramente de integração capaz de integrar competitivamente os seus 54 países membros.

O futuro do futebol africano dependerá, em grande medida, da capacidade de criar oportunidades válidas para os clubes oriundos de mercados emergentes, permitindo-lhes competir, desenvolver-se institucionalmente e consolidar modelos de gestão mais profissionais e economicamente mais lucrativa. 

Neste sentido, uma competição continental regionalizada poderá deixar de ser apenas uma ideia conceptual para se afirmar como uma necessidade estrutural para o crescimento equilibrado do futebol africano.

O verdadeiro desenvolvimento do futebol africano não poderá limitar-se às grandes potências continentais. 

Tal como existe espaço para gigantes históricos do futebol africano, como o Al Ahly SC, Espérance Sportive de Tunis, Orlando Pirates, Wydad AC e Raja Club Athletic, também deve existir espaço competitivo e institucional para clubes representativos de mercados emergentes e insulares, como o SC Mindelense, Sporting Clube da Praia, Boavista Futebol Clube da Praia, Sport Bissau e Benfica, ASC Diaraf. Afinal, o verdadeiro crescimento do futebol africano só será possível quando o desenvolvimento continental incluir, de forma equilibrada, tanto as grandes potências tradicionais como os pequenos ecossistemas futebolísticos que procuram afirmar-se no panorama africano.

Terá necessariamente de incluir também os pequenos mercados, os territórios insulares e as federações emergentes que, apesar das suas limitações estruturais, continuam a representar uma parte fundamental da identidade e da diversidade do futebol africano.

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