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Colunistas

Não era “supuesto” que fosse assim

Por: José Vicente Lopes

1. Há momentos em que os cépticos, niilistas, amargos e cínicos, de trazer por casa, têm de se render à força dos optimistas, porque são estes que normalmente tornam possíveis os sonhos mais inimagináveis deste mundo. Ao contrário dos optimistas, dos cépticos pouco ou nada reza a História. É preciso ser optimista para acreditar que o impossível deixa de ser impossível até o dia em que alguém o torna possível, como disse Nelson Mandela. 

Quando soube que a nossa selecção iria estrear-se no seu primeiro Mundial de Futebol contra a toda poderosa Espanha, eu disse cá para os meus botões que os deuses podiam ser mais colaborativos, pondo-nos a jogar com uma equipa do nosso campeonato, ou que a diferença não fosse tão abissal, quando mais não fosse para ganharmos confiança e que o resto, depois, com muita água e camoca, ficaria por nossa conta. Mas qual quê!… 

Eu, que ainda hoje carrego a lembrança da humilhação dos 21-0 aplicada pelo Sporting de Portugal ao Mindelense, só eu sei o que sofri junto dos meus amiguinhos angolanos na altura. Lembro-me de um deles a perguntar-me, espantado, ‘Vocês em Cabo Verde jogam com coco?!’ Rezei, por isso, para que a Espanha, ainda que nos vencesse, não nos humilhasse, como a Austrália chegou a fazer à pobre selecção de Samoa, em 2001, a quem aplicou 31-0, depois ter feito o mesmo à equipa de Tonga, por 22-0. Os grandes, quando encontram pobres diabos pelo caminho, têm um prazer mórbido em pôr os desgraçados da terra no seu devido lugar. Não só os vencem, como os espezinham. 

Por isso, cá por mim, era “supuesto” que no jogo contra Cabo Verde, a Espanha fosse apenas fazer um jogo treino, com muitos “olés” pelo meio, como fazem quando toureiam o desgraçado do touro antes de lhe espetarem o sabre mortal, arrastando-o depois de “muerto” para fora da arena, debaixo da ovação dos aficionados da tauromaquia. Com o “um por cento” de hipótese que FIFA atribuiu a Cabo Verde, me pus diante do televisor à espera, estoicamente, do massacre anunciado à Galáxia do Futebol. Felizmente, para alívio meu, sobrevivemos a essa prova de fogo, deixando o mundo incrédulo e ao mesmo tempo fascinado com os nossos tubarões azuis. 

Ir ao Mundial pela primeira vez e enfrentar a Espanha, num empate com sabor à vitória, não é um feito qualquer, como já muitos disseram, em cima da sua sapiência futebolística. Para nosotros, cabo-verdianos, isto é muito mais que futebol, como logo tratei de aprender. É a prova, como diz o lugar comum, de que os pequenos podem também enfrentar os grandes e sair do campo com a cabeça erguida. 

Sim, sim, é verdade, eu também nasci e cresci a ouvir a história de David e Golias, mas isso era naqueles tempos antigos e bíblicos em que Deus, sempre in extremis, lá acabava por aparecer em socorro do infeliz do momento. Hoje, a conversa é outra, bem diferente. Se o mais fraco não toma cuidado, são bombas e drones para cima dele até se render.  

Independentemente de tudo o que ainda está por acontecer, o empate contra a Espanha passa a integrar, por direito próprio dos Tubarões Azuis, a nossa história enquanto povo e nação. 15 de Junho de 2026 tornou-se, pois, a todos os títulos, um dia memorável

No caso de nosotros, cabo-verdianos, são cinquenta anos de história, de luta permanente, nos mais variados sectores da nossa vida de nação independente, um quadro em que o optimismo improvável teve de enfrentar o cepticismo cínico e cruel sugerido pela realidade. Entre aquela humilhação de 1971 e o jogo contra a Espanha desta segunda-feira, 15 de Junho, eu sei o que isso significa para mim e isso basta-me. 

O empate contra a Espanha é por isto também uma grande vitória contra aquilo que o filósofo português José Gil chamou “medo de existir”, um mal atávico que, segundo ele, ainda hoje paralisa muitos dos seus compatriotas. No nosso caso, Cabo Verde, mais do que “medo de existir”, o nosso empate com a Espanha foi um grande golo contra o nosso “medo da insignificância”. Aos povos pequenos só lhes resta agigantarem-se, tornando possível o que à partida parece ser impossível.  

Por mim, Cabo Verde já venceu esta Copa, facto comprovado na onda de imagens que estes dias vão inundando as redes sociais, vindas dos mais variados lugares do mundo. Onde quer que exista um cabo-verdiano não há um que tenha ficado indiferente a esta prazerosa vitória. Pela primeira vez na história, Cabo Verde apareceu nas primeiras páginas de alguns dos mais importantes jornais do mundo. E nisto não podia faltar gente feliz com lágrimas, como aconteceu ao Vozinha e outros colegas seus, mas também a muitos cabo-verdianos anónimos, tomados pela emoção, no fim do jogo, quando era suposto que seríamos o bombo da festa, o pobre touro que os espanhóis nas suas touradas retiram da arena depois de muito o destratarem até enfiarem-lhe o sabre mortal.  

Graças a esta Copa, Cabo Verde é, mais do que nunca, uma ideia com muita força, uma força que que nos ultrapassa a todos, individualmente, mesmo que não saibamos ao certo aonde é que isso nos poderá levar. Mesmo assim, seguindo jogando “o nosso jogo”, como costuma dizer o Bubista, no fim de cada partida haveremos de saber a resposta. Independentemente de tudo o que ainda está por acontecer, o empate contra a Espanha passa a integrar, por direito próprio dos Tubarões Azuis, a nossa história enquanto povo e nação. 15 de Junho de 2026 tornou-se, pois, a todos os títulos, um dia memorável.   

2. No meio da alegria que a Copa nos tem proporcionado, passou quase despercebida a notícia da sentença que condenou o agente da polícia portuguesa que matou Odair Moniz, em Lisboa, há três anos e meio. Provado que Odair não tinha faca nem punhal, provado que o agente que o baleou passou dos limites aceitáveis da sua actuação, mesmo assim, o tribunal condenou o assassino a três anos e seis meses com pena suspensa. 

Na mesma semana, veja-se a ironia, um fulano que teve um problema de VBG foi condenado a três anos com pena suspensa. Através de um eventual recurso da defesa e quiçá do Ministério Público, a justiça portuguesa ainda vai a tempo de nos mostrar que o julgamento do assassino de Odair Moniz na primeira instância está longe de ter sido justo. Até aqui foi, no mínimo, indecente. 

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