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Da análise política Cabo Verde: os governos e a perturbante lógica do curto prazo

Por: Rui Pereira

Há uma pergunta que raramente se faz em voz alta nos corredores  do poder em Cabo Verde, mas que a história e a realidade nos obrigam, cada vez mais, a colocar com urgência: estamos a governar para hoje, ou para as próximas gerações?

A resposta, se formos honestos, é inquietante.

A sombra de Cabral e a pergunta que ficou por responder

Amílcar Cabral foi assassinado a 20 de janeiro de 1973, oito meses antes da independência da Guiné-Bissau e dois anos antes da independência de Cabo Verde. Tinha 49 anos. Era agrónomo, intelectual, estratega, poeta. Era, acima de tudo, um homem que pensava o futuro com a seriedade de quem sabe que o presente é apenas um ponto de passagem.

Mas fica a pergunta: teve Amílcar Cabral tempo de projetar, em profundidade, o tipo de Estado e de governação que Cabo Verde precisaria de ser? Teve tempo de arquitetar o modelo de desenvolvimento que um arquipélago sem recursos naturais, espalhado pelo Atlântico, vulnerável ao clima e dependente do mundo exterior, exigiria para sobreviver com dignidade e prosperar com justiça?

A resposta honesta é não. Cabral foi roubado ao seu tempo – e Cabo Verde foi, em parte, roubado ao pensamento estratégico que ele poderia ter deixado. O que herdámos foi a liberdade. O que não herdámos foi o plano. E cinquenta anos depois, ainda pagamos esse preço.

A armadilha do curto prazo

Governar é, pela sua natureza, uma atividade que tende para o imediato. Os ciclos eleitorais premiam quem entrega resultados visíveis antes das próximas eleições. As pressões sociais exigem respostas rápidas. A comunicação política recompensa o anúncio, não a execução. O inaugurar, não o construir.

Cabo Verde não é exceção a esta lógica. É, talvez, uma das suas vítimas mais silenciosas.

Olhemos para os factos sem conforto: o arquipélago não desenvolveu, em cinco décadas de independência, uma base industrial digna desse nome. Não existe uma política energética soberana consolidada. A dependência alimentar do exterior mantém-se estrutural. O turismo, motor da economia, é ao mesmo tempo a maior vulnerabilidade do país – como a pandemia de 2020 demonstrou com brutalidade. E a diáspora, verdadeiro pilar financeiro da nação, continua a ser tratada como fonte de remessas e não como parceiro estratégico de desenvolvimento.

Tudo isto não aconteceu por acidente. Aconteceu por ausência de visão de longo prazo, sistematicamente  adiada em favor da gestão do momento.

A verdade que dói é esta: Cabo Verde tem governado bem demais para o curto prazo, e mal demais para o longo prazo. (…)Tudo isto não aconteceu por acidente. Aconteceu por ausência de visão de longo prazo, sistematicamente adiada em favor da gestão do momento. (…) E se não mudarmos isso – agora, com coragem, com convergência, com visão – o arquipélago que sobreviveu à escravatura, à seca, à colonização e ao abandono, pode não sobreviver à maior ameaça de todas: a de se tornar irrelevante no mundo que está a nascer. A história não perdoa os que tiveram tempo de agir – e escolheram não o fazer.

Sem diagnóstico, não há cura

Um país que não se conhece a si próprio não pode governar-se com rigor. E Cabo Verde tem vivido, sucessivamente, sem uma avaliação SWOT coerente, honesta e partilhada – aquela análise que nos obriga a olhar para as forças, as fraquezas, as oportunidades e as ameaças com a coragem de quem quer realmente mudar.

As ameaças são conhecidas: a erosão costeira avança. As alterações climáticas ameaçam a segurança alimentar e hídrica. A emigração drena os talentos mais qualificados. A dívida pública cresce. A desigualdade entre ilhas aprofunda-se. A segurança pública deteriora-se em contextos urbanos. E o modelo económico assenta em areia – literalmente, no caso do turismo de sol e praia.

Mas conhecer as ameaças não chega. É preciso antecipá-las. É preciso criar sistemas de resposta antes que a crise chegue. É preciso, acima de tudo, que exista uma classe dirigente – política e técnica – capaz de pensar além do seu próprio mandato.

A convergência que nunca acontece

Um dos maiores paradoxos de Cabo Verde é este: temos elites intelectuais e técnicos de qualidade reconhecida internacionalmente. Temos cabo-verdianos em lugares de liderança em organismos multilaterais, universidades, empresas e governos de outros países. Temos uma diáspora instruída, comprometida, com recursos e conhecimento.

E, no entanto, essa inteligência coletiva raramente converge para dentro. Raramente se transforma em projeto nacional partilhado. Raramente ultrapassa as fronteiras partidárias para se tornar compromisso estratégico de Estado.

O que existe, em vez disso, é uma governação que muda de prioridades a cada ciclo eleitoral, que reconstrói o que o governo anterior fez, que trata o Estado como propriedade do partido no poder e não como casa comum de todos os cabo-verdianos.

Não há modelo de desenvolvimento integrado e duradouro. Há programas de governo. E a diferença entre os dois é a diferença entre construir uma casa e mudar os móveis de sítio.

O que Cabo Verde precisa de ser

Cabo Verde não pode competir pelo volume. Não tem petróleo, não tem grandes extensões agrícolas, não tem mão-de-obra barata em escala. O que tem – e o que raramente aproveita plenamente – é posição geoestratégica, identidade cultural única, capital humano com potencial enorme, e uma reputação internacional de estabilidade que é, ela própria, um ativo raro em África.

Para transformar esses ativos em prosperidade real, é preciso um pacto. Não entre partidos – entre gerações. Um compromisso que diga: independentemente de quem governa, há um conjunto de apostas estratégicas que nenhum governo  desfaz, porque pertencem ao país e não ao poder.

Energia renovável. Soberania alimentar progressiva. Economia azul com valor acrescentado. Educação técnica e superior alinhada com as necessidades reais do arquipélago. Diáspora como parceiro ativo, não como caixa multibanco. E um sistema de planeamento que pense a 20, 30, 50 anos – com avaliação, prestação de contas e continuidade institucional.

O momento é agora – ou nunca

A janela está a fechar-se. As alterações climáticas não esperam por eleições. A competição global por investimento não espera por consensos internos. A juventude cabo-verdiana – cada vez mais informada, cada vez mais impaciente – não vai esperar indefinidamente por um país que parece governar para o presente de uns poucos, e não para o futuro de todos. Amílcar Cabral disse, numa das suas frases mais citadas, que é preciso “mascarar a verdade” – e depois corrigiu-se: é preciso “dizer sempre a verdade, mesmo que doa”.

A verdade que dói é esta: Cabo Verde  tem governado bem demais para o curto prazo, e mal demais para o longo prazo.

E se não mudarmos isso – agora, com coragem, com convergência, com visão – o arquipélago que sobreviveu à escravatura, à seca, à colonização e ao abandono, pode não sobreviver à maior ameaça de todas: a de se tornar irrelevante no mundo que está a nascer.

A história não perdoa os que tiveram tempo de agir – e escolheram não o fazer.

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