
Por: Aidê Carvalho *
“Nhôs akomoda”. Bastaram estas duas palavras, pronunciadas em crioulo, com um sorriso aberto e os braços estendidos, para que Dom Teodoro Tavares encurtasse todas as distâncias e tocasse o coração dos micaelenses, na comunidade que o viu nascer. Na Igreja ainda em construção, na localidade de Achada Monte, o convite ao acolhimento soou como um abraço coletivo, carregado ternura e simbolismo. Era o regresso à terra onde deu os primeiros passos na vida cristã e onde começou a desenhar-se o caminho que o conduziria ao episcopado.
A apresentação do novo bispo da Diocese de Santiago na sua terra natal, realizada no âmbito do Jubileu dos Catequistas, no sábado (20 de junho), foi vivida com grande alegria e emoção pelos fiéis provenientes de vários pontos da ilha de Santiago, que fizeram questão de participar neste momento particularmente significativo para a Igreja local. Reuniram-se para celebrar não apenas o regresso do “bom filho à casa”, mas também a missão daqueles que, com dedicação e testemunho, ajudam a transmitir os ensinamentos da fé.
Emocionado, Dom Teodoro Tavares recordou Achada Monte e São Miguel como o lugar onde recebeu o sacramento do batismo e sentiu o despertar da vocação. Anos mais tarde, seria nesta mesma paróquia que receberia a ordenação sacerdotal, fortalecendo os laços com uma terra que permanece como referência fundamental na sua caminhada espiritual.
Agora, ao regressar como bispo, Dom Teodoro Tavares volta à origem da sua vocação, reencontrando rostos, memórias e afetos que ajudaram a moldar a sua história de fé e de serviço à Igreja. Mas o seu regresso tem agora um significado mais amplo: encontra uma família maior, espalhada por toda a Diocese de Santiago, à qual é chamado a servir.
O regresso às raízes da vocação
Ao longo da celebração, viveu-se um ambiente de fé, gratidão e comunhão, marcado pela renovação do compromisso missionário. O reencontro do novo bispo com a sua comunidade de origem fortaleceu os laços de pertença e esperança.
D. Teodoro Tavares manifestou profunda gratidão a Deus e a todos aqueles que contribuíram para a sua formação humana e espiritual, reconhecendo com humildade: “sou fruto do vosso cuidado e da vossa oração”. Esta afirmação recorda que ninguém constrói a sua vocação sozinho e que existe sempre uma comunidade que acolhe, educa, acompanha e testemunha a fé.
Num tempo marcado por profundas mudanças sociais e culturais, as palavras de Dom Teodoro Tavares assumem uma relevância particular. Ao evocar a experiência do profeta Jeremias, destacou que a missão de anunciar a Palavra de Deus nunca foi isenta de dificuldades. A incompreensão, a indiferença e, por vezes, a oposição continuam a ser desafios reais para aqueles que procuram viver e transmitir os valores do Evangelho. Contudo, a mensagem deixada foi clara: a perseverança nasce da confiança em Deus e da certeza de que a missão não depende apenas das capacidades humanas.
Esta reflexão constitui um forte apelo à fidelidade e à esperança. Tal como Jeremias enfrentou perseguições e dificuldades, mas permaneceu fiel à sua missão, também os catequistas são chamados a manter-se firmes, mesmo quando os resultados não são imediatos ou quando surgem obstáculos, conforme as palavras do bispo de Santiago.
O testemunho de São Pedro e São Paulo, igualmente recordado por Dom Teodoro Tavares, reforça esta mensagem. Ambos enfrentaram dificuldades, perseguições e limitações humanas, mas permaneceram firmes na missão que lhes foi confiada. A sua história continua a desafiar os cristãos de hoje a viverem a fé com coragem, autenticidade e espírito de serviço.
Catequistas: pilares que sustentam a fé
Entre os vários aspetos abordados, merece especial destaque a valorização do papel dos catequistas. Muitas vezes vistos apenas como transmissores de conhecimentos religiosos, os catequistas desempenham uma missão muito mais profunda. São educadores da fé, testemunhas do Evangelho e referências para todas as pessoas que procuram dar sentido à sua vida cristã.
Numa sociedade onde os valores da fé enfrentam constantes desafios, o testemunho coerente dos catequistas torna-se cada vez mais necessário.
Por isso, o Jubileu dos Catequistas não deve ser encarado apenas como uma homenagem a quem dedica tempo e energia à catequese. Deve ser também um convite à valorização desta missão e ao reconhecimento do papel essencial que a catequese desempenha na construção de comunidades mais vivas, comprometidas e conscientes da sua identidade cristã.
Outro elemento particularmente significativo foi o apelo à corresponsabilidade de todos os batizados. A evangelização não é uma tarefa reservada ao clero ou aos agentes pastorais. Cada cristão é chamado a ser “discípulo missionário” nos espaços onde vive, trabalha e convive. Os pais devem ser os primeiros catequistas dos seus filhos. Esta consciência é fundamental para que a Igreja continue a ser presença transformadora no mundo.
Num ambiente marcado pelo espírito jubilar, foi prestada homenagem aos catequistas já falecidos, cuja entrega generosa continua viva na memória da comunidade. Foram igualmente distinguidos, em vida, dezenas de homens e mulheres considerados verdadeiros “pilares da fé”, pelo seu incansável serviço à evangelização. Através do seu testemunho e dedicação, contribuíram para a formação de gerações de cristãos e para o fortalecimento das comunidades.
Quando os dons da terra falam de comunhão
O ofertório constituiu um dos momentos mais marcantes da celebração, vivido com grande alegria e participação da comunidade. Ao som de cânticos vibrantes, foram apresentados os dons da terra, simbolizando a gratidão e a partilha. Destacaram-se os cachos de banana, sinal de união e comunhão entre as comunidades, em sintonia com o apelo do Bispo Dom Teodoro Tavares à unidade da Igreja.
Chamaram igualmente a atenção os galos levados em procissão, que, apesar da agitação festiva, permaneceram serenos, não escapando ao simbolismo e ao destino que os aguardava. Impressionou também um pé gigante de mandioca, conservado com o seu tronco e folhas, testemunho da fertilidade da terra e do valor da agricultura na vida das famílias micaelenses.
Merece igualmente destaque o grupo coral, formado por membros de várias comunidades de São Miguel. Através dos seus cânticos, animou a celebração com entusiasmo, dando um testemunho concreto de colaboração, fraternidade e unidade entre os fiéis do concelho.
O acolhimento de Dom Teodoro Tavares na sua terra natal e a celebração do Jubileu dos Catequistas deixaram uma mensagem que vai além do dia festivo. Mostraram que a fé continua a ser uma força capaz de unir gerações, fortalecer comunidades e inspirar novas respostas aos desafios do presente.
No final, o pároco da Paróquia de São Miguel Arcanjo, Padre Saturnino Freire Afonso, sentiu-se recompensado pelo empenho e pela vivência intensa deste momento de comunhão e celebração.
*Investigadora – Ciências Religiosa

