
Por: José Pereira Miranda
Não sei se todos estão a perceber um fenómeno muito delicado, em crescimento paulatino no país, e que, se não merecer a devida atenção, com a máxima urgência possível, poderá conduzir Cabo Verde a um beco de difícil saída, se não mesmo sem saída.
Inúmeras vezes ouvimos, na comunicação social, mulheres a solicitarem ajuda dos governantes, por serem as únicas responsáveis pela criação e educação dos filhos.
Se olharmos para a sociedade cabo-verdiana e procurarmos compreender as razões desta triste realidade — mães a cuidarem sozinhas dos filhos — encontraremos homens incapazes de sustentar, mas capazes de “produzir” filhos.
Na maioria dos casos, são homens em idade produtiva, mas que já “destruíram” as suas capacidades humanas e profissionais, em consequência do consumo de bebidas alcoólicas, drogas ou outros vícios luxuriosos.
Como resultado, entre outros fatores, Cabo Verde, que outrora se afirmava como fornecedor de mão-de-obra capacitada, hoje enfrenta uma carência de trabalhadores, qualificados ou não.
Ao observarmos obras de construção civil, estradas, serviços agrícolas e outros trabalhos servis, verificamos que, em grande parte, os trabalhadores são provenientes de outros países africanos e não de Cabo Verde, porque muitos cabo-verdianos já não estão em condições de trabalhar.
Muitos jovens cabo-verdianos lutam pelo auto-sustento e pela construção da sua família. Alguns, em menor número, esforçam-se para obter uma formação digna. Entretanto, nesta caminhada muitos acabam por se tornar inválidos, vítimas do álcool, da droga ou da prostituição, por falta de atividade laboral.
Outros tentam emigrar, mas sem sucesso, pois as dificuldades crescentes no exterior impedem-nos de alcançar os objetivos desejados. Outros ainda contentam-se apenas com as atividades recreativas, cada vez mais numerosas no país, que acabam por eliminar nos jovens a ideia de sonhar com horizontes mais amplos.
Os lares são destruídos porque maridos e pais perdem a capacidade de gerar rendimentos. As mulheres, por desânimo, algumas preferem separar-se e sustentar o lar com o que surgir; outras amancebam-se com outro homem, que nem sempre representa a melhor escolha. Como consequência, as práticas masculinas em Cabo Verde têm-se transformado num fardo insustentável, que recai simultaneamente sobre as famílias, os governantes e o próprio País.
Na minha perspetiva, os novos deputados, independentemente da sua filiação política, devem refletir, sob um olhar genuinamente cabo-verdiano, e ponderar a criação de uma lei que, em nome da unidade e do progresso nacional, conduza à redução — senão à extinção — do consumo de bebidas alcoólicas entre os operários. Tal medida poderia seguir o exemplo das restrições já impostas aos condutores, reconhecendo que é na aparente brincadeira do “experimentar para ganhar coragem no trabalho” que se instala, pouco a pouco, um vício corrosivo, capaz de destruir a capacidade produtiva e a dignidade laboral.
Por outro lado, cabe também aos jornalistas e órgãos de Comunicação Social a responsabilidade de agendar pautas que despertem a consciência dos jovens para a construção de um futuro mais centrado no valor do trabalho do que na dependência de adjutórios.
Cidade de Assomada, 17 de junho de 2026.

