PUB

Convidados

Saúde mental em Cabo Verde: Um desafio estrutural para o novo ciclo de governação

Por: Denise Resende*

Entre dados globais da OMS e evidências nacionais preocupantes, torna-se urgente reposicionar a saúde mental como prioridade transversal das políticas públicas.

Durante décadas, a saúde mental foi vista como um tema periférico, associado sobretudo ao sofrimento individual ou a contextos clínicos – uma visão hoje claramente insuficiente.

A OMS reconhece-a como uma das principais prioridades de saúde pública do século XXI, estimando que quase uma em cada sete pessoas vive com perturbações mentais, sendo a ansiedade e a depressão as principais causas de incapacidade global.

O impacto económico é igualmente expressivo, com perdas de produtividade na ordem de um bilião de dólares por ano, evidenciando que se trata não apenas de uma questão de saúde, mas também de desenvolvimento humano, económico e social.

Em Cabo Verde, os dados mais recentes revelam uma realidade preocupante: o suicídio corresponde a quase uma morte por semana, com 1,7% da população adulta a reportar já ter tentado suicídio e 3,3% a referir ideação suicida. (dados de 2024). Acrescem fatores de risco como o elevado consumo de álcool e tabaco e o aumento do consumo de cannabis entre jovens. Estes números não são apenas estatísticas, mas sinais de sofrimento humano e fragilidades sociais profundas. A questão central não é apenas a dimensão do problema, mas a forma como continuamos a responder-lhe.

Continuamos a agir tarde demais

Grande parte das respostas em saúde mental surge quando o problema já está instalado, com sofrimento intenso, incapacidade funcional ou rutura da vida pessoal e familiar. Continuamos a investir mais na resposta do que na prevenção.

A saúde mental constrói-se muito antes dos serviços de saúde: nas condições de vida, na estabilidade económica, na habitação, no trabalho, na segurança, nas redes de apoio e na proteção social. Não é possível falar de saúde mental sem falar de políticas públicas nem de sociedades mais justas e equilibradas.

A saúde mental constrói-se fora dos serviços de saúde

As desigualdades sociais e de género continuam a ter impacto direto. Muitas mulheres acumulam responsabilidades profissionais, domésticas e de cuidado, enfrentando níveis elevados de stress e exaustão emocional.

No mundo do trabalho, jornadas longas, pressão constante e dificuldade de desligar têm normalizado o burnout, a que se soma a invasão da tecnologia no tempo de descanso, agravando o desgaste psicológico. Por isso, as políticas de proteção social, apoio às famílias, prevenção da violência e redução das desigualdades não são apenas políticas sociais, são também políticas de saúde mental.

A saúde mental na era digital

Já não se pode falar da saúde mental fora do contexto digital nem restrita ao mundo adulto. Crianças e adolescentes estão no centro de uma transformação que influencia profundamente o seu bem-estar. As redes sociais trouxeram oportunidades de comunicação e aprendizagem, mas também riscos: cyberbullying, exposição  a conteúdos inadequados, pressão social e dependência digital, associados ao aumento de problemas de saúde mental.

Mais preocupante ainda é o crescimento do grooming, em que adultos manipulam menores em ambientes digitais para fins de exploração. Cabo Verde não está imune. O aumento do acesso à internet exige reforço da prevenção, da literacia digital e dos mecanismos de proteção. Neste sentido, importa acompanhar experiências internacionais como o ECA Digital no Brasil, adaptando boas práticas à realidade nacional.

Um compromisso para o novo ciclo de governação

A tomada de posse do novo Governo representa uma oportunidade para redefinir prioridades estruturais. Se a saúde mental é hoje um dos principais desafios de saúde pública, deve ocupar um lugar central na agenda nacional de desenvolvimento.

Isso implica reforçar a Estratégia Nacional de Saúde Mental, integrar a saúde mental nos cuidados primários, expandir o apoio psicológico e psicossocial, promover o bem-estar nos locais de trabalho, apoiar famílias e cuidadores, reforçar a saúde mental nas escolas e desenvolver uma estratégia de proteção digital de crianças e adolescentes, sustentada por dados e evidência.

Num novo ciclo de governação, o desafio já não é reconhecer o problema – os dados já o fizeram. O verdadeiro desafio é assumir a saúde mental como prioridade política e agir em conformidade.

*Psicóloga, orientadora parental e especialista em proteção infantil, com intervenção em contextos comunitários e contributo em iniciativas de advocacy e políticas de proteção da criança em Cabo Verde.

PUB

PUB

PUB

To Top