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Sociedade

Biotecnologia: Investigadora cabo-verdiana descobre nova cianobactéria em Cabo Verde

O nome de Cabo Verde foi dado a uma nova cianobactéria, descoberta na ilha de Santo Antão, pela investigadora Aimone Duarte. As cianobactérias são micro-organismos muito utilizados na indústria farmacêutica, cosmética, alimentar e com grande potencial para a biotecnologia sustentável. 

Aimone Cardoso Duarte, natural da ilha de Santiago, concluiu recentemente, em Portugal, um mestrado em Biotecnologia e Biologia Sintética da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, com uma investigação ligada à biodiversidade marinha de Cabo Verde e ao potencial da economia azul feita no  Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental (CIIMAR). 

A investigação desenvolvida por Aimone Duarte foi realizada sob a orientação dos investigadores Graciliana Lopes, Guilherme Scotta Hentschke e Vitor Vasconcelos no seio do grupo de Biotecnologia azul, saúde e ambiente do CIIMAR e centrou-se no estudo de cianobactérias provenientes de ambientes costeiros de Cabo Verde, onde acabou por identificar, pela primeira vez, uma nova espécie.

O que são cianobactérias?

Cianobactérias são micro-organismos fotossintéticos, que assumem diversas formas e podem ser encontradas em ambientes distintos, em colónias ou filamentos, o que lhes confere a aparência de uma alga, embora não sejam. Detêm, igualmente, uma grande diversidade ecológica, ao se adaptarem a diferentes ambientes, como a água doce, a água salgada e regiões de temperaturas extremas.

Em conversa com A NAÇÃO, a investigadora explica que estes micro-organismos marinhos, apesar de microscópicos, despertam grande interesse científico por poderem produzir compostos naturais com aplicações em áreas como saúde, cosmética, indústria farmacêutica, alimentar e biotecnologia sustentável.

“Cabo Verde, como tem particularidades bem específicas, desde condições ambientais com elevada radiação solar, elevada salinidade e temperaturas elevadas, é expectável que estes organismos desenvolvam mecanismos adaptativos, únicos, para esse ambiente”, revela.

Salileptolyngbya caboverdiana 

Ao longo da sua investigação, que incidiu sobre Santo Antão e São Vicente, para além de identificar espécies já conhecidas, Aimone Duarte descobriu, em Santo Antão, uma nova espécie de cianobactéria do género Salileptolyngbya, nunca antes registada, em nenhum lugar do mundo, a que batizou de Salileptolyngbya caboverdiana, e que se encontra atualmente conservada na coleção de culturas de Biotecnologia Azul e Ecotoxicologia do CIIMAR (LEGE CC) sob a designação Salileptolyngbya caboverdiana LEGE 181209. 

“O nome ‘caboverdiana’ foi escolhido precisamente para associar esta descoberta científica ao arquipélago e valorizar internacionalmente a biodiversidade marinha nacional. Esta investigação demonstra que Cabo Verde possui um enorme potencial científico ainda pouco explorado”, sublinha. 

 O estudo já se encontra publicado na revista científica internacional Marine Drugs e representa, para a investigadora, uma importante contribuição para o conhecimento científico da biodiversidade marinha de Cabo Verde. 

“Muitas vezes olhamos para o mar apenas do ponto de vista da pesca ou do turismo. Mas o oceano pode também representar ciência, inovação, conhecimento e desenvolvimento económico sustentável”, indica.

Recurso abundante e potencialidades 

Durante a investigação, foram identificados diferentes pigmentos e compostos bioativos produzidos naturalmente pelas cianobactérias, incluindo carotenoides, clorofilas e compostos fenólicos com propriedades antioxidantes. 

Estes compostos, segundo explica, despertam grande interesse científico e industrial devido ao seu potencial de aplicação em áreas como cosmética, e indústrias farmacêutica e alimentar. 

 “Alguns podem contribuir, por exemplo, para o desenvolvimento de ingredientes naturais utilizados em produtos de proteção da pele, cosméticos antioxidantes, suplementos naturais e futuras soluções terapêuticas associadas ao combate ao stress oxidativo e envelhecimento celular”, especifica.

Após a investigação, Aimone Duarte conclui ainda que as cianobactérias estudadas não são tóxicas, o que significa que estão prontas para aplicação, por exemplo, na indústria de cosmética para a pele humana.

Diversificação da economia azul

Esta investigação está diretamente ligada ao futuro da economia azul em Cabo Verde, área considerada estratégica para pequenos Estados insulares.

 “Temos um enorme laboratório natural ao ar livre. Precisamos investir mais na investigação científica, criar oportunidades para jovens investigadores e acreditar mais no potencial científico do nosso país”, alega, acrescentando que estudos desta natureza podem ajudar Cabo Verde a diversificar a sua economia através da ciência, inovação e valorização sustentável dos recursos oceânicos.

Para além desta investigação, Aimone Duarte já participou noutras publicações científicas internacionais, incluindo como coautora de um segundo artigo científico no domínio da caracterização e potencial biotecnológico de novas cianobactérias marinhas. A sua tese de mestrado foi defendida recentemente com distinção (19 valores), pela Faculdade de Ciências da Universidade do Porto.

Natalina Andrade 

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