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Entre tribunais e estádios de futebol: a força da diversidade

Por: Flora Lopes *

A urgência da diversidade

Em Cabo Verde, a diversidade é mais do que um princípio constitucional: é a essência da identidade nacional. Nos tribunais, ela é protegida; nos estádios de futebol, é celebrada.

O sucesso da selecção cabo verdiana no Mundial mostra que um país pequeno pode ser gigante quando joga unido. Jogadores das ilhas e da diáspora formam uma equipa que faz vibrar o coração de todos os cabo verdianos. Cada golo é a prova de que a pluralidade, quando respeitada e organizada, transforma se em vitória colectiva.

O Ministério Público (MP), como titular da acção penal, representa o Estado em juízo, garantindo que aqueles sem voz própria sejam protegidos. Já os juízes, como árbitros da legalidade, asseguram que a lei é aplicada com imparcialidade e humanidade. Se o Ministério Público leva o jogo da justiça ao campo, o juiz garante que todos jogam em igualdade de condições.

A magistratura, ao aplicar a lei com imparcialidade e firmeza, contribui para que o desporto seja não apenas palco de emoção, mas também espaço de justiça e dignidade. Assim, tribunais e estádios tornam se palcos paralelos e complementares: nestes, celebra-se o talento e a diversidade que engrandecem a democracia de Cabo Verde; naqueles, garante se a legalidade democrática na diversidade individual, social e política.

Os direitos das minorias, sejam culturais, religiosas, de género ou de pessoas com deficiência, são o verdadeiro termómetro da democracia. Cada avanço revela a vitalidade das instituições; cada retrocesso expõe fragilidades que ameaçam o tecido social.

Avanços e retrocessos

Globalmente, de entre os avanços de Cabo Verde, poderíamos destacar: o reconhecimento legal de direitos fundamentais e combate à discriminação; a integração da diáspora como parte activa da vida política e cultural; a valorização cultural das ilhas e comunidades locais, reforçando identidade plural.

E do lado dos retrocessos, importa notar, entre o mais, as desigualdades regionais entre ilhas mais desenvolvidas e periféricas; a exclusão social que afecta jovens e minorias; e a fragilidade institucional na aplicação prática das leis.

Tal como no futebol, onde uma equipa perde terreno se não jogar em conjunto, a democracia fragiliza se quando a diversidade não é respeitada, não é protegida e não é capaz de gerar consensos em torno de objectivos comuns.

A magistratura não pode ter uma postura inactiva e anémica, na mundividência que a cerca. A inactividade e neutralidade perante a injustiça transmuda-se em cumplicidade. O Ministério Público, em representação do Estado, deve garantir a efectivação dos direitos fundamentais, para que estes não fiquem esquecidos no banco de suplentes. O juiz, ao aplicar a lei com rigor, funciona como árbitro, e ao adoptar sensibilidade social, sela a dignidade humana e a interacção como seu guardião.

Responsabilidade ética e futuro da magistratura

No plano da responsabilidade ética, o Ministério Público e os juízes não se limitam a interpretar normas; exigem compromisso com valores universais de justiça e igualdade.

Através de decisões paradigmáticas, cada julgamento que reconhece direitos é co-mo um golo decisivo, muda o rumo da partida e inspira confiança. E, desse modo, incrementa-se uma visão de futuro: proteger minorias, incapazes e menores é proteger a própria democracia.

Assim como a selecção cabo verdiana mostrou que a grandeza não depende da dimensão do país, a magistratura pode mostrar que a força da justiça não depende apenas das leis escritas, mas da coragem de aplicá las com humanidade.

A ética judicial exige imparcialidade, transparência e formação contínua. O juiz e o Procurador da República não são apenas técnicos da lei: são guardiões da confiança pública. Cada decisão deve ser clara, fundamentada e compreensível, para que o cidadão veja na justiça não um poder distante, mas um aliado da democracia.

Da bancada ao tribunal – onde a diversidade se vive e se julga

Nos estádios de futebol, a diversidade manifesta se de forma vibrante: diferentes vozes, culturas e origens unem se numa só torcida, criando uma energia colectiva que transcende barreiras sociais.

Cada  golo da selecção cabo verdiana foi celebrado por milhares de pessoas que, independentemente da ilha de origem ou da condição social, se reconheceram numa identidade comum. O estádio torna se, assim, um espelho da pluralidade cabo verdiana, onde a diferença não divide, mas fortalece.

Entre tribunais e estádios de futebol, a mensagem é clara: a diversidade é a nossa maior vitória. O Ministério Público, como titular da acção penal e representante do Estado, dos incapazes e dos menores, é quem impulsiona o jogo da justiça no campo. Os juízes, como árbitros, asseguram que o jogo decorre segundo regras claras, respeito mútuo e inclusão plena.

Tal como o estádio vibra com a pluralidade das torcidas, o tribunal deve vibrar com a pluralidade das opiniões. E quando Cabo Verde celebra vitórias no futebol, celebra  também a capacidade de transformar a diversidade em força colectiva, um exemplo que deve inspirar a justiça a ser ousada, verdadeiramente democrática, sem deixar de ser firme.

Justiça no desporto –  direitos, dignidade e legalidade democrática

O futebol cabo verdiano, que hoje conquista palcos internacionais e gera milhões em receitas, não pode ser visto apenas como espectáculo. É também um mundo laboral, onde os desportistas são trabalhadores que merecem protecção jurídica e dignidade profissional. Nesse contexto, cabe aos tribunais, sempre que necessário, garantir que contratos, direitos e deveres são observados, que os atletas não são explorados e que o sucesso desportivo tem subjacente justiça social.

Essa realidade estende-se a todas as modalidades, da natação ao atletismo, do basquetebol ao andebol, passando pelo voleibol, ténis, ciclismo, surf, artes marciais e até os jogos de mesa, onde cada atleta ou praticante é um cidadão que deve ver os seus direitos assegurados.

A magistratura, ao aplicar a lei com imparcialidade e firmeza, contribui para que o desporto seja não apenas palco de emoção, mas também espaço de justiça e dignidade. Assim, tribunais e estádios tornam se palcos paralelos e complementares: nestes, celebra-se o talento e a diversidade que engrandecem a democracia de Cabo Verde; naqueles, garante se a legalidade democrática na diversidade individual, social e política.

Unidos na adversidade

Recentemente, o nome de Ryan Mendes, capitão da nossa selecção, surgiu associado a uma indiciada prática do crime de estupro contra uma cidadã brasileira. Trata-se de um caso doloroso, que desperta emoções fortes, sobretudo porque envolve uma figura conhecida internacionalmente do nosso desporto. A justiça, porém, não é apenas aplicação da lei, é também cuidado, solidariedade e confiança pública.

É neste espírito que, na qualidade de magistrada do Ministério Público desde 2009, com conhecimentos aprofundados nas magistraturas judicial e do Ministério Público do mundo ocidental, incluindo o ordenamento jurídico da Nova Zelândia, de matriz common law britânica, e também dos Estados Unidos da América, quero dirigir-me ao meu povo cabo-verdiano, nas ilhas e na diáspora, com uma palavra de solidariedade e serenidade. Mesmo quando os factos ocorrem fora das nossas fronteiras, é essencial mantermos firme a confiança nos valores universais da justiça e na dignidade da pessoa humana.

E que os nossos Tubarões Azuis sigam com coragem e determinação, mostrando ao mundo que Cabo Verde é grande quando joga unido, dentro e fora dos campos.

*Mestre em Direito e Prática Jurídica, Especialidade Jurídico-Forenses, pela Facul-dade de Direito da Universidade de Lisboa

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