PUB

Convidados

Cabo Verde, 2075: A pergunta que ainda não fizemos

Por: Paulo Rodrigues *

Por que cinco anos chegam para gerir um país – mas não para o transformar

Há uma frase que se ouve em todas as campanhas eleitorais de Cabo Verde, em todos os sotaques políticos: “desta vez vai ser diferente.” Quando um padrão se repete dezenas de vezes, deixa de ser azar e passa a ser sistema. 

Este texto não é sobre partidos. É sobre padrões – e sobre a decisão mais importante que Cabo Verde tem pela frente, não para 2031, mas para 2075.

O ritual

A 17 de Maio, Cabo Verde cumpriu mais um ritual democrático exemplar. Um novo Governo foi eleito, com o programa habitual: universidade e saúde gratuitas, criação de emprego, habitação, transportes interilhas acessíveis, um Estado mais enxuto.

São promessas válidas e necessárias. Não há nada de errado em prometê-las – há tudo de errado em ficar por elas. Porque a campanha não fez a pergunta seguinte: e depois? Depois destes cinco anos, para onde vai Cabo Verde? Não em 2031, mas em 2046, em 2056, em 2075, quando se celebrar o centenário da independência. 

A própria meta-bandeira da saúde está balizada “até ao fim da legislatura” – cinco anos. Ora, cinco anos é o prazo em que nenhuma nação alguma vez se transformou.

A verdade brutal

Quantos países, na história moderna, se transformaram estruturalmente em cinco anos? Nenhum. A transformação obedece a leis que não se negoceiam com calendários eleitorais: a confiança internacional, uma cultura de inovação, um sistema educativo – tudo leva 15 a 20 anos no mínimo. Cinco anos é tempo de gestão. Cinquenta é tempo de transformação. E, no entanto, os cinco anos não desaparecem: o Governo eleito tem cinco anos para entregar, e deve entregar. Mas há uma diferença abissal entre vivê-los como ciclo fechado ou como primeiro capítulo de cinquenta.

A prosperidade é uma decisão

Os exemplos seguintes não são acaso: são os maiores casos de transformação do mundo e de África, e quase todos partiram de condições piores que as de Cabo Verde hoje. 

Singapura era em 1965 uma ilha expulsa da Malásia, com 500 dólares de PIB per capita, metade da população analfabeta e quase seis vezes menos território que Cabo Verde; decidiu ser o centro financeiro da Ásia em quarenta anos e está hoje entre os mais ricos do planeta. 

A China, em 1978, tinha 156 dólares per capita e fixou um horizonte até 2049. 

A Coreia do Sul, em 1960, era mais pobre que o Gana; hoje é mais rica que Portugal. 

O Ruanda, saído de um genocídio em 1994 e sem mar nem minérios, é a transformação africana mais notável das últimas três décadas. 

E a Maurícia, ilha africana sem recursos, tem hoje PIB per capita mais do dobro do cabo-verdiano.

Estes países têm regimes opostos – Singapura e China autoritárias, Botsuana e Maurícia democracias estáveis. O segredo não está no regime, mas na decisão sustentada no tempo. 

O inverso confirma-o: a “maldição dos recursos”. A Venezuela tem as maiores reservas de petróleo do mundo e mergulhou na pobreza; a Guiné Equatorial é o caso africano mais flagrante de petróleo abundante e indicadores sociais miseráveis. 

A abundância sem visão é maldição; a escassez com visão é vantagem.

Este texto não é sobre partidos. É sobre padrões – e sobre a decisão mais importante que Cabo Verde tem pela frente, não para 2031, mas para 2075. (…) Em 2075, a geração que então viver Cabo Verde não vai perguntar que partido governou em 2026. Vai perguntar se a geração de hoje teve a coragem de desenhar o país onde ela vive próspera. A decisão é agora. A transformação é geracional. O momento não pode esperar.

E Cabo Verde?

Cabo Verde tem pouco mais de meio milhão de residentes, mas mais de um milhão de cabo-verdianos vivem espalhados pelo mundo. A diáspora, a “décima primeira ilha”, é maior do que o país que ficou. Tem uma das maiores ZEE da África Ocidental (quase duzentas vezes o território), estabilidade política rara, o cabo submarino EllaLink a ligar a Europa e a América do Sul, e a meta de 100% renovável até 2040. 

E o dado que remove todas as desculpas: Cabo Verde hoje tem ~5.200 dólares de PIB per capita. Em 1978, a China tinha 156; em 1965, Singapura tinha 500; em 1994, o Ruanda tinha menos de 200. Todos estavam piores. Todos decidiram. A pobreza não é desculpa para não sonhar –  é a razão para sonhar grande.

Destinos “impossíveis” e a décima primeira ilha

Imagine-se Cabo Verde em 2075. Um “Singapura do Atlântico”, plataforma digital e financeira entre três continentes. Um “Hub  Médico e do Conhecimento» do Atlântico Médio, sede formativa e clínica dos sistemas de saúde da África lusófona, a exportar médicos e telemedicina em vez de perder talento para a Europa. Um «Laboratório de Energia Limpa», a exportar electricidade e conhecimento para a região. 

E, acima de tudo, há a décima primeira ilha: Taiwan organizou o regresso de milhares de engenheiros emigrados para o Silicon Valley para fundar o Hsinchu Science Park, transformando uma diáspora técnica na espinha dorsal da indústria mundial de semicondutores; a Irlanda usou a sua diáspora para atrair multinacionais; a Índia, para captar milhares de milhões por meio de instrumentos dirigidos à diáspora. Cabo Verde tem uma das maiores diásporas do mundo, à escala. Mobilizá-la estrategicamente pode ser o multiplicador que falta.

A escolha

Para que uma visão de cinquenta anos sobreviva a ciclos de cinco, é preciso uma instituição  que a proteja: uma Agência de Transformação Cabo Verde 2075, blindada constitucionalmente, com uma Lei de Visão Nacional aprovada por dois terços. O modelo não é teórico – a Singapore EDB (1961) e a IDA Ireland (1949) sobreviveram a alternâncias políticas porque eram instituições de Estado, não projectos de governo. Cada governo de cinco anos não é o edifício – é um tijolo. Se cada um colocar o tijolo certo, em cinquenta anos haverá uma nação; se cada um desmanchar o do anterior, haverá entulho.

É difícil ser próspero – mas também é difícil ser pobre, ver os filhos emigrar, sonhar pequeno porque grande parece luxo. A pergunta não é se há caminho fácil; é qual dos difíceis se escolhe. E se nada se decidir, a demografia decidirá: a proporção de idosos pelo menos duplicará nas próximas três décadas. A indiferença é o destino de quem não decide.

O Atlântico está à espera

A prosperidade não é sorte; é uma decisão. A China decidiu em 1978. Singapura, em 1965. A Maurícia, em 1968. O Ruanda, em 2000. Cabo Verde pode decidir em 2026. O mar está à frente, a diáspora à espera, a energia limpa é um direito natural destas ilhas. Falta uma coisa só: a coragem de imaginar que pode ser grande. E quando essa coragem chegar, ver-se-á que não faltam recursos – falta visão. Em 2075, a geração que então viver Cabo Verde não vai perguntar que partido governou em 2026. Vai perguntar se a geração de hoje teve a coragem de desenhar o país onde ela vive próspera. A decisão é agora. A transformação é geracional. O momento não pode esperar.

*Investigador em Saúde Pública | Especialista em desenvolvimento de sistemas de saúde e políticas públicas

PUB

PUB

PUB

To Top