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Crónicas do território: Também as cidades se vencem com persistência

Por: César Freitas* 

Construir não é apenas levantar paredes. É tomar decisões sobre quem somos e como queremos viver – e essas decisões, uma vez tomadas no território, demoram gerações a corrigir.

Diz o povo cabo-verdiano que “o caminho longo não mata o viajante, mata quem não anda”. É uma imagem simples, quase doméstica – mas é também uma descrição perfeita do que significa construir um país. Não com gestos grandiosos nem com inaugurações de fita cortada, mas com decisões pequenas, consistentes e acumuladas, que um dia se tornam cidade, habitação, identidade.

Um novo Governo, um território que não perdoa atrasos 

Cada ciclo de governação começa com uma herança. Há o que foi bem feito e merece continuidade. Há o que ficou por fazer e pede urgência. E há o que foi mal feito e exige coragem para reconhecer e corrigir. Em matéria de território, ordenamento e habitação, Cabo Verde acumula nas três categorias – e a boa notícia é que o novo Governo recebe também uma conjuntura internacional favorável, uma diáspora cada vez mais mobilizada e uma geração de técnicos nacionais com formação e vontade de contribuir.

O momento pede ambição com método. Não a ambição dos grandes anúncios, mas a ambição de quem sabe que as transformações duradouras se fazem com instrumentos, regulação e persistência. Como em qualquer obra bem executada: primeiro o alicerce, depois as paredes, depois o tecto. Alterar esta ordem custa sempre mais do que tê-la respeitado desde o início.

Um país que constrói sem plano não está a crescer. Está a improvisar – e o improviso no território tem um preço que as gerações seguintes pagam com juros

Habitar é um direito, não um privilégio

A habitação é talvez o domínio onde a distância entre o discurso e a realidade mais se faz sentir em Cabo Verde. Fala-se muito de desenvolvimento, de atracção de investimento, de crescimento do PIB – e fala-se pouco das famílias que vivem em situações de precariedade habitacional nas periferias de Praia, do Mindelo, do Sal, da Boavista, onde a pressão demográfica e turística tem empurrado os mais vulneráveis para as franjas do território sem qualquer resposta estruturada.

A habitação digna não é um custo social a minimizar. É um investimento na produtividade, na saúde pública, na coesão das comunidades e na estabilidade política do país. Países que o perceberam cedo construíram base sólida para tudo o resto. Os que deixaram acumular o défice habitacional descobriram, mais tarde, que o custo de o resolver era muito superior ao de o ter prevenido. Como diz o ditado: mais vale prevenir do que remediar – e em urbanismo, remediar pode demorar décadas.

Não há marca-país que resista quando uma parte significativa da sua população vive sem condições mínimas de habitabilidade. A imagem que exportamos tem de corresponder à realidade que construímos dentro de portas.

A arquitectura como instrumento de política pública 

Existe uma tendência, instalada há muito no debate público cabo-verdiano, de tratar a arquitectura como assunto de especialistas – algo relevante para concursos internacionais e fachadas de hotéis, mas distante das prioridades reais do país. É um equívoco com consequências sérias.

A arquitectura é, antes de mais, uma ferramenta de política pública. É ela que traduz no espaço físico as opções sobre equidade, sustentabilidade e identidade. Uma escola bem projectada melhora o desempenho dos alunos. Um bairro com espaços públicos de qualidade reduz a conflitualidade social. Uma habitação que respeita o clima local e os materiais disponíveis custa menos a construir, menos a manter e confere mais conforto a quem a habita. Estes não são argumentos estéticos. São argumentos económicos e sociais.

O mercado imobiliário, deixado sem orientação, tende a maximizar o retorno de curto prazo e a ignorar os custos de longo prazo que recaem sobre o Estado e sobre as comunidades. A regulação inteligente, não a burocracia pesada que sufoca a iniciativa, mas o quadro claro que orienta as decisões privadas para o bem colectivo, é o que distingue as cidades que envelhecem bem das que envelhecem mal.

O que o campo de futebol nos ensinou sobre construção 

Há algumas semanas, os Tubarões Azuis voltaram a demonstrar algo que vai muito além do resultado desportivo: que a excelência não é um talento que se tem ou não se tem, é uma cultura que se constrói, passo a passo, com investimento, com método e com a crença inabalável de que é possível chegar mais longe. Nenhum dos jogadores que hoje representam Cabo Verde nas melhores ligas do mundo chegou lá por acidente. Chegou por persistência – a sua e a de quem acreditou nele.

Este modelo tem uma lição directa para quem pensa o território. As cidades que hoje admiramos, que atraem talento e investimento e que oferecem qualidade de vida real aos seus habitantes, não foram assim desde sempre. Foram construídas com visão de longo prazo, com apostas consistentes na qualidade do espaço público, na mistura de usos, na mobilidade e na habitação para todos os rendimentos. Foram construídas por gerações que não viram o resultado final mas que souberam que estavam a construir algo maior do que elas próprias.

Também as cidades se vencem com persistência. Com decisões que não têm impacto imediato visível mas que, somadas ao longo de anos, definem se um país cresce para dentro ou apenas cresce para fora.

O que proponho

Primeiro: que o novo ciclo político assuma a habitação como prioridade estrutural e não apenas como programa pontual, criando um quadro de financiamento estável que permita resposta escalonada às necessidades reais das famílias cabo-verdianas, com qualidade arquitectónica e construtiva garantida.

Segundo: que os planos de ordenamento do território sejam revistos e actualizados com urgência, em particular nas ilhas com maior pressão turística e demográfica, assegurando que o crescimento urbano acontece de forma planeada e não à margem de qualquer instrumento de gestão territorial.

Terceiro: que a arquitectura cabo-verdiana – a sua especificidade climática, construtiva e cultural – seja reconhecida como activo estratégico e incorporada nas políticas de habitação, turismo e identidade nacional, criando incentivos para o uso de soluções construtivas adaptadas ao contexto local e valorizando os profissionais e as empresas nacionais do sector.

Estes não são pedidos corporativos de uma classe profissional. São condições mínimas para que o desenvolvimento de Cabo Verde seja sustentável, equitativo e reconhecível como nosso.

O esforço que não se vê é o que mais conta

Existe uma ilusão recorrente na política: a de que governar é inaugurar. Mas a maior parte do trabalho que transforma um país não tem fita para cortar. É a revisão do regulamento que ninguém leu. É a negociação do financiamento que demorou dois anos. É o plano que foi desenhado, consultado, contestado, ajustado e finalmente aprovado. É o técnico que ficou quando podia ter ido.

Cabo Verde tem esses técnicos. Tem arquitectos, urbanistas, geógrafos, engenheiros formados nas melhores universidades do mundo que escolheram voltar ou que nunca saíram. Tem uma diáspora que financia, que advoga, que traz conhecimento e que mantém os laços. Tem um povo que aprendeu, há muito, que o caminho se faz caminhando – mesmo quando o vento sopra contra.

Apostemos neles. Apostemos uns nos outros. Não como slogan, mas como política deliberada de valorização do que somos e do que temos. Porque o país que queremos ser já existe em potência. O que falta é a decisão colectiva de o construir com as mãos que cá estão.

A persistência que nos trouxe até aqui é a mesma que nos pode levar mais longe. Mas para isso, é preciso saber para onde vamos – e ter a coragem de traçar esse caminho no território, antes que outros o tracém por nós.

*Arquitecto, urbanista e fundador da César Freitas Arquitetos (CFA), com escritórios na Praia e no Mindelo.

Foi Bastonário da Ordem dos Arquitetos de Cabo Verde e Portugal entre 2010 e 2017.

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