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Opinião

Quem protege as crianças do turismo?

Por: Denise Resende*

O turismo transformou Cabo Verde. Agora é tempo de garantir que o seu crescimento protege também quem nunca escolheu fazer parte desta indústria.

Há um preço do turismo que não aparece nas estatísticas e tampoco se mede pelo número de visitantes, pelas receitas arrecadadas, pelos investimentos captados ou pelas taxas de ocupação hoteleira. Mede-se pela capacidade de garantir que o desenvolvimento económico não aumenta a vulnerabilidade das crianças e adolescentes que crescem nos destinos turísticos.

O turismo transformou Cabo Verde. Gerou emprego, atraiu investimento, dinamizou economias locais e projetou o país além-fronteiras. É, sem dúvida, um dos pilares do nosso desenvolvimento. O crescimento registado nas ilhas do Sal e da Boa Vista, bem como a crescente afirmação turística de Santiago, São Vicente, Maio, Santo Antão, Fogo e das restantes ilhas, demonstra o enorme potencial do setor para impulsionar o país. Mas precisamente por isso, importa perguntar: estamos a construir um turismo que protege as crianças ou apenas um turismo que gera riqueza?

Os turistas escolhem Cabo Verde como destino. Os investidores escolhem onde investir. Os hotéis escolhem onde abrir portas. Mas as crianças não escolheram crescer num destino turístico. E é exatamente por isso que cabe aos adultos garantir que o desenvolvimento económico nunca aumente a sua exposição à exploração, ao abuso, à negligência ou a qualquer outra forma de violência.

Nenhum destino turístico está imune aos riscos associados ao aumento da circulação de pessoas, dinheiro e oportunidades. A exploração sexual de crianças, o tráfico de pessoas, o trabalho infantil, a mendicidade, o abandono escolar, o consumo precoce de álcool e drogas e outras formas de violência encontram terreno fértil onde coexistem vulnerabilidade, silêncio e ausência de fiscalização.

Os sucessivos relatórios internacionais sobre tráfico de pessoas continuam a alertar que Cabo Verde permanece vulnerável à exploração de crianças, incluindo para fins de exploração sexual. À medida que o turismo cresce, sobretudo nas ilhas com maior pressão turística, cresce também a responsabilidade de prevenir estes riscos através da fiscalização, da capacitação dos profissionais e de mecanismos eficazes de proteção. Ignorar estes alertas não reduz o risco. Apenas adia a resposta necessária e aumenta a vulnerabilidade das crianças.

Infelizmente, há realidades que estão à vista de todos, mas que, pela repetição, deixaram de causar a indignação que deveriam provocar. Crianças a vender produtos ou serviços durante horas em zonas turísticas. Adolescentes constantemente expostos a ambientes destinados a adultos. Menores desacompanhados em praias e locais de grande circulação de visitantes. Aproximações inadequadas entre adultos e crianças que passam despercebidas. Trabalhadores que suspeitam de situações de risco, mas não sabem como agir ou receiam denunciar.

Não é necessário esperar pela atuação de redes criminosas organizadas para reconhecer que existem riscos. Basta olhar para aquilo que se tornou normal. Crianças que passam o dia nas praias a abordar turistas. Adolescentes que circulam sozinhos durante a noite em zonas de diversão. Menores que recebem dinheiro, presentes ou convites de adultos desconhecidos sem que ninguém questione. O risco começa muito antes de existir um processo criminal. Começa quando deixamos de estranhar aquilo que nunca deveria ser normal. O silêncio nunca protegeu nenhuma criança.

Durante demasiado tempo preferimos acreditar que estes problemas pertenciam a outros países. Mas negar a sua existência nunca impediu que acontecessem. Apenas tornou as crianças mais invisíveis e os agressores mais confortáveis.

É por isso que a proteção da infância não pode continuar a ser vista como responsabilidade exclusiva das instituições de proteção. Exige uma resposta articulada entre o setor do turismo, o sistema nacional de proteção da criança, as forças de segurança, o Ministério Público, os tribunais, os municípios, os setores da educação e da saúde, as organizações da sociedade civil e as próprias comunidades. Exige fiscalização regular, protocolos claros de atuação, partilha de informação, formação contínua e capacidade de resposta. Não basta reagir quando um caso chega às notícias; é preciso construir um sistema capaz de prevenir, identificar precocemente e atuar antes que os danos aconteçam.

O próprio setor turístico tem aqui uma oportunidade de liderança. A responsabilidade social dos hotéis, operadores turísticos, alojamentos locais, restaurantes, empresas de animação turística e demais agentes do setor não pode limitar-se ao apoio pontual a iniciativas comunitárias. Deve refletir-se em políticas concretas de proteção: formação dos trabalhadores para reconhecer sinais de exploração e abuso, códigos de conduta, mecanismos seguros de denúncia, cooperação com as autoridades e proteção dos próprios colaboradores para que possam reportar situações suspeitas sem receio de represálias. A proteção infantil deve fazer parte da cultura organizacional das empresas turísticas, da mesma forma que já fazem parte as normas de segurança, higiene e qualidade do serviço. Proteger as crianças é também proteger os trabalhadores, a reputação das empresas e a credibilidade do destino turístico.

Cabo Verde tem todas as condições para se afirmar como uma referência africana em Turismo Seguro para Crianças. Não apenas pela qualidade da sua oferta turística, mas pela capacidade de demonstrar que desenvolvimento económico e proteção da infância caminham lado a lado. Podemos criar um selo nacional para empreendimentos comprometidos com a proteção infantil, investir na formação obrigatória dos profissionais do setor, reforçar a fiscalização, desenvolver planos locais de prevenção nas ilhas com maior pressão turística e integrar a proteção da infância nas estratégias nacionais de turismo sustentável. Não se trata de colocar em causa um setor que tanto contribui para o país. Trata-se de garantir que o seu crescimento caminha lado a lado com a dignidade humana e os direitos das crianças.

Continuaremos, certamente, a medir o sucesso do turismo pelo número de visitantes, pelas receitas geradas e pelos investimentos captados. Mas talvez tenha chegado o momento de acrescentarmos um novo indicador: a capacidade de garantir que nenhuma criança ficou mais vulnerável enquanto o país crescia.

As crianças não escolhem viver do turismo. Mas todos nós podemos escolher que tipo de turismo queremos construir para elas.

*Psicóloga, orientadora parental e especialista em proteção infantil, com intervenção em contextos comunitários e contributo em iniciativas de advocacy e políticas de proteção da criança em Cabo Verde.

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