
Por: Carlos Carvalho*
Há dias, foi o Djudju!!
Ontem, recebi a notícia que esperava não ouvir. Foi o Comandante Pascoal!!
NB: artigo começado há já uns bons dias.
Perdi dois amigos, em tão pouco tempo!!
Dja nu perdeba Grande Djosinha!!
Na curtu spasu di tenpu, o país perdeu três Homens do nosso universo-cultural-musical!! O país perdeu um animador cultural, um radialista, um cantor. Perdeu um diplomata-de-carreira!! Três ilustres cidadãos deste país.
Com Djosinha não tive nenhuma ligação, senão uma enorme admiração pelo seu talento.
Já Djudju Tavares, di Djarmai, era meu primo, disse-me o irmão Tó Tavares.
Minha mãe é Tavares tanbi di Djarmai.
Purmerus-primus k Pira-di-Cadjeta!! Quem é do Maio quase que obrigatoriamente tem que conhecer esta ilustre figura!! Pois, perdi meu primo Djudju, sen convivi txeu kel.
Má, ca mesteba convivi txeu k Djudju para saber que era pessoa-finu; gente-fina como se costuma dizer. E, sendo de Djarmai, terra di guentis só manso, k ca konxi nenhum maldadi, como cantou seu ilustre-compatriota, Betu, Djudju não podia ser má pessoa, tinha k ser mesmo arguen dretu!!
E, sendo do mundo da música, sima quazi tudu arguen di Djarmai, Djudju tinha k ser um paz-di-alma!!
Si alma di serteza dja sa ta descansa na otu mundu, djuntu k anjos di Nhor-Dios!!
Porém, pa discuidu, n’ca bai funeral de Djudju.
Quando procurava me inteirar, me disseram:
– Mós, Caló, Djudju dja nteradu.
Não vou me perdoar por não ter ido me despedir do meu primo!!
Djudju não passou despercebido neste nosso mundo-berdianu. Serviu o país, como cidadão, como gestor, como diplomata, como músico, como escritor. Seguramente, Djudju será mais lembrado pela sua contribuição no mundo da música, tendo deixado publicações de obrigatória consulta de quem estuda a música berdiana.
O sempre-atento, Ministro Jorge Tolentino, colega de profissão de Djudju, dedicou-lhe uma bela e singela homenagem. Óbvio, que com a pena que Jorge tem, ninguém mais conseguiria escrever melhor sobre o malogrado. Portanto, não vou escrever mais nada, para dizer, nada!! Jorge já disse tudo!!
PASCOA – COMANDANTE PASCOAL
Agora, Pascoa, meu eterno Comandante, me surpreendeu. Falara com ele um tempo antes e ele me confidenciara:
– Comandante, mós, n’passa mal!! Filismenti n’sai rápido. N’txiga a tempo de es fazen um bom tratamento.
Não conto os detalhes da conversa. Não vale a pena!! Os amigos mais próximos sabem.
Assim, quando Baleno, nosso-amigo-comum, me disse:
– Caló, n’ten mau noticia pa dou. Pascoa sta mariadu…sta internadu.
Reagi.
– Não!! Modi!!?? Pascoa ca flan ma é ben dretu!!?? É fazi um bom tratamento.
– Não, mós!!
Replicou Baleno.
– Cuza é gravi!!
Pelo jeito de falar do Baleno vi logo que a coisa era grave.
– Balas, nton temos que ir visitá-lo!!
– Calo, mós, mi ca ta da pa bai. Ca ta consigui oia Pascoa mó es dzen ma é sta. Bó sabé nha … ca sta grandis coza!!
Sima staba em fadja k Pascoa, disidi bá visital.
– Paulão, dja bu sabi di Pascoa??
– Não!!
– Baleno ca flou??
– Má, Pascoa ca dja staba midjor!!!??
Pois, estava!!
Bom, la combinamos com o Paulão ir visitar Pascoa.
Foi tarde!!
Noti inda, bespra di dia combinado para a visita, Baleno txoman.
Algo me disse que era má notícia.
Foi seco.
– Calo, Pascoa ca aguenta!!
Silêncio looooonnngo!!
Nem sei mesmo o que falamos depois.
Desligamos.
Comandante Pascoal dexanu, para sempre!!
PASCOA – MÚSICO
Pascoa era homem de múltiplos ofícios. Sempre com uma ferramentinha na mão conpondu algun algo!! Casa di Pascoa é um atelier!!
Era também um bon-vivant!! Normalmente, nunca dispensava un toca-tina.
Pascoa é Omi-di-musica!! Toca, canta, constrói instrumentos…
Amante da morna, da coladeira, ou não fosse discípulo de Ano Nobu e fidju di S. Domingos. Pascoa, como eu, era amante da música nacional. Não curtia muito estas músicas que estão hoje na moda.
Dizia, Pascoa não dispensava uma tocatina que seja, tendo disponibilidade. Tive a sorte de “partilhar” muitas toca-tinas com o Pascoa, o Manel-d’Candinho e o Baleno, seu companheiro de muitas noitadas e “caxassadas”!!
Eu era só para ouvir e cobrar dele uma música que nós os dois muito apreciamos, uma das obras-primas do maestro Paulino: “Minut di silensio”, que dedicara ao pai; eu e o Pascoa dizíamos: nunca um berdianu dedicara tão bonita música ao pai, como fez o Mestre.
Era sempre no fim.
– Comandante, ca nhu skesi nós muzica!!
E la dizia:
– Baleno, keli é ultimo.
Comentava, no fim:
– Mós, Comandante, Paulino era mesmo um mestre!!
PASCOA – EU – BALENO – CIMBOA
O projecto Cimboa não atava…nem desatava. Com financiamento garantido, corríamos o risco de o perder por coisas menores!! Egos de pessoas, sempre atrapalhando.
Decidi.
– Baleno, tu vais dirigir o projecto e conclui-lo. Não podemos continuar neste ram-ram!!
– Móóóós, Calo!! Bo sabé ma n’ca tem djetu pés coza!!
– Naaaaaaaa, li ca ten, ca ten djetu!!
– Tu, o titio, e vou pedir o Pascoal para orientar tudo. Tu só vais dirigir as coisas pela parte do IIPC. A parte técnica (formação) deixas com o Pascoal.
– Mas, eu não conheço bem Pascoal.
– Não precisas conhecer. Não há como não dares bem com o Pascoa!!
Dias depois, pedi ao Pascoal pá ba atxan lá IIPC, para falarmos de Cimboa e la expliquei, mais ou menos, o assunto.
– Comandante, má mi go n’ca conxi Baleno. Bu sabi guentis d’azilhas!!
– Comandante, ca ten ipotizi di nhu ca gosta di Baleno. El é mó nhó. Igual!!
Resumindo.
– Depois, Comandante, me disse: logo na primeru dia mi k Balas nós filing dá!! Forti mós dretu!!
Baleno confirmava.
– Mós, Calo, mi má Pascoa nu caba d’oia…é kes coza bo ta dzé…quimica!!
E, graças ao Cimboa, Baleno e Pascoa se tornaram amigos ti morti!!
Por isso, Baleno disse.
– Calo n’ca podé ba oia Pascoa si!! Nha … ca ta guenta!!
FUNERAL DO PASCOAL
Contrariamente ao Djudju, fui ao funeral do Comandante.
S. Domingos parou!! Guentis di tudu Santiago, di tudu ilha, cunpanha Pascoa pa sé ultimu morada!!
Cerimónia boniiiiiiiiitu!!
Ti un bedja, na alto sé baranda, txora, cantu Pascoa passa.
Os músicos que o acompanharam, entretanto, se esqueceram de tocar:
Minut d’silencio!!
Fiquei triste!!
CONCLUINDO
Em tempos, havia avançado à Camara de S. Domingos uma série de ideias. Dentre elas, uma de criar um Museu da Cimboa; outra, de criar um grande monumento à Cimboa, na entrada di “vila”. Claro, Pascoa seria o pivot de tudo.
Má, sima nó pulitikus ta riagi leeeenntu!!
Pascoal di Nha Bébé, Comandante Pascoal, de verdadeiro nome, Domingos da Ressurreição Fernandes, partiu… Para sempre!!
Descanse em paz, Comandante!!
O país reconhece o que fizeste por ele!!
Bu paga bu kinhon!!
Mas um bés, nhas pêsames pá Elsa, Elcio, otus fidjus, irmãos, irmãs, toda a família de S. Domingos.
Pesames tanbi pa famílias di Djozinha k di Djudju.
06/26.

