PUB

Convidados

Da análise política – Estarão os cabo-verdianos a precisar deste Estado?

Por: Rui Pereira

Cinquenta e um anos depois da independência

Há perguntas que uma sociedade adia porque receia as respostas. Mas chega um momento em que continuar a evitá-las se torna mais perigoso do que enfrentá-las.

Cinquenta e um anos depois da independência, Cabo Verde chegou a esse momento.

A independência não está em causa. O que está em causa é o Estado que fomos construindo desde 5 de julho de 1975. A questão é simples, mas profundamente inquietante: correspondeu esse Estado à missão histórica que lhe foi confiada?

Ao longo de cinco décadas, o país consolidou a democracia, a estabilidade institucional e um reconhecido prestígio internacional. São conquistas inegáveis que importa preservar. Mas esse reconhecimento não pode impedir uma análise crítica.

A verdade é que, passados cinquenta e um anos, o Estado continua incapaz de ultrapassar fragilidades estruturais que já deveriam estar largamente vencidas. 

A economia permanece estruturalmente pequena e vulnerável. A dependência externa continua elevada. A produtividade cresce lentamente. Milhares de jovens perderam a confiança de que o país lhes possa oferecer oportunidades compatíveis com as suas aspirações e procuram realizar os seus projetos de vida fora do território nacional. Apesar das sucessivas reformas anunciadas, a Administração Pública continua a revelar dificuldades em acompanhar a velocidade das transformações do mundo.

Basta comparar, com rigor, o percurso de Cabo Verde com o da Coreia do Sul ao longo de aproximadamente meio século para perceber até que ponto a qualidade da visão estratégica das elites pode alterar profundamente o destino das nações.

Como explicar este paradoxo?

A resposta não reside apenas na escassez de recursos. Reside, sobretudo, na forma como as sucessivas elites dirigentes pensaram – ou deixaram de pensar – o futuro nacional.

Durante cinquenta e um anos, governou-se muito. Administrou-se muito. Mas planeou-se pouco.

Construiu-se uma sucessão de programas de governo, mas nunca uma verdadeira doutrina nacional de desenvolvimento capaz de mobilizar o país em torno de objetivos estratégicos de longo prazo.

A alternância democrática trouxe diferentes governos, diferentes prioridades e diferentes protagonistas. Porém, raramente produziu uma visão nacional capaz de ultrapassar os ciclos eleitorais e transformar as vulnerabilidades do arquipélago em vantagens competitivas.

Num pequeno Estado insular, a ausência de pensamento estratégico paga-se caro. Cada decisão adiada representa anos perdidos.

Cada oportunidade desperdiçada aumenta a distância em relação aos países que fizeram da inovação, da ciência, da educação, da industrialização e da boa governação os motores da sua prosperidade.

A verdadeira questão já não é quem governa o Estado. A verdadeira questão é saber se, cinquenta e um anos depois da independência, as sucessivas elites dirigentes terão, finalmente, a coragem política, intelectual e moral de romper com meio século de pensamento curto e construir o Estado estratega, moderno e verdadeiramente transformador que Cabo Verde continua à esperar desde 5 de julho de 1975.

O maior fracasso das sucessivas elites dirigentes não foi apenas governar com limitações. Foi nunca terem conseguido construir uma verdadeira cultura nacional de pensamento estratégico.

Talvez o maior défice do Estado cabo-verdiano nunca tenha sido financeiro.

Tenha sido estratégico. Faltou capacidade para antecipar. Faltou rigor na definição das prioridades. Faltou continuidade nas grandes políticas públicas. E faltou, sobretudo, uma cultura permanente de avaliação dos resultados.

Os países não permanecem vulneráveis apenas porque dispõem de poucos recursos. Permanecem vulneráveis quando as suas elites deixam de pensar cinquenta anos à frente e passam a governar apenas o próximo orçamento ou a próxima eleição.

É precisamente aqui que surge um dos maiores paradoxos nacionais.

A extraordinária afirmação da seleção cabo-verdiana de futebol não nasceu da força organizacional do Estado. Nasceu, em grande medida, da qualidade da diáspora, do mérito individual, do investimento das famílias, da disciplina competitiva e da capacidade de integração em contextos altamente exigentes.

O mesmo acontece com milhares de cabo-verdianos que hoje se destacam na medicina, na engenharia, na investigação científica, na gestão, na cultura, na inovação e no empreendedorismo em vários países.

A sociedade cabo-verdiana demonstra capacidade para competir com os melhores.

Porque continua, então, o Estado a revelar tantas dificuldades em competir com os pequenos Estados mais bem organizados do mundo?

Esta pergunta deveria inquietar toda a liderança nacional. Cabo Verde já não precisa apenas de novas reformas administrativas.

Precisa de um novo projeto coletivo de desenvolvimento. Um projeto que coloque o conhecimento, a inovação, a tecnologia, a produtividade, a industrialização e a responsabilidade institucional no centro da ação pública.

Um projeto que substitua a gestão permanente das limitações por uma cultura nacional de criação de riqueza, de oportunidades e de realização humana.

Nisso reside, talvez, a maior reforma da história contemporânea de Cabo Verde: mudar, definitivamente, a essência e a configuração de um Estado cuja cultura institucional continua, em muitos aspetos, marcada por uma lógica assistencialista, centralizadora e geradora de dependências.

Talvez tenha chegado o momento de concluir uma segunda etapa da construção nacional: não para substituir a independência conquistada em 1975, mas para construir um Estado estratega, moderno e inovador, capaz de responder às exigências de uma sociedade global, competitiva e orientada para a prosperidade sustentável.

As nações não se afirmam apenas pela memória das suas conquistas. Afirmam-se pela coragem de reinventar as suas instituições e de preparar o futuro.

A verdadeira questão já não é quem governa o Estado.

A verdadeira questão é saber se, cinquenta e um anos depois da independência, as sucessivas elites dirigentes terão, finalmente, a coragem política, intelectual e moral de romper com meio século de pensamento curto e construir o Estado estratega, moderno e verdadeiramente transformador que Cabo Verde continua à esperar desde 5 de julho de 1975.

Porque talvez o maior desafio da independência já não seja apenas preservar a liberdade conquistada. Seja, finalmente, transformá-la em prosperidade sustentável, conhecimento, capacidade produtiva e realização plena das aspirações de bem-estar e desenvolvimento.

PUB

PUB

PUB

To Top