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Como o mundo passou a ver a China

Por: João Serra*

Durante décadas, a ascensão da China decorreu sob uma perceção ambivalente por parte das principais democracias ocidentais: por um lado, Pequim era reconhecida como um parceiro económico indispensável; por outro, continuava a ser encarada com desconfiança enquanto potência estratégica em ascensão. 

Esta dualidade contribuiu para a manutenção de uma ordem internacional em que os Estados Unidos da América (EUA) conservaram uma posição predominante não apenas em termos materiais, mas também ao nível da influência normativa e simbólica. 

Os dados divulgados em 2025 e 2026 sugerem, porém, uma alteração significativa deste padrão. Pela primeira vez em quase duas décadas, a China registou níveis de aprovação internacional superiores aos dos EUA. Mais do que um fenómeno conjuntural, esta evolução pode ser interpretada como um indício de mudanças estruturais na distribuição do poder reputacional à escala global e nas perceções internacionais sobre as fontes de legitimidade da liderança mundial.

Os dados que sustentam esta conclusão são robustos. De acordo com a Gallup – instituição norte-americana de referência na área dos estudos de opinião pública internacional, que realiza inquéritos regulares em mais de uma centena de países –, a aprovação da liderança chinesa fixou-se em 36%, face a 31% para a liderança norte-americana, configurando a maior vantagem de Pequim desde o início da série. 

Mais relevante do que o valor absoluto é a direção da evolução: entre 2024 e 2025, a aprovação dos EUA caiu de 39% para 31%, ao passo que a da China subiu de 32% para 36%. Em termos analíticos, não se trata apenas do reforço relativo da posição chinesa, mas também de uma deterioração simultânea da imagem internacional dos EUA, dois movimentos que, em conjunto, contribuem para reconfigurar a geografia global da confiança política.

Já o estudo do European Council on Foreign Relations (ECFR), realizado em novembro de 2025 com 25.949 inquiridos em 21 países, incluindo 15 europeus e 6 não europeus, aprofunda esta leitura com uma granularidade geográfica que torna o fenómeno ainda mais nítido. 

Na África do Sul, 85% dos inquiridos veem a China como aliada ou parceira necessária; na Rússia, essa proporção sobe para 86%; no Brasil, situa-se nos 73%. Mesmo na Índia, onde as relações bilaterais têm sido historicamente marcadas por tensões fronteiriças e rivalidades regionais, quase metade da população considera a China um parceiro necessário. 

Estes números não traduzem um entusiasmo ideológico por Pequim. Antes refletem uma avaliação pragmática sobre quem oferece estabilidade, previsibilidade e benefícios tangíveis numa ordem global em reconfiguração.

Pela primeira vez em quase duas décadas, a China registou níveis de aprovação internacional superiores aos dos EUA. Mais do que um fenómeno conjuntural, esta evolução pode ser interpretada como um indício de mudanças estruturais na distribuição do poder reputacional à escala global e nas perceções internacionais sobre as fontes de legitimidade da liderança mundial. (…) Vivemos já num mundo em que a China se tornou incontornável e em que os EUA deixaram de ser a referência automática da ordem internacional.

A Europa, historicamente o principal bastião da aliança transatlântica, não escapa a esta tendência. Segundo a ECFR, apenas 11% dos europeus consideram atualmente os EUA um aliado, o que confirma uma erosão significativa da confiança transatlântica ao longo de 2025 e 2026. A erosão é estrutural: não resulta de uma fricção diplomática pontual, mas de uma alteração mais profunda na perceção do papel dos EUA como garante da ordem liberal internacional. A lógica do “America First”, ao privilegiar o interesse nacional imediato em detrimento do compromisso multilateral, acabou por corroer uma das maiores vantagens estratégicas de Washington: a legitimidade associada à defesa de uma ordem partilhada. A imprevisibilidade tornou-se uma caraterística dominante da política externa norte-americana – e, em geopolítica, a imprevisibilidade é o oposto da liderança

O paradoxo é notável: ao procurar restaurar a grandeza norte-americana por via de tarifas punitivas e do enfraquecimento das instituições multilaterais, Washington acabou por acelerar a reabilitação da imagem de Pequim. A China, ao contrário do que muitos analistas antecipavam, não foi vulnerabilizada pela guerra comercial. Pelo contrário, respondeu com forte capacidade de adaptação, reforçando os controlos sobre exportações de terras raras e redirecionando parte significativa dos seus fluxos comerciais para mercados não norte-americanos. 

Em 2025, o excedente comercial chinês atingiu um recorde de 1,189 biliões de dólares, enquanto o PIB cresceu 4,9%, em linha com as estimativas para o ano.

O que torna este momento particularmente singular é a forma como é percecionado no Sul Global. Durante décadas, muitas economias em desenvolvimento alinharam-se com o Ocidente por dependência financeira e pela escassez de alternativas credíveis. 

A China foi consolidando, de forma gradual, uma dessas alternativas, através da Iniciativa Faixa e Rota, do investimento em infraestruturas, de acordos bilaterais e da expansão da sua presença tecnológica em mercados historicamente mais próximos do Ocidente. 

Os dados do ECFR sugerem que, hoje, esta estratégia encontra ressonância em várias economias emergentes. Por exemplo, no Brasil, 73% dos inquiridos veem a China como aliada ou parceira necessária, e 52% esperam um reforçoda relação com Pequim nos próximos cinco anos. 

A perceção da China como potência em ascensão é ampla. No levantamento do ECFR, 83% dos inquiridos na África do Sul, 72% no Brasil, 57% na Rússia, 54% nos EUA e 50% no Reino Unido esperam que a influência global chinesa aumente na próxima década. 

Em sentido inverso, a expetativa de maior influência norte-americana é minoritária mesmo entre os próprios norte-americanos: apenas 43% acreditam nisso, e, na Rússia, a proporção desce para 20%. Esta assimetria nas expetativas é, por si só, politicamente relevante: sugere que a liderança internacional depende cada vez mais da perceção de futuro do que da projeção de poder em abstrato, e essa perceção favorece hoje mais Pequim do que Washington.

Importa, todavia, evitar uma leitura excessivamente linear da evolução em curso. A ascensão da China na perceção global não equivale a uma hegemonia consolidada. Pequim continua a enfrentar contradições internas que limitam a sua projeção externa: um modelo de crescimento ainda excessivamente dependente do investimento e das exportações, uma transição demográfica acelerada, tensões regulatórias que afastam parte do capital externo e um sistema político que continua a gerar desconfiança estrutural nas democracias liberais. 

Em suma, vivemos já num mundo em que a China se tornou incontornável e em que os EUA deixaram de ser a referência automática da ordem internacional.

Praia, 05 de julho de 2026

*Doutorado em Economia

(Blog: www.economianaserra.blogspot.com)

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