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Os campeões lusófonos

Por: Karina de Fátima Gomes

Há derrotas que entram para a história como vitórias.

Cabo Verde despediu-se da Copa do Mundo diante da Argentina. O placar registrou uma eliminação. A memória coletiva, porém, registrará outra coisa: um pequeno arquipélago africano obrigou uma das maiores potências do futebol mundial a disputar, até o último minuto, uma partida que jamais será esquecida.

No futebol, como na vida, nem sempre vencer significa apenas continuar na competição. Às vezes, vencer é alterar definitivamente a forma como o mundo nos vê.

Durante semanas, milhões de pessoas perguntaram pela primeira vez: “Onde fica Cabo Verde?”. Pesquisaram o arquipélago, descobriram sua história, ouviram sua música, conheceram sua bandeira e interessaram-se por sua cultura. O futebol realizou, em poucos dias, aquilo que décadas de campanhas de promoção internacional dificilmente conseguiriam produzir.

É curioso pensar que esta Copa contou com três nações de língua portuguesa entre suas protagonistas: o Brasil, único pentacampeão da história do futebol; Portugal, potência europeia e seleção de Cristiano Ronaldo; e Cabo Verde, um dos menores países do mundo.

O Brasil entrou na competição carregando o peso de sua tradição e de sua camisa. Portugal  chegou como candidato ao título. Cabo Verde, por sua vez, chegou como estreante, trazendo apenas a ousadia dos que não aceitam os limites impostos pelos rankings.

No dia 5 de julho, o Brasil foi eliminado pela Noruega. No dia 6 de julho, Portugal também se despediu da competição, derrotado pela Espanha. Cabo Verde já havia deixado o Mundial diante da Argentina, mas restava um dado simbólico que permanecerá inscrito na memória desta Copa: os Tubarões Azuis estiveram entre as seleções lusófonas que mais longe chegaram no Mundial de 2026, e, certamente, foram a maior surpresa da lusofonia futebolística.

Pouco importa que tenham sido eliminados nas oitavas de final. Importa que saíram como representantes de uma língua, de uma história e de uma identidade que atravessam oceanos. Importa que resistiram entre os gigantes do futebol mundial.

Existe uma beleza quase poética nessa inversão. Durante séculos, Cabo Verde foi conhecido como ponto de passagem no Atlântico: pequeno, periférico, frequentemente visto apenas pela lente da emigração. Nesta Copa, porém, o arquipélago ocupou o centro do mapa.

Não foi por acaso. A seleção mostrou ao mundo aquilo que Cabo Verde conhece há muito tempo: um país não se mede em quilômetros quadrados, nem em número de habitantes. Mede-se pela capacidade de transformar limites em inteligência coletiva.

A maior conquista foi fazer com que Cabo Verde deixasse de ser um ponto desconhecido no mapa para tornar-se um nome pronunciado com respeito. (…) A Argentina venceu o jogo. Mas Cabo Verde venceu a narrativa. E, no fim desta Copa, quando Brasil e Portugal também se despediram, ficou inscrita uma verdade bonita e improvável: os grandes campeões simbólicos da lusofonia vestiam azul.

Os Tubarões Azuis são filhos de muitas geografias. Alguns nasceram nas ilhas; outros nasceram na Europa, nos Estados Unidos, no seio da diáspora cabo-verdiana. Todos escolheram vestir a mesma camisa. Todos provaram que a identidade pode atravessar oceanos sem perder suas raízes.

Talvez por isso esta seleção tenha emocionado tanta gente. Ela não representa apenas onze jogadores. Representa uma nação espalhada pelo mundo, como canta Soraia Ramos em Nha Terra: “Caboverdiano spadjado na mundo pa tudo banda”. Uma nação dispersa pelos continentes, mas que nunca deixou de reconhecer as ilhas como sua casa.

Em 2025, escrevi um artigo intitulado “Uma capital com Praia (no portal do Atlântico)”, no qual procurei apresentar Cabo Verde ao Brasil. O texto integra a coletânea Cabo Verde no imaginário brasileiro, organizada pelo professor Celso Prudente, da Universidade de São Paulo, e pelo professor José Arlindo Barreto, ex-reitor da Universidade de Cabo Verde. A obra reúne dezenas de artigos de estudiosos dedicados a pensar Cabo Verde e suas relações com o Brasil.

Naquele texto, discorri sobre relações antigas e profundas, feitas de literatura, música, telenovelas, universidades e língua portuguesa. Relações que, infelizmente, ainda são pouco conhecidas por muitos brasileiros. Não foram poucas as vezes em que precisei explicar onde ficava o meu lugar de residência… quase sempre abrindo o mapa e dando zoom no Atlântico.

O futebol mudou isso.

No Brasil, multiplicaram-se reportagens, entrevistas, comentários e manifestações de apoio aos Tubarões Azuis. Milhares de brasileiros descobriram, talvez pela primeira vez, que existe um país africano onde se fala português, onde a morna emociona, onde Cesária Évora continua a cantar para o mundo e onde uma pequena seleção foi capaz de desafiar campeões mundiais.

Essa talvez seja a maior conquista desta geração. Não apenas a classificação histórica. Não apenas os resultados diante do Uruguai, da Arábia Saudita ou da Espanha. Nem mesmo a coragem demonstrada contra a Argentina.

A maior conquista foi fazer com que Cabo Verde deixasse de ser um ponto desconhecido no mapa para tornar-se um nome pronunciado com respeito. As Copas do Mundo passam. A visibilidade permanece. Os gols serão lembrados por algum tempo. Mas as pontes culturais permanecerão por muito mais.

Os Tubarões Azuis regressam às ilhas sem uma taça. Mas regressam trazendo algo talvez ainda mais valioso: a certeza de que um país inteiro pode sonhar em escala mundial.

O meu Brasil foi eliminado e continua, há 24 anos, sem vencer uma Copa (nosso maior jejum sem vitórias). Portugal, apesar de sua força e de seus grandes nomes, também nunca conquistou esse título.

Cabo Verde não levantou a taça. Mas levantou o olhar do mundo. Antes mesmo de a bola rolar, o youtuber angolano Baptista Miranda em um vídeo do canal de Youtube brasileiro “3 continentes” ousou desafiar as previsões: “A surpresa será Cabo Verde”. Entre risos e descrença, insistiu: “A maioria das seleções que estão no Mundial não conhece o futebol de Cabo Verde”.

A Copa encarregou-se de lhe dar razão. A profecia cumpriu-se. O mundo conheceu os Tubarões Azuis justamente quando acreditava que eles seriam apenas mais um estreante.

Às vezes, o verdadeiro troféu não é aquele que se ergue no estádio. É aquele que muda, para sempre, a maneira como o mundo olha para um povo.

Os Tubarões Azuis regressam às ilhas sem a taça, mas regressam maiores do que partiram. Regressam com o respeito do mundo, com a admiração da lusofonia e com a certeza de que Cabo Verde já não é apenas um pequeno ponto no mapa: é uma nação capaz de sonhar em escala mundial.

A Argentina venceu o jogo.Mas Cabo Verde venceu a narrativa. E, no fim desta Copa, quando Brasil e Portugal também se despediram, ficou inscrita uma verdade bonita e improvável: os grandes campeões simbólicos da lusofonia vestiam azul.

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