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Aos Tubarões Azuis: Um país que nunca mediu os seus sonhos pelo seu tamanho

Por: Adilson Neto

Há jogos que distribuem pontos, outros esperança. Mas há aqueles, raros, que permitem a um povo reconhecer-se em quem entra em campo. O jogo de ontem foi um desses momentos.

Os Tubarões Azuis não levaram apenas uma camisola, um hino ou uma bandeira, levaram uma história. A memória de um povo que aprendeu a transformar a adversidade em caminho, a escassez em engenho e a distância em oportunidade.

Disseram que Cabo Verde era inviável. Um pequeno arquipélago perdido no Atlântico, sem recursos naturais, castigado pelas secas, obrigado a ver partir os seus filhos para África, para a Europa e para as Américas nos anos 40s. Aos olhos de muitos, o destino destas ilhas parecia estar escrito pela geografia.

Mas a história ensina-nos uma das suas maiores lições: a geografia condiciona, mas nunca determina o destino de um povo.

Hoje, Cabo Verde é uma nação global. É um dos raros países cuja dimensão humana ultrapassa largamente a dimensão territorial. Está presente nos cinco continentes através da sua diáspora, da sua cultura, da sua música, da ciência, da diplomacia, do empreendedorismo e, naturalmente, do desporto. Pois, cada cabo-verdiano leva consigo um pedaço destas ilhas e, ao mesmo tempo, amplia-lhes as fronteiras.

É por isso que esta Seleção representa muito mais do que futebol. Representa a capacidade de um povo acreditar em si próprio, a prova de que um país pequeno pode pensar grande, a certeza de que a verdadeira dimensão de uma nação nunca se mede em quilómetros quadrados, mas na dimensão dos seus sonhos.

Nós, filhos de Cabo Verde, nascidos nas ilhas ou na diáspora, crescemos alimentados por uma herança que não se encontra nos livros nem se mede em estatísticas: a resiliência.

Aprendemo-la no colo das nossas mães, que fizeram do pouco o suficiente. Aprendemo-la com os nossos pais, que trocaram o conforto pelo sacrifício. Aprendemo-la com os nossos avós, que enfrentaram a seca, a fome e a emigração para garantir que os seus filhos tivessem um futuro diferente.

Nós, filhos de Cabo Verde, nascidos nas ilhas ou na diáspora, crescemos alimentados por uma herança que não se encontra nos livros nem se mede em estatísticas: a resiliência. (…) Talvez seja essa a maior lição que Cabo Verde oferece à humanidade: um povo nunca deve ser julgado pelo tamanho do território que ocupa, mas pela grandeza dos horizontes que é capaz de imaginar o imaginável.

No meu caso, essa história atravessou o mar e chegou a São Tomé e Príncipe. Cresci ouvindo uma frase simples, mas profundamente revolucionária: “Os meus filhos jamais passarão fome.” Não era apenas uma promessa familiar. Era uma filosofia de vida. Era a decisão de uma geração que recusou aceitar que a pobreza fosse um destino inevitável.

É essa herança que hoje entra em campo. Cada passe, cada corrida, cada defesa e cada golo carregam consigo muito mais do que talento, pois, carregam décadas de sacrifício, de esperança e de trabalho silencioso.

Porque as grandes vitórias começam muito antes do apito inicial, quando alguém decide estudar apesar das dificuldades, quando uma mãe abdica de si para cuidar dos seus filhos, quando um jovem escolhe a disciplina em vez da resignação quando um emigrante parte sem saber quando voltará. Mas, acreditando, si ka badu, ka ta biradu!

É assim que se constroem as nações. A verdadeira força nunca foi medida pela extensão territorial. Nunca foi determinada pelo número de habitantes. Nunca dependeu da abundância de recursos naturais. A maior riqueza de Cabo Verde sempre foi o seu povo.

Nestes dez grãozinhos de terra espalhados no meio de mar Atlântico, o homem cabo-verdiano fez nascer instituições, produziu conhecimento, criou empresas, levou a morna ao património da humanidade, conquistou universidades, parlamentos, empresas, organizações internacionais e, hoje, também conquista os relvados do mundo.

Talvez seja essa a maior lição que Cabo Verde oferece à humanidade: um povo nunca deve ser julgado pelo tamanho do território que ocupa, mas pela grandeza dos horizontes que é capaz de imaginar o imaginável. 

Independentemente do resultado de hoje, os Tubarões Azuis são vencedores. Porque cada vez que entram em campo, lembram ao mundo que um país considerado improvável conseguiu transformar-se numa referência de estabilidade, de talento e de esperança.

Ontem, nas ilhas e na diáspora, milhões de cabo-verdianos bateram no peito ao mesmo ritmo.

Uma bandeira.

Uma nação.

Um sonho.

E, quando ecoar o nosso grito, Uuuu! Aaaa… Uuuu! Aaaa…, que ele seja mais do que um incentivo à Seleção. Que seja a afirmação de uma identidade construída com coragem, dignidade e resiliência.

Ontem entram em campo onze jogadores. Mas, com eles, entram séculos de história, gerações de sacrifício e milhões de cabo-verdianos espalhados pelo mundo. Porque, quando os Tubarões Azuis jogam, joga Cabo Verde inteiro.

Força, Tubarões Azuis.

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