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A brilhante façanha dos Tubarões Azuis na Copa do Mundo de 2026: Um fenómeno estrutural ou simples obra de conjuntura?

Por: João Monteiro

Um colega de rede comunitária, surfando na onda da euforia que nos inunda nestes tempos de copa do mundo, publicou mais uma ilustração, semelhante às inumeras que se vem publicando desde que iniciou a copa do mundo FIFA 2026, realçando a façanha da nossa seleção de futebol na máis prestigiada competição mundial do futebol profissional. 

Pode-se resumir a ilustração a que me refiro, no seguinte: uma imagem do Vozinha equipado e em pose habitual de guarda-redes, com a bola numa das mãos, em posição de reposição de bola em jogo, uma bandeira nacional destacando-se imediatamente atrás do Vozinha, e os resultados dos jogos Cabo Verde X Espanha e Cabo Verde X Argentina, com uma inscrição na parte superior da imagem dizendo “CABO VERDE x FINALISTAS DA COPA”. 

É evidente, que a intenção dessa imagem é a de enaltecer  os feitos dos nossos “heróis” da seleção nesse embate do futebol mundial, demonstrando que os Tubarões Azuis efrentaram durante esta copa do mundo 2026 as duas maiores seleções do torneio que disputariam depois a final da copa do mundo. 

Parece que o cabo-verdiano carrega este fado de genialidade pontual ou ocasional, que deixa sempre um rasto carismático de algo bem feito, que nos orgulha a todos e desperta uma simpatia globál quase inigualável. 

No entanto, existe uma questão incontornável que deve motivar um debate nacional pós-euforia. Trata-se do debate sobre a regularidade, da efectividade, da continuidade e da sustentabilidade dos nossos feitos colectivos. Efectivamente, temos visto comentários entusiástas de torcedores azuis tipo: “Regressaremos em 2030 e vão ver” ou então “que nos esperem em 2030” etc.. isso, insinuando que, estaremos presentes na copa do mundo em 2030, e que regressaremos mais fortes e quase imbatíveis.

Mas a pergunta que não se cala relativa a essas insinuações é simples, curta, grossa e reduz-se a um, SERÁ? Pois. Porque mesmo sendo este o desejo que nos inunda coletivamente, há um árduo, longo e insinuoso caminho até 2030. 

É importante ressaltar que este momento da nossa inédita participação na copa do mundo de futebol de 2026 é realmente um momento ímpar e quase inigualável. Porém já vivemos em diversas ocasiões da nossa história recente outros momentos semelhantes e que passaram à história, sem merecer medidas de continuidade 

É que afirmações como “Voltaremos em 2030” são mais que legítimas e carregam o desejo de cada cabo-verdiano de voltar a ver brilhar os nossos valorosos tubarões azuis em 2030. Isso quer dizer que apartir de agora, para cada cabo-verdiano a possibilidade da presença de Cabo Verde nas copas do mundo de futebol e noutras competiçoes regionais deve passar a ser uma certeza e não simples acidente de percurso. 

Mas será isso possivel? A classificação inédita e a façanha dos Tubarões Azuis nesta copa do mundo 2026 é um fenómeno estrutural ou simplesmente obra de conjuntura?

É importante ressaltar que este momento da nossa inédita participação na copa do mundo de futebol de 2026 é realmente um momento ímpar e quase inigualável. Porém já vivemos em diversas ocasiões da nossa história recente outros momentos semelhantes e que passaram à história, sem merecer medidas de continuidade. 

Assim que, importa indagar se, mais este feito da nossa seleção nacional é um simples acidente de persurso conjuntural, ou se crendo nas palavras de alguns dirigentes desportivos e políticos sobre a atual façanha, que tudo isso é fruto de um árduo trabalho realizado ao longo dos anos, significando que, estamos trilhando um bom caminho, que nos levará a outros e consistentes sucessos futuros. 

Se esta é a verdade estrutural dos factos, então é justo que o torcedor azul, ou seja, cada cabo-verdiano tenha a real esperança na presença mais regular e em boas prestações dos Tubarões Azuis nas próximas competições do CAN e na copa do mundo de 2030. Então podemos sim afirmar: “Que nos aguardem”.

Sabemos porém, que nessas coisas, não existem nem milagres nem varinhas mágicas, mas sim, trabalho árduo, cujos resultados deverão ser fruto de boas políticas desportivas, com método, conhecimento de causa, e gente competente e dedicada à causa coletiva. Pois, os Vozinhas, Ryans, Stopiras etc… não são eternos e num momento dado, deverão transferir este pesado testemunho  a novos atletas, de uma nova geração, que terá a obrigação, pelo menos moral, de fazer igual ou melhor.   

E este é o real desafio. Num país onde as prioridades das políticas publicas dificilmente serão atividades que não geram bem-estar directo, imediato e coletivo, há que ter discernimento e coragem para apostar no equilibrio entre o que gera rendimento directo e visível e as que, não gerando ganhos directos e coletivos visíveis, podem assegurar ganhos de médio e longo  prazos significativos, para a economia e imagem internacional do país. 

Hoje, após a participação horosa da nossa seleção nacional de futebol na copa do mundo 2026 e da onda de simpatia, reconhecimento e demontração de afeto gerados a nivel global, ninguém terá a menor duvida da repercussão e ganhos, que tudo isso terá no turismo, assim como nas janelas de oportunidades de negócios, comércio, transporte publicidade e expansão culturais. 

Em conclusão, não queria fazer referência aos aspectos financeiros que esta aventura da copa do mundo representa para o futebol nacional e que tanto se tem badalado nas redes sociais e outros meios de comunicação. 

No entanto, sendo um elemento incontornável, considerando os parcos recursos do país e da FCF, e consciente de que tais recursos serão empregues na melhoria das condições de trabalho da federação e impulso das suas atividades estruturais, deixo formulado o desejo de que parte substancial desse recurso seja empregue na formação e iniciação de novos atletas, não como simples iniciativas de alguns amantes da bola que vêm criando e sustentado o funcionamento de escolas de formação e iniciação, mas como parte de uma poítica estruturada de formação de atletas, visando a continuidade, a regularidad e a sustentabilidade da nossa participação em eventos desportivos internacionais, como parte natural do desenvolvimento integrado do país. 

Cidade de Malabo, Julho de 2026

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