
Por: Germano Almeida
Desde que conquistou a Câmara Municipal da Praia que Francisco Carvalho me faz lembrar o presidente negro do livro O Homem, de Irving Wallace.
Como o outro ele terá chegado a presidente da CMP por um lamentável descuido dos “legítimos donos da cidade”, os únicos que se sentem com direito de pernada sobre ela, e por isso a imediata palavra d’ordem foi, “custe o que custar” Francisco Carvalho deverá ser o mais rapidamente possível dali removido, porque não faz parte da nomenclatura dos naturalmente eleitos para o exercício dessas nobres funções, não tem o pedigree dos bem nascidos, dos aristos reverenciados como classe dominante, seja desde a nascença, seja algumas vezes por simples adoção.
E por isso ele começou a ser acossado. Não se tem assistido em Cabo Verde a nada semelhante, uma tão feroz perseguição pessoal orquestrada contra um homem que nunca teve sequer direito ao benefício de uma dúvida, porque era alguém que não estava no seu devido lugar.
Também é verdade que Francisco Carvalho não chegou com humildade, não entrou de mansinho e com reverentes salamaleques, disposto a apenas gozar a sorte da vitória e deixar tudo na mesma. Pelo contrário, entrou de rompante, clamando que queria uma Praia para todos. Havia o costume estabelecido, embora contra a lei, de os vereadores usarem ao seu serviço pessoal as viaturas municipais. Porém, ainda o tribunal constitucional não tinha dado a conhecer o acórdão segundo o qual o costume contra a lei pode derrogar até a Constituição se for preciso, de modo que ele mandou proibir esse uso. E aí começou a desenvolver inimigos.
A seguir saiu-se com a ideia de um Cabo Verde para todos. No fundo sonha uma revolução social onde os desprotegidos do liberalismo reinante encontrem também a sua gota d’água. Sonha com a reconquista da confiança dos caboverdianos na sua classe política. Ora isso é uma verdadeira heresia. Melhor, uma verdadeira revolução! Se o velho Cipião tivesse nascido na capital de Cabo Verde, diria dele: DELENDA FRANCISCO CARVALHO!
E aqui está-se a dizer o mesmo: custe o que custar, é preciso parar Francisco Carvalho! Quem se julga esse intruso estrangeiro caído no meio dos nascidos para mandar e que quer vir agora perturbar o normal funcionamento das instituições onde uma clique que é transversal à sociedade civil, política e também judiciária, pasta e engorda pacifica e tranquilamente, deixando a espaços cair algumas migalhas para debelar a miséria do povo?
Francisco Carvalho é um outsider saído de um povo que quer que finalmente haja um Cabo Verde para todos, e por isso desafia a elite!
Não se tem assistido em Cabo Verde a nada semelhante, uma tão feroz perseguição pessoal orquestrada contra um homem que nunca teve sequer direito ao benefício de uma dúvida, porque era alguém que não estava no seu devido lugar. (..) Portanto, ele tem que ser travado. Custe o que custar! E todos os meios são legítimos para essa cruzada.
É possível um Cabo Verde para todos? Ele e os que estão com ele acreditam que sim, do mesmo modo que em 1975 se acreditou que era possível um Cabo Verde para todos.
Portanto, ele tem que ser travado. Custe o que custar! E todos os meios são legítimos para essa cruzada. O Ministério Público apresentou contra ele o relato de uma acusação com 99 páginas de um descritivo de ocorrências administrativas a que chama de crimes. Já antes, o Secretário Geral do MpD o tinha condenado como “conflituoso, embirrento, desonesto, criminoso, ditador e mau caráter”.
Portanto, a acusação do MP foi escusada, e FC é o primeiro cidadão que foi condenado antes de sequer ter sido acusado e julgado. Mas mais: gente com voz na elite dona do poder nas ilhas também se desespera contra Francisco Carvalho, dando ideia de estarem receosos das auditorias que ele promete mandar fazer.
O jurista João Santos diz e bem que há neste caso uma presunção de culpa. É correta essa afirmação! A presunção de inocência é um direito sagrado na vida civil, na vida política e até na vida constitucional. Porém, menos para Francisco Carvalho!
Acusado pelo ministério público de mais de 90 páginas de crimes numa oportunidade escolhida a dedo, claramente se declarou aberta a época de caça ao Francisco Carvalho. Ele tem que ser substituído no lugar de primeiro-ministro, outra pessoa que ocupe esse lugar, pede com alarido o MpD na comunicação social, ao presidente da República e também no Parlamento. Qualquer um outro, menos ele! Deve-se, portanto, perguntar: quem tem medo de Francisco Carvalho? Porque se tem medo de Francisco Carvalho?
Desde 1990 que temos vindo a assistir ao revezamento do exercício do poder entre os dois partidos. Durante cada mandato insultam-se mutuamente, acusam-se de coisas várias e graves, porém, mal chegam ao poder, como que amnistiam os adversários, como se tacitamente assumissem que hoje sou eu, amanhã serás tu no poder, não crio ondas que também podem vir a engolir-me. De modo que a longa lista de patifarias que vamos ouvindo ao longo dos mandatos, perdem-se completamente ao fim de cada Legislatura.
Ora Francisco Carvalho vem dizendo que desta vez não será assim, desta vez terá que haver prestação de contas públicas. Ora isso é música para os nossos ouvidos, porém verdadeira assombração para muitos ex-governantes, se os breves exemplos que o on line Santiago Magazine apresentou forem apenas a ponta de um iceberg nesse mar de malfeitorias de que apenas se tem um vislumbre.
Socorreu-se da Justiça para “conter” o Amadeu Oliveira, agora quer-se socorrer da Justiça para “travar” Francisco Carvalho. Também sob a grave acusação de ter cometido um crime contra o estado de direito democrático. Assim, ao mesmo tempo que de mãos postas rogamos a todos os santos que não importem nem deixem repetir no seu todo os juízes que condenaram Amadeu Oliveira, também aproveitamos para perguntar até quando a justiça no seu geral (instância, supremo, constitucional e tuti quanti) vai continuar a aceitar exercer esse desqualificante papel de carcereiro dos que em cada momento estão no poder!

