A líder da bancada parlamentar do PAICV considerou, Sexta-feira, 31 de Julho, na abertura do debate sobre o Estado da Nação, que não obstante o crescimento económico registado nos últimos anos, o país herdado pelo novo Governo apresenta fragilidades e problemas estruturais em vários sectores. Carla Lima também criticou o tom ofensivo do discurso do líder parlamentar do MpD, cuja postura classificou de pouco parlamentar durante o debate sobre o Estado da Nação.
A deputada sustentou que as eleições legislativas de 17 de Maio representaram uma avaliação da governação do MPD pelos cabo-verdianos e que a vitória do PAICV traduziu uma vontade de mudança e a confiança dos eleitores na nova maioria parlamentar.
Segundo a líder parlamentar do PAICV, o crescimento económico registado em 2025, estimado em 6,3 por cento (%), não se traduziu numa melhoria das condições de vida da população uma vez que os benefícios desse crescimento não chegaram à maioria dos cabo-verdianos.
Utilização de recursos públicos com fins eleitorais
Carla Lima acusou ainda o anterior Governo de utilizar recursos públicos com fins eleitorais, alegando que, entre Janeiro e Junho de 2026, foram executados cerca de 70% das verbas anuais destinadas a benefícios sociais e apoio habitacional.
Referiu que mais de 700 mil contos foram gastos em cestas básicas e que diversas dotações orçamentais foram praticamente esgotadas antes do período eleitoral.
A líder da bancada parlamentar do PAICV reconheceu que o apoio às famílias é uma obrigação do Estado, mas considerou que esses recursos foram concentrados à porta das eleições, numa tentativa de transformar a vulnerabilidade social em vantagem eleitoral.
Turismo excessivamente concentrado no Sal e Boa Vista
No plano económico, Carla Lima defendeu que o turismo continua excessivamente concentrado nas ilhas do Sal e da Boa Vista e assente no modelo “all inclusive”, situação que, segundo afirmou, limita a integração da agricultura, das pescas, da indústria e das micro e pequenas empresas na cadeia de valor do sector.
A deputada apontou igualmente problemas no mercado de trabalho e afirmou que, apesar da redução da taxa oficial de desemprego para 6,2% em 2025, a subutilização da força de trabalho atingiu 23,6%, abrangendo desempregados, subempregados e pessoas disponíveis para trabalhar.
Na área social, citou estimativas do Banco Mundial para defender que uma parte significativa da população permanece em situação de vulnerabilidade económica e destacou a realidade das trabalhadoras domésticas e afirmou que a maioria continua sem cobertura da Segurança Social.
Perda de confiança dos jovens nas oportunidades do país
Relativamente aos jovens, Carla Lima referiu-se a um estudo do Instituto Nacional de Estatística segundo o qual 64,6% manifestam intenção de emigrar, indicador que revela, indicou, perda de confiança nas oportunidades existentes no país.
No sector da educação, considerou que o investimento público perdeu peso nos últimos anos e criticou a redução da despesa em percentagem do Produto Interno Bruto, a organização dos agrupamentos escolares e a diminuição do número de estudantes no ensino superior em comparação com os níveis registados há mais de uma década.
Não resolução dos problemas da conectividade entre as ilhas
Quanto aos transportes, acusou o anterior executivo de não resolver os problemas da conectividade entre as ilhas, referindo atrasos, cancelamentos frequentes e elevados custos das viagens aéreas e marítimas, apesar dos recursos públicos canalizados para o sector.
Na saúde, reconheceu a realização de investimentos em infra-estruturas, mas afirmou que persistem falhas de planeamento, fiscalização e gestão, e apontou dificuldades de acesso aos cuidados médicos, problemas no abastecimento de medicamentos e a ausência de avanços na concretização do Hospital Nacional.
Crise de abastecimento de água na Praia
Carla Lima abordou ainda a crise de abastecimento de água registada na Praia, em Maio de 2026, considerando que a situação evidenciou falta de investimento, manutenção e planeamento no sistema de produção e distribuição.
A líder parlamentar do PAICV defendeu que o orçamento rectificativo, aprovado pela maioria parlamentar, a 30 de Julho, marca o início da concretização das prioridades do novo Governo, nomeadamente as medidas nas áreas da saúde, ensino superior, apoio às famílias e às empresas.
Segundo Carla Lima, “a mudança deixou de ser uma promessa” e começou a traduzir-se em decisões e políticas públicas.
C/INFORPRESS

