
Por: José Vicente Lopes
1. O início deste governo do PAICV de Francisco Carvalho segue, sem surpresa, em modo “desmantelamento” dos 10 anos da herança do MpD de UCS. Em nome da nossa tradição, suportada por 35 anos de democracia, só por milagre os novos inquilinos do Palácio da Várzea poderiam resistir à velha tentação de expor primeiro na praça pública os “erros” da governação anterior para, só depois disso, realizar o seu slogan “Cabo Verde para todos”.
Sem surpresa, portanto, esse nosso atavismo surge agora sob a forma de “desmantelamento”, termo usado pela secretária de Estado das finanças (SEF), Maria José Pereira Lopes, para explicar, na semana passada, no Parlamento, a trabalheira que foi “desmantelar” o OE herdado do MpD, de modo a cobrir o buraco encontrado acima de 8 milhões de contos – Ah, Olavo Correia! Ah, Ulisses!…
Dias antes, depois de se encontrar com a primeira missão do FMI no mandato deste governo, a SEF já nos tinha feito saber o teor da conversa que teve com esses senhores, em termos que me pareceram pouco ortodoxos, mormente por envolver uma entidade de gente normalmente sisuda, que prima pela discrição e que só se pronuncia sobre os países através de comunicados oficiais.
Assim, o debate no Parlamento, primeiro, do programa de governo e, depois, na semana passada, do estado da nação foram um “déjà vu”, com uma ou outra demão de novidade… pelo meio. A principal novidade foi a fogosidade com que certas coisas passaram a ser ditas. Tudo dito de preferência em crioulo para que o “povo lá em casa possa entender” o que realmente se quer dizer, isto num país onde a taxa de alfabetização (feita em português) ronda os 90% da população, mas que, mesmo assim, é preciso tratar o “povo” como iletrado e incapaz de entender os seus governantes quando estes se expressam em português. Coitados de Aristides Pereira, Mascarenhas Monteiro e outros mais, por nunca terem discursado em crioulo (quando a população alfabetizada estava longe dos actuais 90%), é de se perguntar por isso se eles nunca foram entendidos.
O que se disse, no Parlamento, principalmente nas partes em que o FMI foi metido ao barulho, foi grave e é isso que explica, agora, os comunicados, os esclarecimentos, do FMI, do Governo e principalmente a ida ao escritório do representante do FMI na cidade da Praia da líder parlamentar do PAICV, Carla Lima, na terça-feira, para endireitar o prego.
Com base na confiança mútua com o Breton Woods, neste caso o FMI, Cabo Verde beneficia desde os finais da década de 1990 do mecanismo de ajuda orçamental e, com base também no célebre artigo IV desse Fundo, as relações entre as duas partes passaram a reger-se, no tempo já do governo de JMN, em modos que não se comparam com as republiquetas onde o FMI tem de lidar com aldrabões de esquina.
Depois de tudo o que se disse acerca dos indicadores elaborados pelo INE, um problema de Cabo Verde e não do FMI, o Estado cabo-verdiano tem agora a urgente e ingente missão de resgatar da lama a honra desse instituto, algo de resto anunciado por FC, através de uma auditoria independente. Contudo, até que a honra perdida do INE seja resgatada, pergunto, com base em que dados este governo e os parceiros irão relacionar-se, nos próximos meses ou anos?
Em princípio, sem dados e sem avaliações dos parceiros, não há cenoura para o burro continuar a puxar a carroça e menos ainda investimentos externos. O “Cabo Verde para todos”, de FC, como sabemos, precisa de muito e muito dinheiro para cumprir o que prometeu aos cabo-verdianos.
Ver por isso os deputados do MpD no debate do estado da nação a apelarem ao sentido de Estado dos seus colegas da maioria e do Governo, quando normalmente é quem está na situação que recorre a esse tipo de discurso, foi cena nunca vista nestes 10 grãozinhos de terra.
Ainda por cima, tirando os “ganhos momentâneos” dos desmantelamentos, quando chegar a hora de o eleitor acertar as contas com quem o governa, pouco lhe interessa o tamanho do PIB, o volume da balança comercial, os meses de reservas cambiais e outras maravilhas, muito ao gosto de quem está na situação. O MpD, derrotado a 17 de Maio, que o diga. Com os “indicadores” com que se pavoneava ainda está para perceber por que diabo perdeu as eleições. Se calhar, até o FMI está para perceber também o que aconteceu em Cabo Verde a 17 de Maio e principalmente o que está a acontecer agora neste país que tinha como o seu melhor aluno em África. Que PM, no seu juízo, é capaz de dizer que os dados do seu país, ainda que herdados do tempo da outra senhora, eram manipulados? Quem pode acreditar num país com tamanho cadastro?
Que PM, no seu juízo, é capaz de dizer que os dados do seu país, ainda que herdados do tempo da outra senhora, eram manipulados? Quem pode acreditar num país com tamanho cadastro?
2. Conversados que estamos sobre como se desmantela os 10 anos da governação do MpD, sem deixar de escangalhar o próprio país, a sua imagem externa e interna, chamo agora a particular atenção dos leitores para as afirmações que se seguem. O esforço da leitura, garanto, vale palavra por palavra:
“Há um ponto de partida que exige urgência em ser sublinhado: todos os atores políticos de verdade que desempenham cargos ou funções em partidos políticos têm de tomar consciência – uma vez por todas – de que nunca na história da humanidade os políticos, a política e os partidos políticos – e logo, a própria democracia – estiveram debaixo de tanto perigo, tanta ameaça de desvalorização e até o próprio risco de desaparecimento.
São vários os fatores que fazem parte desse feixe de ameaças, mas a maior ameaça de todas é o populismo, na medida em que além do descrédito que provoca, contém certas ideias que são destruidoras da própria política, partidos políticos e políticos, uma vez que a essência dos populistas é a assunção de posições apenas para, aparentemente, agradar o povo. O populismo tem como base mentiras, suposições de conveniência, mitos e manipulações descaradas – relevando a verdade para o último plano, ou seja, como aquilo que menos interessa!”
Estas afirmações não são minhas. Elas pertencem a Francisco Carvalho e foram retiradas do seu livro “Para além do óbvio”, que reúne artigos por ele publicados no Santiago Magazine entre 2017 e 2020.
No mesmo artigo, publicado em 05-11-2018, consta um outro momento para o qual chamo também a atenção dos leitores.
“Poderá um Deputado da Nação invocar uma questão de ‘consciência pessoal’ e esquecer-se de que está em representação do povo no seu todo? (…) Como entregar uma ‘questão de consciência’ nas mãos de 0,01% de caboverdeanos deputados para decidirem pelos 531.239 habitantes do país?”
E continua, muito judiciosamente, o autor dois parágrafos mais à frente:
“Se a decisão de voto passa a ser de acordo com a vontade individual de cada deputado, estaremos a caminhar para uma espécie de ‘consciência a la carte’, pondo-se fim à previsibilidade do Grupo Parlamentar e à própria matriz ideológica e Programa Eleitoral que dão enquadramento à atuação do Grupo Parlamentar, uma vez que cada deputado poderá votar como bem entender – é o fim da condição de militante e de qualquer pedagogia!”
Como se pode ver, agora que o antigo colunista do SM é primeiro-ministro, talvez seja tempo de lermos, com lápis na mão, o que ele andou a escrever. O conselho para a leitura atenta do mesmo texto é extensivo aos integrantes do grupo parlamentar do PAICV, onde, por aquilo que pensa o seu chefe, não há lugar para objeções de consciência, esta espécie de desvio pequeno-burguês, qual doença infantil, como diria Lenine nos seus dias de glória, e que no MpD deu lugar a fenómenos como Orlando Dias e Mircéa Delgado.
Nesse mesmo artigo, FC alerta os leitores para os riscos do populismo (“de direita e extrema direita”), criticando os partidos de esquerda pela sua não “tomada de consciência” ao embarcarem “em posicionamentos populistas, transportando-os para o interior dos próprios partidos” – logo, qualquer semelhança com a nossa alegre realidade não é mera coincidência…
O livro “Para além do óbvio” é leitura que recomendo a quem quiser conhecer o pensamento estratégico do homem que tem neste momento nas mãos o leme de Cabo Verde. Embora escrito em português (e não em crioulo, coitado por isso do “povo” lá em casa…), trate, caro leitor, de correr e adquirir o seu exemplar antes que o livro desapareça da circulação.

