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Desenvolvimento em Arquipélago: Da Teoria Linear à Síntese Cabo-verdiana

Por: Albertino Ramos*

Entre o modelo e a realidade, o arquipélago.

Resumo

(Síntese de ensaio mais longo) A economia do desenvolvimento despoletou no pós-guerra, com modelos lineares (Lewis, Rostow, Harrod-Domar, Solow) que tratavam o subdesenvolvimento como fase superável. A crítica aponta a linearidade e o mecanicismo, abstraindo especificidades históricas.

A fase estruturalista (Nurkse, Myrdal, Hirschman, Kuznets) introduziu desigualdades cumulativas e desequilíbrios regionais, revelando o desenvolvimento como fenómeno territorial.

A partir dos anos 1980, a abordagem das capacidades (Schultz, Sen) deslocou o foco para o capital humano e a liberdade substantiva.

Para Cabo Verde, propõe-se uma síntese integradora: capital humano (Sen+Schultz), gestão de desigualdades regionais (Myrdal+Hirschman) e absorção tecnológica seletiva (Solow).

O desenvolvimento cabo-verdiano consistirá numa criação original, dialogando criticamente com todas as escolas.

Introdução

A economia do desenvolvimento emergiu no pós-guerra, sob o imperativo da reconstrução europeia e da descolonização afro-asiática. As primeiras formulações teóricas — de Lewis a Solow — traduziram essa urgência em modelos matemáticos, variáveis agregadas e na convicção de que o subdesenvolvimento constituía uma etapa superável mediante poupança, tecnologia e industrialização. Sete décadas volvidas, o campo disciplinar assemelha-se a um arquipélago de abordagens, cada qual iluminando facetas distintas da realidade. Para países insulares como Cabo Verde, a escolha entre escolas teóricas revela-se menos relevante do que a capacidade de orquestrar um diálogo crítico entre elas. O desenvolvimento cabo-verdiano requer uma síntese própria: o capital humano de Sen e Schultz como motor, a gestão das desigualdades regionais de Myrdal e Hirschman como bússola, e a tecnologia de Solow como ferramenta, sem perder de vista a insularidade como condicionante estrutural e não como fatalidade.

A Fase Clássica: Modelos Lineares e Promessas Incompletas

Entre as décadas de 1940 e 1960, a economia do desenvolvimento conheceu o predomínio de abordagens que poderíamos designar como mecanicismo otimista. Lewis formulou um modelo de dualidade setorial: o excedente de mão de obra no campo abasteceria a indústria urbana, gerando crescimento até ao pleno emprego. Rostow, por sua vez, desenhou uma escada de cinco estágios — da sociedade tradicional à era do consumo de massa —, sugerindo uma trajetória universal percorrida por todas as nações, desde que acompanhada pelo investimento adequado. Harrod-Domar reduziu o crescimento a uma equação simples: a taxa de expansão económica depende da propensão a poupar e da eficiência do capital. Solow, refinando este quadro, inseriu o progresso tecnológico como variável residual, mantendo, contudo, o pressuposto de equilíbrio estável.

A crítica a esta geração assenta em dois planos. Primeiro, a linearidade: estes modelos tratam o desenvolvimento como uma linha reta, desvalorizando retrocessos, choques externos e especificidades históricas. Segundo, o mecanicismo: o ser humano figura como fator de produção, não como sujeito do processo. Para Cabo Verde, estas ferramentas analíticas mostram utilidade limitada. Lewis pressupõe um excedente agrícola que o arquipélago nunca conheceu; Rostow não contempla a dependência estrutural de remessas e turismo; Solow reclama uma capacidade de absorção tecnológica ainda incipiente. Servem como instrumentos de planeamento, mas não como bússolas existenciais.

A Virada Estrutural: Desigualdade, Círculos Viciosos e Desequilíbrios

Se os clássicos concebiam o desenvolvimento como uma escada, Nurkse, Myrdal, Hirschman e Kuznets viram-no como um campo de forças. Nurkse popularizou a ideia do círculo vicioso da pobreza: um país permanece pobre porque a baixa renda impede a poupança, esta obsta ao investimento, e a falta de investimento perpetua a baixa renda. Myrdal aprofundou esta visão com a tese da causação circular cumulativa: o crescimento numa região atrai recursos de outras, gerando polarização e desigualdade crescente, a menos que políticas corretivas interrompam este ciclo. Hirschman, em contrapartida, defendeu o crescimento desequilibrado: investir em pontos estratégicos da cadeia produtiva geraria efeitos de encadeamento que, posteriormente, nivelariam as assimetrias. Kuznets propôs a célebre curva em U invertido: a desigualdade aumentaria nas fases iniciais do desenvolvimento para depois diminuir — tese empiricamente contestada, mas heuristicamente fecunda.

A grande contribuição desta fase reside na perceção de que o desenvolvimento não constitui um fenómeno homogéneo, mas profundamente territorial e relacional. Para Cabo Verde, Myrdal explica a concentração em Santiago e São Vicente; Hirschman sugere que investir em portos, telecomunicações e formação profissional pode gerar encadeamentos que beneficiam as ilhas mais periféricas. Kuznets, por seu turno, recorda que o crescimento inicial pode agravar desigualdades — um alerta para o turismo, atividade geradora de riqueza, mas também de exclusão.

A Centralidade da Pessoa: Capacidades, Liberdade e Bem-Estar

A partir dos anos 1980, consolidou-se uma mudança de paradigma. Schultz recolocou o capital humano no centro da análise: educação e saúde não constituem despesas, mas investimentos com retornos tão ou mais elevados que o capital físico. Sen foi mais longe ao propor o desenvolvimento como expansão de capacidades — a liberdade real de as pessoas serem e fazerem aquilo que valorizam. A renda deixa de ser o fim e passa a ser um meio. A pobreza não se reduz à insuficiência de recursos, mas traduz-se em privação de escolhas.

Esta abordagem ressoa profundamente em Cabo Verde. Sem recursos naturais abundantes, o arquipélago sempre apostou no seu povo — na diáspora, na educação, na resiliência. A taxa de alfabetização e a esperança de vida figuram entre as mais elevadas da África Subsariana, o que confirma a aposta de Schultz. O conceito de capacidades de Sen ilumina o verdadeiro desafio: não basta crescer; o crescimento deve traduzir-se em autonomia, mobilidade social e participação política para todos, em todas as ilhas.

Tensões Irresolvidas e a Necessidade de Síntese

As teorias percorridas não se sucedem como capítulos harmoniosos de um manual. Elas coexistem em tensão. A linearidade de Rostow choca com a complexidade de Myrdal. O foco no capital físico de Solow contrasta com a ênfase no capital humano de Sen. A visão da dependência de Nurkse opõe-se à autonomia proposta por Hirschman. Esta coexistência não configura um defeito, mas antes um reflexo da própria realidade. O desenvolvimento mostra-se multidimensional, e nenhum modelo isolado dá conta da sua complexidade.

O risco, para Cabo Verde, significa não dispensar a importação de paradigmas. Aplicar Harrod-Domar sem considerar a abertura externa; repetir Rostow sem reconhecer a dependência do turismo e das remessas; ou, inversamente, abraçar Sen sem articular estratégias macroeconómicas consistentes. O verdadeiro desafio reveste-se de natureza teórica e prática: construir uma abordagem híbrida que articule camadas aparentemente contraditórias.

Cabo Verde: Proposta de uma Síntese Insular

À luz do exposto, propõe-se uma estratégia de desenvolvimento para Cabo Verde ancorada em três pilares.

Primeiro pilar — Capital humano como alicerce (Sen + Schultz): investir maciçamente em educação técnica, saúde preventiva e formação contínua, não como gasto social, mas como política de produtividade. A diáspora deve ser encarada como extensão do capital humano, com mecanismos de transferência de conhecimento e investimento.

Segundo pilar — Gestão das desigualdades regionais (Myrdal + Hirschman): reconhecer que o crescimento de Santiago e Sal não beneficia automaticamente Santo Antão ou Fogo. Um fundo de coesão territorial, investimentos seletivos em infraestrutura (portos, telecomunicações, energias renováveis) capazes de criar encadeamentos e reduzir a polarização, sem recair no igualitarismo estático.

Terceiro pilar — Absorção tecnológica seletiva (Solow): a tecnologia assume um papel crucial, mas não pode ser imposta de cima para baixo. Cabo Verde deve escolher nichos — economia azul, energias renováveis, serviços digitais, indústrias criativas, turismo cultural, logística atlântica, aquacultura e investigação marinha —, mas de forma seletiva: apenas onde a capacidade local possa absorver e inovar, em vez de copiar modelos de países desenvolvidos.

Conclusão: O Arquipélago como Metáfora Teórica

A história das teorias do desenvolvimento não descreve um progresso cumulativo, mas um debate permanentemente inacabado. Cabo Verde, com as suas ilhas dispersas, a sua diáspora global e a sua dependência externa, constitui a própria metáfora dessa complexidade. Nenhum autor — de Lewis a Sen — oferece uma chave mestra. Cada um proporciona lentes: cada lente simboliza um aspeto da realidade, e cada uma encerra o seu ponto cego.

O desenvolvimento cabo-verdiano não obedece a um estágio de Rostow, nem a um equilíbrio de Solow, nem a uma curva de Kuznets. Configurará, se bem-sucedido, uma criação original — uma síntese integradora que supera o rigor dos modelos clássicos, incorpora a sensibilidade dos estruturalistas e assume a profundidade humanista da abordagem das capacidades.  Mais do que uma teoria, Cabo Verde reivindica uma prática reflexiva, que aprenda com todas as escolas sem se submeter a nenhuma. Afinal, se o desenvolvimento consiste, na aceção de Sen, na expansão da liberdade, então a maior liberdade de Cabo Verde comportará em desenhar o seu próprio caminho — dialogando criticamente com elas, sem as ignorar ou refutar.

* Mestre em Economia e antigo Docente Universitário

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