
Por: William Sena Vieira
É a partir desta pergunta que proponho uma reflexão sobre o desporto nacional a partir de uma figura muitas vezes esquecida nas estratégias dos clubes: o consumidor desportivo.
Seja adepto, sócio ou simplesmente alguém que acompanha, assiste e consome o produto desportivo, este público representa um dos principais ativos que os clubes precisam de compreender e valorizar.
O ponto de partida é uma realidade evidente: a esmagadora maioria dos clubes cabo-verdianos ainda demonstra dificuldades em transformar o adepto ocasional num consumidor regular e, posteriormente, num sócio. São poucos os clubes que conseguem oferecer uma verdadeira proposta de valor associada à condição de sócio.
Descontos, promoções em produtos oficiais, hospitalidade, bilhética diferenciada, prioridade na aquisição de ingressos, conteúdos exclusivos ou programas de fidelização continuam a ser pouco explorados.
Durante muito tempo, porém, o clube teve uma dimensão muito mais ampla. Nos primeiros anos de existência de várias instituições desportivas, o clube não se limitava ao futebol ou à competição. Havia saraus culturais, festas, convívios, atividades recreativas e momentos de encontro comunitário. O clube era também um espaço de sociabilidade. Ser sócio significava pertencer a uma comunidade e participar na vida da instituição.
Essa relação foi-se enfraquecendo. Em muitos clubes, a participação intelectual, social e económica dos associados diminuiu consideravelmente, deixando a vida institucional concentrada num pequeno grupo de dirigentes e colaboradores. A condição de sócio passou, em muitos casos, a resumir-se ao pagamento de uma quota, sem que exista uma experiência suficientemente diferenciadora para justificar essa relação.
Recordo, a título de exemplo, uma Assembleia Geral do Clube Sportivo Mindelense, realizada há alguns anos, que contou com uma presença muito reduzida de associados. O episódio, por si só, é revelador. Estamos perante uma das instituições mais históricas e relevantes do futebol cabo-verdiano, regularmente apontada como candidata aos principais títulos nacionais.
A esmagadora maioria dos clubes cabo-verdianos ainda demonstra dificuldades em transformar o adepto ocasional num consumidor regular e, posteriormente, num sócio. (…) Não temos apenas clubes sem sócios; corremos o risco de ter sócios sem clube, pessoas que ainda gostam do futebol, mas que já não encontram nos seus clubes uma razão suficientemente forte para pertencer. O futuro da relação entre clubes e adeptos dependerá, em grande medida, da capacidade de transformar essa relação numa verdadeira proposta de valor. O desafio está lançado!!!!
Se um clube desta dimensão encontra dificuldades em mobilizar os seus próprios sócios para a sua vida institucional, então estamos perante um problema que ultrapassa a realidade de uma única agremiação.
É fácil atribuir esta situação ao desinteresse do público. Mas será essa explicação suficiente?
Vivemos num mercado de atenção extremamente competitivo. O consumidor dispõe hoje de inúmeras alternativas para ocupar o seu tempo e investir o seu dinheiro. O futebol internacional está disponível a qualquer hora, através da televisão e das plataformas digitais. Os clubes estrangeiros desenvolveram estratégias sofisticadas de relcionamento com os adeptos, criando experiências que vão muito além dos 90 minutos de jogo.
Mas a mesma transformação digital que aumentou a concorrência também criou oportunidades. Os clubes cabo-verdianos podem comunicar diretamente com os seus adeptos, criar bases de dados, desenvolver programas de fidelização, facilitar o pagamento de quotas, vender produtos oficiais, promover conteúdos exclusivos e construir comunidades digitais.
Por isso, talvez seja necessário inverter a pergunta. Em vez de perguntarmos apenas por que razão os adeptos deixaram de ser sócios, devemos também perguntar: o que estamos a oferecer para que valha a pena ser sócio?
O problema parece assentar em pelo menos 4 grandes desafios: a limitada capacidade de oferta dos clubes, a agressividade da concorrência, o progressivo afastamento de parte da nova geração do futebol local e a ausência de estratégias consistentes de marketing, comunicação e fidelização.
Existem, entretanto, experiências que merecem ser observadas.
O Wiliete de Benguela, em Angola, e o Torreense, em Portugal, demonstram como uma estratégia de valorização da comunidade pode contribuir para ampliar de forma relevante a base de associados. O contexto económico, demográfico e desportivo desses países é naturalmente diferente do cabo-verdiano, mas os princípios de gestão, relacionamento e criação de valor podem servir de inspiração.
Cabo Verde não precisa de copiar modelos estrangeiros. Precisa de construir o seu próprio modelo, adaptado à dimensão do mercado, à realidade económica dos clubes e à forte ligação comunitária que historicamente caracteriza o nosso futebol.
O clube do futuro terá de ser mais do que uma equipa que joga ao fim de semana. Terá de ser uma marca, uma comunidade, um espaço de pertença e uma plataforma de experiências. O adepto deverá encontrar razões para acompanhar o clube, consumir os seus produtos, participar nas suas atividades e, finalmente, tornar-se sócio.
No fundo, talvez o verdadeiro desafio do futebol cabo-verdiano não seja apenas colocar mais pessoas nos estádios. É fazer com que essas pessoas sintam que pertencem ao clube.
Porque um sócio não deve ser apenas alguém que paga uma quota. Deve ser alguém que sente que o clube também lhe pertence.
E talvez seja aí que esteja a resposta à pergunta inicial: não temos apenas clubes sem sócios; corremos o risco de ter sócios sem clube, pessoas que ainda gostam do futebol, mas que já não encontram nos seus clubes uma razão suficientemente forte para pertencer.
O futuro da relação entre clubes e adeptos dependerá, em grande medida, da capacidade de transformar essa relação numa verdadeira proposta de valor.
O desafio está lançado!!!!

