
Por: António Delgado Medina*
Há um Cabo Verde que cresce, recebe investimentos e concentra população, serviços e oportunidades. Mas existe também outro Cabo Verde, menos visível e mais silencioso, que vai perdendo habitantes, sobretudo jovens, envelhecendo e vendo diminuir a sua capacidade de produzir, empreender e renovar-se. É o Cabo Verde das zonas rurais, dos vales e das pequenas localidades do interior das nossas ilhas.
Falar do despovoamento desses territórios não significa alimentar uma visão pessimista do país. Significa reconhecer um problema que, se não for enfrentado a tempo, poderá tornar-se cada vez mais difícil de reverter.
As migrações sempre fizeram parte da história cabo-verdiana e permitiram a muitas famílias estudar, trabalhar e construir melhores condições de vida. O problema começa quando partir deixa de ser essencialmente uma escolha e passa a resultar da falta de alternativas. Um jovem que não encontra emprego, formação adequada, serviços ou perspetivas de realização pessoal na sua comunidade dificilmente permanecerá nela apenas por razões afetivas.
E quando os jovens partem, não levam apenas a sua presença física. Levam força de trabalho, capacidade empreendedora, conhecimento e potencial de renovação das próprias comunidades. Quando uma localidade perde os seus jovens, não perde apenas população; perde também uma parte do seu futuro.
Os números mostram que não estamos perante uma simples perceção. Dados do Censo 2021, do Instituto Nacional de Estatística (INE), revelam diferenças importantes nos movimentos internos da população. Considerando a residência cinco anos antes do recenseamento, Praia, Sal e São Vicente registaram saldos migratórios internos positivos de 3.479, 2.022 e 1.260 pessoas, respetivamente. Em sentido contrário, concelhos como Ribeira Grande de Santo Antão (-1.034), Santa Catarina (-1.009), São Miguel (-981) e Porto Novo (-756) apresentaram saldos negativos. Os números não explicam, por si só, as causas da mobilidade, mas mostram claramente que pessoas e oportunidades não se distribuem de forma homogénea pelo território nacional.
Nas zonas rurais, o despovoamento tem consequências que ultrapassam a demografia. Quando os jovens partem, diminuem os braços disponíveis para trabalhar a terra, desaparecem pequenos negócios, reduz-se o consumo local e enfraquece-se a transmissão de conhecimentos entre gerações. Uma terra abandonada não representa apenas uma parcela que deixou de produzir; pode significar menor produção alimentar, conhecimento perdido e uma oportunidade económica desperdiçada.
Num país fortemente dependente das importações, não podemos olhar com indiferença para terras com potencial produtivo que deixam progressivamente de ser trabalhadas. Não se trata de defender o regresso a uma agricultura de subsistência, mas precisamente de fazer o contrário: modernizar a produção, melhorar a gestão da água, introduzir tecnologias, transformar e certificar os produtos e aproximar a agricultura nacional do turismo, da hotelaria, da restauração e dos mercados consumidores.
O jovem permanecerá numa comunidade rural se conseguir construir ali um projeto de vida. Para isso precisa de rendimento, serviços, mobilidade, conectividade e perspetivas de futuro. As pessoas ficam onde conseguem imaginar o seu amanhã.
É por isso que Cabo Verde precisa aprofundar políticas territorialmente diferenciadas. Praia não enfrenta os mesmos desafios de uma comunidade rural do interior de Santiago. Mindelo não possui a mesma realidade de um vale agrícola de Santo Antão. Sal e Boa Vista apresentam dinâmicas económicas diferentes das de São Nicolau, Maio, Fogo ou Brava. Um país pequeno não é necessariamente um território homogéneo.
Uma política pode ser nacional nos seus objetivos, mas deve considerar as particularidades de cada ilha, município e comunidade. Não basta levar ao interior políticas concebidas a partir dos grandes centros. Algumas políticas precisam de ser pensadas a partir do interior, ouvindo as comunidades e transformando os recursos de cada território em oportunidades concretas.
Fixar população não se consegue por decreto. Consegue-se criando razões para ficar: formação profissional ligada às potencialidades económicas locais, incentivos aos jovens empreendedores, melhores transportes, conectividade digital, saúde e educação de proximidade, agricultura moderna, transformação de produtos locais, turismo rural e de natureza e apoio à economia social.
É igualmente necessário aproximar os produtores dos mercados. Num arquipélago, a conectividade entre as ilhas não é apenas uma questão de transportes: é uma questão de coesão territorial e igualdade de oportunidades. Um agricultor que produz numa ilha e não consegue colocar regularmente os seus produtos nos mercados turísticos de outras ilhas enfrenta uma limitação estrutural que a iniciativa individual dificilmente conseguirá resolver.
Há ainda uma dimensão humana que merece atenção: o envelhecimento. Segundo o Censo 2021 do INE, 48.860 pessoas idosas residiam em agregados familiares em Cabo Verde, das quais 16.138 viviam no meio rural. À medida que os mais jovens partem, aumentam as necessidades de saúde de proximidade, cuidados domiciliários, apoio social e combate ao isolamento. E uma pergunta torna-se inevitável: quem ficará para cuidar daqueles que ficaram?
Cabo Verde realizou progressos extraordinários desde a Independência. Mas um dos grandes desafios do nosso desenvolvimento é distribuir melhor as oportunidades pelo território. Desenvolvimento não pode significar apenas crescimento económico ou construção de infraestruturas. Deve significar também a possibilidade de construir uma vida digna independentemente da ilha, município ou localidade onde se vive.
Coesão territorial não significa que todas as ilhas devam fazer as mesmas coisas. Significa permitir que cada território transforme as suas próprias potencialidades em oportunidades. O interior das nossas ilhas possui agricultura, paisagem, cultura, património, gastronomia, conhecimento tradicional e, sobretudo, pessoas. O desafio é transformar esses recursos em atividade económica sustentável, rendimento e qualidade de vida.
No âmbito da investigação que venho desenvolvendo sobre migrações internas e desenvolvimento territorial em Cabo Verde, uma convicção tornou-se cada vez mais evidente: as políticas públicas não podem limitar-se a gerir as consequências dos movimentos populacionais; precisam também de atuar sobre as condições que levam as pessoas a abandonar os seus territórios.
Não se trata de impedir ninguém de partir. A liberdade de procurar novas oportunidades deve ser preservada. Trata-se de garantir que ficar também seja uma escolha possível e digna.
Não devemos esperar que uma escola feche por falta de alunos, que uma localidade fique habitada quase exclusivamente por idosos ou que campos outrora produtivos sejam definitivamente abandonados para percebermos que existe um problema. Nessa altura, talvez já estejamos apenas a tentar reparar as consequências.
Praia é Cabo Verde. Mindelo é Cabo Verde. Sal e Boa Vista são Cabo Verde. Mas também são Cabo Verde as nossas ribeiras e vales, as pequenas localidades agrícolas, as comunidades piscatórias e as povoações mais afastadas dos grandes centros.
Um país verdadeiramente desenvolvido não é aquele em que todos precisam de deslocar-se para os mesmos lugares à procura de futuro. É aquele que consegue criar futuro em diferentes lugares do seu território.
Porque nenhuma comunidade deveria desaparecer lentamente por falta de oportunidades e nenhum cabo-verdiano deveria sentir que, para realizar os seus sonhos, a primeira condição é abandonar o lugar a que chama casa.
O interior das ilhas também é Cabo Verde. E o seu futuro tem de fazer parte do nosso projeto de desenvolvimento nacional.
26/08/2026
*Geógrafo, doutorando em Ciências Sociais

