
Por: Rui Pereira
Normalmente, quando se aproximam eleições, todos querem saber quem vai ganhar. Nas presidenciais de 2026, talvez seja mais interessante inverter a pergunta: quem vai perder? Porque desta vez pode perder muito mais do que um candidato.
Cabo Verde chegará às presidenciais poucos meses depois de legislativas que mudaram o poder. O PAICV regressou ao Governo com 37 deputados, contra 33 do MpD e dois da UCID. Há maioria absoluta, mas uma oposição que, somada, fica a apenas dois deputados dessa maioria, num ambiente de crispação e desconfiança que contamina o debate nacional.
Novembro poderá, por isso, ser mais do que uma competição entre personalidades. Poderá transformar-se num referendo silencioso sobre a distribuição do poder.
O eleitor que entregou o Governo ao PAICV poderá confirmar essa escolha ou fazer o contrário: utilizar as presidenciais para colocar um contrapeso onde as legislativas produziram uma maioria. Não seria arrependimento. Poderia ser inteligência democrática do eleitor.
Surge a primeira pergunta incómoda: quererão os cabo-verdianos colocar Governo, maioria parlamentar e Presidência da República na mesma constelação política?
Se a resposta for não, o PAICV poderá descobrir um paradoxo: entrar nas presidenciais condicionado precisamente pela vitória legislativa. Quem ganhou terá de convencer o eleitor de que ganhar novamente não significa poder a mais.
O Governo de Francisco Carvalho estará, assim, dentro da urna sem aparecer no boletim. Os primeiros meses de governação serão avaliados. A derrota de uma candidatura fortemente associada ao novo poder poderá ser interpretada como primeiro aviso ao Governo; uma vitória poderá significar aceitação de maior concentração de influência. As presidenciais serão também uma eleição sobre o Governo sem que o Governo seja candidato.
Do outro lado está um MpD obrigado a reconstruir-se depois da perda do poder. A renovação da liderança poderá mudar protagonistas e discursos, mas novembro colocará uma pergunta mais exigente: mudou apenas o líder ou mudou também a compreensão que o partido possui do país?
O maior perigo do MpD não é perder novamente. É demonstrar que ainda não percebeu por que perdeu. Se reproduzir antagonismos e reflexos do ciclo anterior, novembro poderá confirmar a derrota legislativa. Se compreender que uma candidatura presidencial precisa de ser maior do que o partido, poderá encontrar aí o início da reconstrução.
A pergunta decisiva já não é simplesmente quem vai ganhar. É saber quem descobrirá, na noite eleitoral, que esteve a disputar a Presidência de um Cabo Verde que já não existe. Porque, nas eleições que anunciam mudanças de época, não perde apenas quem recebe menos votos. Perde quem continua a oferecer ao eleitor o país de ontem quando ele já começou a votar no Cabo Verde de amanhã.
Porque existe uma regra cruel: os partidos conseguem produzir candidatos, estruturas, cartazes, comícios e votos. Mas não conseguem fabricar estatura presidencial.
O eleitor procura autoridade, confiança, independência, equilíbrio e capacidade para representar a Nação. Diante de cada candidato fará uma pergunta decisiva: esta pessoa consegue representar Cabo Verde inteiro ou apenas uma das suas metades políticas?
É aqui que os partidos podem tornar-se simultaneamente força e fraqueza. A máquina mobiliza, mas também aprisiona. Quanto mais um candidato parecer propriedade partidária, mais difícil será convencer o eleitor de que poderá ser Presidente de todos. Uma das batalhas de novembro poderá, assim, ocorrer entre candidaturas partidariamente poderosas e candidaturas socialmente legitimadas.
E talvez a sociedade tenha mudado mais do que os partidos percebem.
Existe uma geração menos vinculada às fidelidades históricas, uma diáspora exposta a outras culturas políticas, cidadãos cansados da bipolarização e eleitores que poderão começar a rejeitar a ideia de que toda a inteligência política nacional cabe inevitavelmente na fronteira PAICV-MpD.
Isso não significa o fim do bipartidarismo. Pode significar algo mais subtil: o enfraquecimento do seu monopólio psicológico sobre o eleitor.
E se aparecer uma personalidade capaz de atravessar essa fronteira? Talvez não vença, mas poderá revelar que algo profundo começou a deslocar-se na sociedade. Afinal, quanto vale uma poderosa máquina partidária quando o eleitor decide procurar uma pessoa?
Existe outro possível derrotado: o Presidente em funções, se disputar novo mandato. Um incumbente não regressa às urnas como chegou. Na primeira eleição oferece uma promessa; na segunda apresenta uma Presidência. Cada intervenção será recordada, cada silêncio reinterpretado e cada expectativa confrontada com aquilo que efetivamente aconteceu.
Um Presidente recandidato não disputa apenas contra adversários. Disputa contra a memória do próprio mandato.
Mas existe uma questão maior. Cabo Verde atravessa elevada crispação. Parlamento, partidos e debate público parecem, demasiadas vezes, mais disponíveis para amplificar divergências do que para construir consensos sobre desenvolvimento, justiça, economia, transportes, segurança, educação e futuro.
Que Presidente procurará então o eleitor? Um árbitro? Um moderador? Um contrapoder? Uma autoridade moral? Um Presidente interventivo? Um mobilizador nacional? Ou alguém capaz de combinar essas dimensões?
Porque talvez o maior derrotado destas presidenciais possa ser o velho modo de fazer política em Cabo Verde.
Se novembro voltar a ser uma guerra de aparelhos, ressentimentos e fidelidades partidárias, perderá a própria instituição presidencial. Se cada candidato falar apenas para os seus, perderá a ideia de Nação. Se os partidos tentarem transformar o Palácio numa extensão das respetivas sedes, perderá a República.
E aqui surge a pergunta mais provocadora: e se o eleitor cabo-verdiano estiver politicamente mais avançado do que os partidos que pretendem representá-lo?
Nesse caso, pode perder o PAICV mesmo governando. Pode perder o MpD mesmo renovando-se. Pode perder o incumbente. Pode perder o favorito. Pode perder o bipartidarismo. Pode perder uma geração política inteira.
Mas poderá perder, sobretudo, uma velha certeza: a convicção de que os aparelhos partidários ainda conseguem prever, controlar e disciplinar o voto dos cabo-verdianos.
Talvez seja essa a verdadeira eleição escondida dentro das presidenciais.
A pergunta decisiva já não é simplesmente quem vai ganhar. É saber quem descobrirá, na noite eleitoral, que esteve a disputar a Presidência de um Cabo Verde que já não existe.
Porque, nas eleições que anunciam mudanças de época, não perde apenas quem recebe menos votos. Perde quem continua a oferecer ao eleitor o país de ontem quando ele já começou a votar no Cabo Verde de amanhã.

