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Cabo Verde: crescer para além do turismo

Por: João Serra*

O ano de 2025 foi, uma vez mais, um ano recorde para o turismo cabo-verdiano: 1,25 milhões de hóspedes, mais 6% do que em 2024, e 6,1 milhões de dormidas, um aumento de 8,3%, com a taxa de ocupação hoteleira a subir de 60% para 72%, segundo o Instituto Nacional de Estatística. 

Seria injusto desvalorizar este desempenho. O turismo trouxe divisas, emprego e visibilidade internacional a um pequeno arquipélago sem recursos naturais relevantes e sustentou o crescimento económico do país. Mas é precisamente nos momentos de euforia que importa colocar a pergunta incómoda: o que cresce em Cabo Verde para além do turismo? A resposta, infelizmente, é simples: muito pouco.

Os números revelam uma economia com um grau de especialização invulgarmente elevado. O turismo representa cerca de 25% do PIB em termos diretos e aproxima-se dos 36% quando se consideram os efeitos indiretos, segundo o World Travel & Tourism Council. Em 2024, as receitas turísticas brutas atingiram 62,7 mil milhões de escudos, o equivalente a 22,6% do PIB. 

Do lado da balança externa, a dependência é ainda mais expressiva: as exportações de mercadorias representam apenas cerca de um décimo das exportações de serviços. Isto significa que o equilíbrio das contas externas assenta quase inteiramente nas viagens e no transporte aéreo que lhes está associado.

Nenhuma economia da União Europeia, nem mesmo a Croácia, apresenta um grau de concentração comparável. Cabo Verde não dispõe de um setor exportador com uma forte componente turística; dispõe, antes, de um setor turístico em torno do qual gravita praticamente toda a economia exportadora.

O problema não reside no crescimento do turismo em si, mas na forma como esse crescimento ocorre. O modelo cabo-verdiano constitui o arquétipo do turismo de volume: grandes resorts em regime de tudo incluído, detidos maioritariamente por capital estrangeiro e orientados para o segmento de sol e praia de preço médio-baixo. Trata-se de um modelo que cresce em número de turistas e de dormidas, mas muito menos em valor gerado por visitante. Pior ainda, as suas ligações à economia local permanecem débeis, como tenho repetidamente assinalado. 

Uma parte substancial de cada escudo gasto por um turista sai do país sob a forma de importações – alimentos, bebidas, equipamentos e serviços de gestão – e de repatriamento de lucros, num fenómeno de fuga de receitas que reduz drasticamente o valor acrescentado retido no arquipélago. 

A esta fragilidade estrutural soma-se uma dupla concentração que amplifica o risco. 

Por um lado, a concentração geográfica: as ilhas do Sal e da Boa Vista absorvem, em conjunto, 82% das entradas de turistas – 57,7% e 24,4%, respetivamente – e cerca de 80% das dormidas, deixando as restantes sete ilhas habitadas praticamente à margem do principal motor económico do país. 

Crescer para além do turismo significa apostar nos setores em que o arquipélago dispõe de vantagens comparativas efetivas. A economia azul, que já representa 20,1% do PIB mas permanece dominada pelo turismo costeiro, possui margem para crescer nas pescas, na transformação do pescado, nos portos e nos serviços marítimos, tirando partido de uma zona económica exclusiva com mais de 700 mil quilómetros quadrados. (…) O turismo deu a Cabo Verde a escada; cabe agora ao país subir para além do primeiro degrau.

Por outro lado, a concentração dos mercados emissores: o Reino Unido responde, sozinho, por 29,3% das entradas e 33,5% das dormidas, enquanto cinco mercados europeus (Reino Unido, Portugal, Alemanha, França e Benelux) asseguram perto de 70% da procura. 

A pandemia demonstrou, de forma brutal, o custo de uma dependência tão acentuada do turismo. Em 2020, o encerramento dos aeroportos provocou uma contração do PIB de cerca de 15% e obrigou o Estado a absorver o choque através de um forte aumento do endividamento, complementado por um expressivo apoio financeiro externo. 

Hoje, porém, o contexto internacional é substancialmente diferente, marcado por condições financeiras mais restritivas e por menores disponibilidades para respostas extraordinárias. Perante um novo choque turístico de grande dimensão, seria, por isso, pouco prudente assumir que Cabo Verde voltaria a beneficiar do mesmo nível de apoio externo ou da mesma capacidade de endividamento. A principal linha de defesa terá, assim, de assentar numa economia mais diversificada e estruturalmente mais resiliente.

Há ainda um efeito mais subtil, mas talvez mais determinante no longo prazo: o fenómeno de “crowding-out” (efeito de deslocamento) provocado por uma especialização tão intensa. O capital, a terra costeira, a mão de obra e, sobretudo, a atenção das políticas públicas são sistematicamente canalizados para o turismo, em detrimento de atividades com maior potencial de produtividade. 

O setor, intensivo em trabalho pouco qualificado, gera uma procura que não valoriza suficientemente as competências dos jovens mais escolarizados, os quais continuam a emigrar, num país onde o desajustamento entre qualificações e emprego limita a progressão das empresas para segmentos de maior valor acrescentado.

O sucesso do turismo transforma-se, assim, numa limitação estrutural: gera crescimento no curto prazo, mas condiciona a capacidade de o país crescer mais, melhor e de forma mais resiliente.

Que fazer? Não se trata, evidentemente, de reduzir o turismo – seria absurdo num país que dele depende. Trata-se de o transformar e, sobretudo, de crescer para além dele. Transformar significa passar do volume para o valor: aumentar a receita média por turista, diversificar segmentos e mercados – turismo cultural na Cidade Velha e no Mindelo, turismo de natureza em Santo Antão e no Fogo, turismo náutico e turismo de eventos  – e, decisivamente, reforçar as ligações entre a hotelaria e a produção local, da agricultura às pescas, para reter no país uma fração maior de cada escudo gasto. A prestação histórica da seleção nacional no Mundial de Futebol de 2026 conferiu a Cabo Verde uma notoriedade global inédita; seria um desperdício utilizá-la apenas para vender mais camas em regime de tudo incluído.

Crescer para além do turismo significa apostar nos setores em que o arquipélago dispõe de vantagens comparativas efetivas. A economia azul, que já representa 20,1% do PIB mas permanece dominada pelo turismo costeiro, possui margem para crescer nas pescas, na transformação do pescado, nos portos e nos serviços marítimos, tirando partido de uma zona económica exclusiva com mais de 700 mil quilómetros quadrados. 

A economia digital pode explorar a posição atlântica do país, os cabos submarinos que o atravessam, a estabilidade política e o alinhamento horário com a Europa para atrair serviços exportáveis intensivos em conhecimento, precisamente o tipo de atividades escaláveis que o turismo dificilmente conseguirá proporcionar. 

As energias renováveis, além de reduzirem uma fatura energética que penaliza toda a estrutura de custos da economia, podem tornar-se, elas próprias, um importante fator de competitividade. 

Porém, nada disto acontecerá sem condições estruturais de base: um ambiente de negócios favorável ao investimento, transportes interilhas fiáveis e capital humano qualificado e retido no país.

O turismo deu a Cabo Verde a escada; cabe agora ao país subir para além do primeiro degrau.

Praia, 22 de agosto de 2026

*Doutorado em Economia

Blog: https://economianaserra.blogspot.com

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