
Por: Jorge Humberto Fernandes
Durante demasiado tempo, Cabo Verde olhou para o emigrante sobretudo através de três palavras: saudade, remessas e regresso. Talvez tenha chegado o momento de acrescentar uma quarta, politicamente muito mais poderosa: representação.
Porque o emigrante cabo-verdiano não é apenas alguém que deixou as ilhas à procura de trabalho, conhecimento ou realização. É também, consciente ou inconscientemente, uma pequena embaixada de Cabo Verde instalada no mundo.
Onde chega um cabo-verdiano, alguma coisa de Cabo Verde chega com ele: língua, cultura, música, gastronomia, memória, afetos, valores e uma identidade construída durante séculos entre ilhas, continentes e oceanos. Muito antes de Cabo Verde possuir uma diplomacia estruturada, marinheiros, trabalhadores, estudantes, comerciantes, intelectuais, artistas e famílias já estavam a instalar o país em Lisboa, Roterdão, Paris, Boston, Providence, Dakar e noutras geografias.
O Estado tinha fronteiras. A cabo-verdianidade ultrapassou-as. É talvez esta uma das maiores singularidades estratégicas do país: Cabo Verde é territorialmente pequeno, mas a Nação é extraordinariamente maior do que as dez ilhas. A própria política pública reconhece hoje a diáspora como parceira do desenvolvimento, procura mapeá-la e mobilizar as suas competências, investimentos e redes.
Quanto vale para um pequeno país possuir médicos, empresários, investigadores, professores, artistas, desportistas, autarcas e dirigentes associativos integrados em sociedades economicamente e institucionalmente poderosas?
E é precisamente aqui que surge outra pergunta, talvez ainda mais desconfortável: se o emigrante mudou, não terão também de mudar as Embaixadas?
A diplomacia cabo-verdiana foi concebida num mundo diferente. Durante décadas, a missão consular concentrou-se compreensivelmente em documentação, passaportes, registos, proteção administrativa e resolução de dificuldades dos emigrantes. Tudo continua indispensável, mas o emigrante do século XXI enfrenta problemas diferentes dos enfrentados pelas primeiras gerações. Hoje existem segundas, terceiras e quartas gerações. Há dupla nacionalidade ou mais, mobilidade profissional, estudantes internacionais, empresários, investigadores, famílias transnacionais e jovens que podem sentir-se culturalmente cabo-verdianos sem nunca terem vivido nas ilhas. Há também sociedades de acolhimento politicamente diferentes, onde imigração, identidade, nacionalidade, integração e segurança se tornaram matérias cada vez mais sensíveis.
A velha diplomacia consular já não chega. Portugal constitui talvez o melhor exemplo. Durante décadas foi quase uma extensão natural da geografia humana cabo-verdiana. Continua a ser parceiro fundamental e acolhe uma comunidade profundamente integrada. Mas Portugal também mudou. A Europa mudou. As políticas migratórias mudaram. O mercado de trabalho mudou. A habitação tornou-se mais difícil. As novas gerações colocam problemas de integração, mobilidade social, identidade e representação diferentes daqueles enfrentados pelos emigrantes de há cinquenta anos.
Por isso, por exemplo, a Embaixada de Cabo Verde em Portugal não pode ser pensada apenas como representação diplomática junto do Estado português e prestadora de serviços consulares aos nacionais.
Durante demasiado tempo, Cabo Verde olhou para o emigrante sobretudo através de três palavras: saudade, remessas e regresso. Talvez tenha chegado o momento de acrescentar uma quarta, politicamente muito mais poderosa: representação. Porque o emigrante cabo-verdiano não é apenas alguém que deixou as ilhas à procura de trabalho, conhecimento ou realização. É também, consciente ou inconscientemente, uma pequena embaixada de Cabo Verde instalada no mundo.
Tem de funcionar também como observatório permanente da condição cabo-verdiana em Portugal, contribuir para uma nova cultura que una a praticidade e sustentabilidade ao desenvolvimento das comunidades.
Deve saber onde estão os cabo-verdianos, quem são, o que fazem, que dificuldades enfrentam, que posições conquistaram, que talentos emergem e que oportunidades podem ser transformadas em benefício simultâneo das comunidades e do país. O mapeamento da diáspora atualmente em curso aponta precisamente para a necessidade de conhecer melhor essa realidade de forma permanente e consistente.
Talvez precisemos, portanto, de uma verdadeira diplomacia das comunidades.
Uma diplomacia que não espere pelo emigrante atrás de um balcão consular, mas que vá ao seu encontro nas universidades, empresas, hospitais, associações, municípios, fundações, centros culturais e bairros.
Uma diplomacia que tenha a coragem de ser capaz de antecipar mudanças legislativas nos países de acolhimento, defender direitos, facilitar integração, identificar discriminações, acompanhar estudantes, apoiar idosos, aproximar novas gerações e criar redes de profissionais cabo-verdianos. Mas também uma diplomacia económica.
Cada empresário da diáspora pode abrir um mercado. Cada investigador pode ligar universidades. Cada médico pode estabelecer cooperação hospitalar. Cada engenheiro pode transferir tecnologia. Cada artista pode internacionalizar cultura. Cada jovem descendente pode tornar-se ponte entre Cabo Verde e sociedades às quais dificilmente chegaríamos apenas através da diplomacia que tem sido convencional.
Isso exige igualmente outra relação com o movimento associativo. As associações não podem continuar vistas apenas como organizações culturais chamadas para festas, encontros e celebrações nacionais. Precisam de capacitação, profissionalização e integração numa verdadeira arquitetura de projeção externa de Cabo Verde.
Chegamos, então, à inversão fundamental. Durante gerações perguntámos quanto dinheiro os emigrantes enviavam para Cabo Verde.
Agora precisamos perguntar: quanto conhecimento, influência, tecnologia, mercado, reputação e poder internacional podem ajudar Cabo Verde a conquistar? E isso obriga a reformular a própria política externa. Uma pequena Nação não pode possuir apenas diplomacia de Estado para Estado. Precisa de uma diplomacia de Nação o para mundo e para todos.
As Embaixadas deverão continuar a representar formalmente a República. Mas precisam também de aprender a organizar, conectar e potenciar milhares de “embaixadas humanas” que Cabo Verde já possui espalhadas pelo planeta. Não para instrumentalizar os emigrantes. Não para partidarizar associações. Não para controlar comunidades. Precisamente o contrário: para libertar a capacidade que elas possuem.
Talvez a maior rede internacional de Cabo Verde já esteja construída e não tenhamos ainda percebido toda a sua dimensão. São os cabo-verdianos que ensinam, tratam doentes, investigam, empreendem, administram, governam municípios, criam arte, jogam futebol, trabalham e constituem famílias pelo mundo. São embaixadores sem protocolo, sem residência oficial e sem carta credencial.
A questão estratégica do século XXI é outra: o que deverá fazer a política externa de Cabo Verde para transformar a sua diáspora numa das maiores forças de projeção, influência e desenvolvimento da Nação?
Porque talvez as Embaixadas do futuro tenham de compreender uma realidade extraordinária:
já não estão apenas no estrangeiro para representar Cabo Verde perante outros Estados. Estão também lá para ligar Cabo Verde aos milhares de pequenas embaixadas vivas que os próprios cabo-verdianos construíram pelo mundo. Uma diáspora para todos.
25 agosto de 2026

