
Por: Rui Pereira
Há países que a geografia aproxima. Outros que a História condena a entenderem-se. Cabo Verde e Guiné-Bissau pertencem talvez às duas categorias. Nasceram politicamente ligados por uma luta, um partido, uma liderança e até por um projeto de unidade. Amílcar Cabral imaginou uma libertação comum; as independências conservaram inicialmente esse horizonte. Depois veio 1980, a rutura do projeto político comum e uma cicatriz que a diplomacia foi administrando, mas que a memória nunca apagou inteiramente.
Quase meio século depois, talvez estejamos perante uma nova fase dessa relação difícil. A crise guineense de 2025/26 colocou Praia e Bissau em posições distintas. Cabo Verde condenou a tomada do poder pela força e manifestou preocupação com a situação de Domingos Simões Pereira. As autoridades de transição guineenses responderam acusando o Governo cabo-verdiano de ingerência e anunciaram o congelamento das relações políticas. Poderíamos considerar tudo isso mais um incidente diplomático. Talvez fosse um erro. Porque, quando uma divergência entre Estados começa a tocar comunidades, representações diplomáticas, segurança e sentimentos identitários, deixa de viver apenas nos gabinetes.
Os recentes acontecimentos envolvendo cidadãos guineenses na cidade da Praia e a intervenção do Embaixador da Guiné-Bissau devem, por isso, ser lidos com enorme prudência. Não permitem concluir que exista hostilidade da sociedade cabo-verdiana contra a comunidade guineense, muito menos transformar episódios criminais ou tensões comunitárias em conflito entre povos. Mas funcionam como alerta: uma crise externa pode adquirir inesperadamente uma vida interna. E é precisamente aqui que o Estado deve chegar antes da emoção. Cabo Verde acolhe guineenses, senegaleses e outras comunidades oeste-africanas que trabalham, estudam, negoceiam e constituem famílias no país. Uma divergência com Bissau nunca poderá converter cidadãos guineenses em extensões involuntárias de um conflito entre governos.
Mas há um terceiro vértice que torna a equação mais interessante: Senegal. Dakar não é um vizinho qualquer da Guiné-Bissau. Há fronteira, Casamansa, segurança, circulação de pessoas, comércio e interesses estratégicos próprios. Cabo Verde, por seu lado, tem aprofundado as relações com Senegal, inclusive na defesa e segurança marítima. Hoje não existe fundamento para falar numa deterioração Praia–Dakar provocada por Bissau. Mas estratégia não consiste em descobrir o risco depois de ele acontecer. Consiste em perguntar antes: poderá uma hostilidade prolongada entre Praia e Bissau contaminar, amanhã, outras relações de Cabo Verde na região?
A crise guineense de 2025/26 colocou Praia e Bissau em posições distintas. Cabo Verde condenou a tomada do poder pela força e manifestou preocupação com a situação de Domingos Simões Pereira. As autoridades de transição guineenses responderam acusando o Governo cabo-verdiano de ingerência e anunciaram o congelamento das relações políticas
Imaginemos uma crise guineense prolongada, posições cada vez mais duras dentro da CEDEAO, Bissau procurando solidariedades regionais e Cabo Verde insistindo na democracia, legalidade constitucional e Estado de Direito. Acrescentemos migrações, segurança marítima, comunidades residentes, pescas, comércio e os interesses próprios do Senegal. Aquilo que começou como uma linha Praia–Bissau pode transformar-se num triângulo Praia–Bissau–Dakar. E triângulos diplomáticos são delicados: uma tensão entre dois vértices pode pressionar o terceiro a mediar, posicionar-se ou simplesmente defender os seus interesses.
Há ainda um dado estratégico quase perfeito para demonstrar como estes países já estão interligados: Cabo Verde, Senegal e Guiné-Bissau integram o mesmo espaço de coordenação marítima da Zona G, juntamente com Gâmbia e Mali. Isto significa que, mesmo quando a política separa, a segurança obriga a cooperar. Crime organizado, tráfico, pesca ilegal, circulação marítima e outras ameaças não reconhecem zangas diplomáticas. Um conflito político que fragilize mecanismos de confiança regional pode, portanto, custar muito mais do que algumas declarações ásperas entre capitais.
É por isso que Cabo Verde precisa de abandonar uma visão excessivamente bilateral da sua vizinhança. Bissau não é apenas Bissau. Dakar não é apenas Dakar. CEDEAO não é apenas uma organização onde comparecemos em cimeiras. Tudo começa a fazer parte do mesmo sistema. Cabo Verde é atlântico pela geografia, lusófono por uma dimensão essencial da sua História e oeste-africano pela geopolítica. O desafio é transformar finalmente essas pertenças numa verdadeira doutrina de Estado.
Com Bissau, isso significa firmeza nos princípios e contenção na linguagem. Cabo Verde pode defender democracia e legalidade sem se transformar em comentador permanente da política interna guineense. Governos passam; a relação entre os dois povos permanece. Com as comunidades residentes, significa legalidade, segurança, diálogo e intolerância absoluta perante qualquer tentativa de converter nacionalidade em suspeita. E com Senegal significa fazer precisamente o contrário da contaminação: adensar a relação antes que problemas de terceiros possam condicioná-la — mais diálogo político, comércio, conectividade, defesa, segurança marítima, cultura e conhecimento mútuo.
Na CEDEAO, Cabo Verde terá também de aprender a ser pequeno sem ser periférico. O país construiu capital externo através da estabilidade, democracia, previsibilidade e respeito pelo Estado de Direito, valores que o próprio Estado apresenta como referências da sua política externa. Mas princípios não dispensam inteligência diplomática. É necessário saber quando falar, como falar, com quem construir posições e, sobretudo, quando uma palavra desnecessária pode produzir um problema maior do que o silêncio.
Talvez seja esta a verdadeira mensagem que Bissau está a enviar à Praia, mesmo sem querer. Cabo Verde necessita de pensamento estratégico sobre a África Ocidental. Segurança marítima, migrações, comunidades estrangeiras, diplomacia, comércio, pescas e estabilidade política já não podem ser administrados em gavetas separadas. A insularidade física deixou de significar distância estratégica.
Os conflitos que estão por vir talvez nem pareçam conflitos: poderão surgir numa votação da CEDEAO, numa crise consular, num incidente comunitário, numa questão migratória, numa divergência sobre segurança marítima ou numa aproximação diplomática mal interpretada. Alguns nunca acontecerão. Outros poderão ser evitados precisamente porque foram pensados antes.
Cabo Verde não escolhe a geografia. Não pode apagar a História que o liga à Guiné-Bissau. E dificilmente construirá uma estratégia oeste-africana consistente sem compreender o peso do Senegal. Pode, porém, decidir como transforma geografia em estratégia, memória em diplomacia e vizinhança em interesse nacional.
Porque talvez o maior risco não seja uma nova crise entre Praia e Bissau, nem sequer uma futura tensão entre Praia e Dakar.
O verdadeiro risco é Cabo Verde continuar a pensar-se protegido pela condição de arquipélago-ilhas — e descobrir, tarde demais, que os seus problemas já tinham aprendido a pensar como continente.

