
Por: Amilcar Aristides Monteiro*
Em 2026, Cabo Verde deve ultrapassar, oficialmente, 1,5 milhão de turistas, consolidando três anos consecutivos a receber mais de 1 milhão de visitantes nos estabelecimentos hoteleiros. É um novo contexto que, a par da diversificação, abre um novo capítulo e acrescenta um desafio: como gerir a pressão gerada pelo turismo?

A experiência do Sal revela que o rápido crescimento transformou a ilha e, sobretudo, Santa Maria. A pressão sobre a habitação, os serviços, as infraestruturas e o território é visível. Fenómenos emergentes, como a gentrificação, convivem com problemas antigos, como a informalidade e défices de fiscalização urbana, comercial e ambiental, ao mesmo tempo que o mercado continua a atrair investimento em toda a cadeia — hotelaria, restauração, serviços, entretenimento e desporto. É a principal referência do turismo cabo-verdiano.
O sucesso do turismo na ilha do Sal é inquestionável. Contudo, a escala alcançada mudou a natureza do desafio. Um destino pequeno pode sobreviver com decisões fragmentadas, informação incompleta e respostas reativas. Um destino que recebe 1,6 milhões de passageiros no seu aeroporto e concentra uma parte muito elevada da atividade turística nacional já precisa de outra capacidade de gestão: medir a pressão sobre os seus sistemas, acompanhar a transformação do território, conhecer a contribuição económica do turismo e antecipar respostas aos problemas.
Os números mostram, por exemplo, um destino que recebe mais gente por menos tempo. Entre 2019 e 2025, os hóspedes cresceram 52,3% e as dormidas apenas 19,6%; a estadia média caiu de 6,0 para 4,8 noites. Mas as duas principais ilhas turísticas apresentam perfis distintos: em 2025, a ocupação-cama foi de 77% no Sal e de 106% na Boa Vista, contra 72% na média nacional; a estadia média foi de 4,8 noites no Sal e de 7,0 na Boa Vista. O Sal recebe mais hóspedes e gera mais dormidas em volume; a Boa Vista retém cada hóspede durante mais tempo e registou a ocupação mais elevada do país.


A taxa de 106% na Boa Vista não significa que tenham sido vendidas mais dormidas do que seria fisicamente possível. Ela resulta da forma como o indicador é construído pelo INE, relacionando as dormidas registadas com as camas inventariadas e os dias do período. O caso evidencia, porém, uma questão mais ampla: a qualidade da informação e a capacidade de medir a pressão sobre os destinos tornam-se mais importantes à medida que a escala aumenta.
Para quem opera, a redução da estadia média tem consequências concretas: mais entradas e saídas, mais lavandaria, mais transferes e maior custo de captação por dormida vendida. Inverter esta tendência não é apenas uma questão estatística ou de cada estabelecimento. E, isoladamente, nenhum operador altera a estadia média de um destino. É uma questão de gestão coletiva.
A ilha do Sal representa também o elevado grau de concentração do turismo e a limitada diversificação da procura. Cerca de 82% dos hóspedes e mais de 90% das dormidas mantêm-se concentrados em duas ilhas. O Sal, isoladamente, recebeu 57,7% dos hóspedes do país em 2025 — cerca de 720 mil pessoas —, detém 61,1% das camas nacionais e concentrava, em 2023, 6.472 dos 11.196 trabalhadores dos estabelecimentos hoteleiros do país. As novas ligações da EasyJet a partir de Lisboa e Porto e, posteriormente, à Boa Vista, Praia e São Vicente, representam alterações na conectividade, mas ainda não há dados públicos suficientes para medir o seu efeito sobre a concentração.
O Sal mostra, assim, a diferença entre construir capacidade de oferta e construir capacidade de gestão do destino. Até aqui, hotéis, aeroportos, estradas, equipamentos e serviços públicos permitiram acompanhar o crescimento. O próximo passo é criar uma capacidade sólida para gerir o destino.
Se alguém tem de medir a pressão, gerir fluxos, acompanhar o impacto económico, coordenar investimentos e gerar procura, quem responde por esse resultado? É essa lacuna que uma Destination Management Organization (DMO) pode preencher.
Da diversificação da oferta para a diversificação da demanda
A ambição expressa no slogan “10 ilhas, 10 destinos” é relevante, mas a fórmula de crescimento do Sal é única e não é diretamente replicável. Diversificar exige desenvolver modelos orientados para novos segmentos, menos espontâneos e mais programados.
Neste aspeto, a experiência do Gana é instrutiva. O país mede as visitas a familiares e amigos: 22,29% das chegadas internacionais em 2024, praticamente empatadas com negócios (22,43%) e férias (22,15%). É um indicador simples, mas estratégico, porque torna visível uma procura ligada à diáspora que poderia desaparecer dentro das estatísticas gerais. No mesmo ano, as chegadas de visitantes nigerianos ao Gana cresceram 25%, mostrando também o peso da procura intrarregional.
Cabo Verde tem uma diáspora proporcionalmente muito expressiva, mas não dispõe de uma medição equivalente. Essa procura pode ser particularmente relevante para as ilhas que ficam fora do modelo de turismo de massa. Existe um mercado potencial associado à diáspora cabo-verdiana e africana que não procura apenas praia, mas identidade, história, cultura e experiências com significado. A experiência do Gana mostra que aquilo que não se mede dificilmente se transforma numa estratégia de mercado.
Os produtos combinados entre ilhas podem ser uma das maiores oportunidades da próxima década para aumentar o valor gerado por cada visitante e distribuí-lo melhor pelo território. Quem chega pelo Sal pode conhecer Santo Antão, quem vem a um festival em São Vicente pode prolongar a viagem até Santiago e quem visita o Fogo pode combinar natureza, gastronomia e património.
A conectividade aérea conta uma história semelhante. Em 2019, o Senegal não tinha vantagem sobre Cabo Verde em infraestrutura aeroportuária; hoje Dakar liga o país a 49 destinos em 28 países. Atualmente, Cabo Verde tem quatro portas internacionais, mas não dispõe de uma rede comparável para a África Ocidental continental.
Uma rede aérea regional pode ser simultaneamente infraestrutura turística e infraestrutura de integração económica. Ligar Cabo Verde à Europa, à África Ocidental e às Américas pode ampliar o mercado turístico e, ao mesmo tempo, reforçar a posição do país no comércio de bens e serviços na sub-região.
A próxima década será decidida pela nossa capacidade de aprendizagem
Há outra oportunidade frequentemente subestimada: o turismo como escola de especialização profissional. A discussão sobre mão de obra tende a concentrar-se nos empregos de hotelaria e restauração, mas um hotel moderno precisa também de técnicos de climatização e refrigeração, manutenção, piscinas, jardinagem, segurança, logística, tecnologia, bem-estar, entretenimento e gestão.
A expansão turística pode criar, portanto, uma plataforma de especialização económica muito mais ampla do que o emprego direto no hotel. Cada grande destino turístico pode funcionar como um centro de desenvolvimento de competências técnicas e empresariais.
Empresas de manutenção, tecnologia, serviços profissionais, logística, bem-estar e construção especializada podem instalar unidades nas ilhas onde a procura está. O efeito potencial é multiplicador: mais emprego qualificado, maior oferta de serviços, mais capacidade técnica no destino e maior retenção de valor. Mas esta descentralização depende também de conectividade, custos operacionais e condições fiscais que permitam às MPME operar de forma competitiva. Se o Sal e a Boa Vista concentram grande parte da atividade turística, isso representa um mercado para micro e pequenas empresas hoje concentradas sobretudo na Praia e em São Vicente.
Cabo Verde está a alcançar uma escala turística relevante e pode aprender com os efeitos dessa transformação dos últimos 25 anos. A próxima década não deve ser apenas a década de mais turistas. Deve ser a década de melhores destinos, mais valor local, mais competências e maior integração regional. O Sal mostrou-nos como crescer. A próxima década terá de mostrar se aprendemos a gerir esse crescimento.
*Sou consultor em gestão do desenvolvimento, com 25 anos de experiência em planeamento estratégico e formulação de políticas públicas. Participei na elaboração do diagnóstico técnico do Programa Operacional do Turismo (2022-2026) e do relatório de avaliação do ambiente favorável às empresas sustentáveis em Cabo Verde (OIT, 2025). Escrevo a título pessoal.

