
Por: Bruno Spencer
Já publiquei dois artigos sobre Petit Barry, através das leituras que fiz aos seus livros, como também ouvi várias conferências e palestras que ele deu sobre o regime de Sékou na Guiné Conakry e que encontra-se no You Toube.
Desta vez, vou referir sobre o que ele pensa acerca da figura de Amílcar Cabral, líder do PAIGC, Partido Africano para Independência da Guiné e Cabo Verde, e cuja sede principal situava-se em Conakry, capital da República da Guiné.
Petit Barry estudou em França e foi um elemento destacado da Federation des Etudiants Afrique Noir, FENAC, que existia nesse país. Também foi Vice-Presidente da União Internacional dos Estudantes cuja sede era em Praga, Checoslováquia, país comunista na altura. A FENAC apoiou a Guiné Conakry no seu processo de Independência da França. Também apoiou através do envio de gente formada para socorrer o país.
Por causa das suas posições políticas, Barry foi expulso de França, no tempo em que Michel Debry era Primeiro Ministro e De Gaulle, Presidente da República. Barry regressou à Guiné Conakry e depois foi continuar os seus estudos na Suíça.
Uma vez terminado os estudos, regressou a Guiné Conakry onde ocupou cargos importantes: primeiro trabalhou no Ministério dos Negócios Estrangeiros. Foi diretor da Rádio Difusão, cargo que acumulou com o de Diretor de Gabinete de Imprensa do Presidente Sékou Toure, e deputado à Assembleia Nacional.

Mamadou Barry
Como Barry conheceu Amílcar Cabral?
Barry conta que conheceu Cabral durante uma visita que o líder do PAIGC fez à Rádio onde, na época, os quadros desse partido faziam o trabalho de emissão que chegava à Guiné Bissau e Cabo Verde. Desde então, estabeleceu-se uma grande amizade entre os dois. A inteligência e a vivacidade de Cabral, entre outros atributos, o impressionaram extraordinariamente.
Tanto assim é que, Barry, escritor e poeta, chegou a compor, num dos seus livros, um poema dedicado a Cabral.
Barry também conta que, quando efetuou uma missão de serviço à Itália, Cabral pediu-lhe para que fosse falar com um jornalista italiano, que tinha estado nas zonas libertadas da Guiné Bissau, no sentido de obter as fotos que esse jornalista utilizou em reportagens publicadas nos jornais de então. Barry confirma que satisfez o pedido de Cabral e que ele ficou muito satisfeito com as fotos obtidas.
Cabral era contra prisões
Um outro tema abordado por Barry é o humanismo de Cabral e a forma como tratava os prisioneiros portugueses. O autor recorda que Cabral não gostava de prisões e dizia que o homem não devia ser preso. E, por ironia do destino, recusou-se a ser preso e foi morto.
Neste particular, Barry cita o caso do mais antigo prisioneiro português, António Lobato, aviador capturado pelo PAIGC em 1963. Cabral propôs a sua libertação, desde que fizesse uma declaração pública, dizendo que a luta do PAIGC era justa e não contra o povo português, mas Lobato não aceitou.
Neste mesmo âmbito, Barry também diz que Cabral não gostava que as portas da prisão estivessem fechadas. Conforme fez saber, se as orientações de Cabral tivessem sido cumpridas, os milicianos que guardavam as prisões, nunca seriam massacrados quando Portugal desembarcou em Conakry, em 1970, para libertar os prisioneiros portugueses e destituir Sékou Toure, colocando no poder os aliados de Portugal.
Barry recorda que, nesta operação, conhecida por Mar Verde, as forças portuguesas libertaram todos os prisioneiros portugueses que se encontravam em Conakry.
Barry conta que conheceu Cabral durante uma visita que o líder do PAIGC fez à Rádio onde, na época, os quadros desse partido faziam o trabalho de emissão que chegava à Guiné Bissau e Cabo Verde. Desde então, estabeleceu-se uma grande amizade entre os dois. A inteligência e a vivacidade de Cabral, entre outros atributos, o impressionaram extraordinariamente.
A prisão de Petit Barry
Em 1970, depois da Operação Mar Verde, Sékou aproveitou para fazer uma grande purga no seio do governo e dos altos funcionários do Estado.
Aos opositores que tinham sido presos foi-lhes prometido que seriam libertados desde que fizessem uma declaração na rádio, denunciando os seus cúmplices. Essa promessa de libertação não aconteceu porque todos foram condenados à morte.
Barry, que era um dos opositores, ficou aflito e triste quando ouviu o seu nome na rádio. Deixou de ir ao Palácio para trabalhar com o Presidente e não sabia o que fazer. Em 1971 acabou por ser preso.
Cabral tentou evitar a prisão de Barry
Numa altura em que Barry vivia mergulhado na tristeza e sem vontade para trabalhar, Cabral chegou a levá-lo até ao Palácio de Sékou Toure na tentativa de evitar que fosse preso.
Na ocasião, o Presidente da Guiné Conakry garantiu a Cabral que Barry era um quadro da revolução em quem tinha toda confiança e que nada iria acontecer com ele.
Cabral manifestou ao Presidente Sékou Toure que estava-se a assistir a uma agressão psicológica, considerando que, ao contrário de um muro que pode ser reposto depois de ruir, um homem dificilmente recuperaria de tamanha agressão psicológica.
Na ocasião, Cabral alertou ao Presidente Sékou Toure que se continuasse a atacar os seus quadros estaria a pôr em causa a própria revolução na Guiné Conacry e pediu-lhe que o processo de prisões que estava em curso contra pessoas como Barry fosse parado.
Cabral obteve do Presidente Sékou Toure a garantia de que Barry não seria preso. Inclusive, Barry recorda, com prazer, o convite que Cabral lhe fez para que fosse trabalhar com ele quando a Guiné Bissau fosse independente.
Infelizmente, o desejo de Cabral nunca seria concretizado por duas razões: Barry acabaria por ser preso em 1971, tendo passado sete anos e meio na cadeia, enquanto que Cabral acabaria por ser assassinado em 1973.
Causas do assassinato de Amílcar Cabral
Petit Barry aponta as seguintes causas que podem estar na origem do assassinato de Amílcar Cabral:
1.Divisão no seio dos combatentes do PAIGC. A maioria deles eram guineenses e negros e os combatentes cabo-verdianos eram minoritários e mestiços. Os altos dirigentes do PAIGC eram cabo-verdianos. Essa divisão pode estar na origem da morte de Cabral;
2.A mão de Portugal. Portugal negociou com os combatentes da Guiné, dizendo que estaria disposto a dar a independência da Guiné desde que os guineenses separassem dos cabo-verdianos. Os cabo-verdianos eram considerados comunistas e Cabo Verde nunca seria independente porque ali iria ser instalada uma base militar da OTAN (Organização Tratado Atlântico Norte).
3.A mão de Sékou Toure. Cabral gozava de prestígio que incomodava a Sékou. Era recebido em toda parte, falava e discursava nas Nações Unidas, foi recebido no Congresso dos Estados Unidos e recebeu o prémio Lenine em Moscovo. Além disso, o PAIGC recebia ajuda internacional, militar, diplomática e outras. Cada vez mais isolado, Sékou não se sentia bem, as grandes cabeças o incomodavam.
Petit Barry afirmou ainda que Amílcar Cabral, vivendo em Conakry, merecia a proteção das autoridades da Guiné Conakry. Disse que Fidel Castro, na altura, líder de Cuba, tinha chamado atenção das autoridades guineenses no sentido de se dar a devida proteção ao líder do PAIGC.

