A obra de Virgílio Pires é um território literário ainda por explorar. O escritor natural da Praia vai ser homenageado na 14ª edição do Encontro de Escritores de Língua Portuguesa, a realizar na Praia, hoje e amanhã. Autor de contos breves, mas de grande densidade humana, a sua literatura fala de pobreza e esperança, de partida e pertença, de sofrimento e dignidade. Para os seus admiradores, é justamente nessa capacidade de fazer do pequeno drama individual uma expressão de uma experiência colectiva que reside uma das razões para recuperar, ler e estudar Virgílio Avelino Pires.
Virgílio Avelino Pires nasceu a 25 de Abril de 1935, na cidade da Praia, ilha de Santiago, o terceiro dos onze filhos do casal Teresa Cabral Pires e Henrique Avelino Pires. ‘Djila’, como foi conhecido pela família e pelos amigos, faz os seus estudos primários na ‘Escola Grande’, na Praia, entre 1942 e 1947. Mas é a juventude em Santa Catarina que irá alimentar o imaginário de grande parte dos cenários, personagens e histórias dos seus contos.
Durante a sua passagem pelo Liceu Gil Eanes, em São Vicente, Baltasar Lopes (que conhecera o seu pai no Seminário-Liceu de São Nicolau) será o primeiro a reconhecer a qualidade literária dos textos de Virgílio Pires, ao publicar os seus contos nos dois últimos números da revista Claridade, num esforço geracional que passou por chamar à revista jovens como Virgílio, Corsino Fortes, Gabriel Mariano, Ovídio Martins, entre outras futuras promessas de então. O autor de Chiquinho irá também selecioná-los para fazerem parte da conhecida Antologia da Ficção Cabo-verdiana Contemporânea, que organiza com Manuel Ferreira e António Aurélio Gonçalves.
Vida profissional e familiar
Terminado o liceu, Virgílio Pires ingressa na função pública e fica em São Vicente até 1960. Na Praia, para onde é transferido, conhece a sua futura mulher, Maria de Lourdes Barbosa Amado, passando a viver na Achadinha, no Bairro Craveiro Lopes, onde nascem os primeiros filhos. A família depois passa a viver entre a Praia, Assomada e Tarrafa, sendo Virgílio Pires funcionário administrativo.
Em 1964, Virgílio Pires parte para Angola com a família, onde o escritor terá a função de administrador de posto, durante quase treze anos, e ver nascer aí mais dois filhos. Na colónia portuguesa será colocado em diversas localidades do sul e sueste de Angola. Em 1975, é forçado a abandonar o Posto, por ocupação por um dos movimentos de libertação. Em Junho de 1976 é colocado no Posto Administrativo da Catumbela, concelho do Lobito, em Benguela, último posto por ele ocupado, e onde ficará até Junho 1977.
A separação da mulher e de dois dos seus filhos, em 1971, vai deixar profundas marcas em toda a família. Virgílio dará testemunho disso num pungente e afetuoso poema natalício, «Natal no Exílio», datado de 22-12- 81, dedicado aos dois filhos mais novos, “Mady e Victor” (Haideia e Víctor), de quem se havia separado dez anos antes, cujos versos começam: “Vós estais sempre comigo/no pensamento/e no coração”.
O tema do ‘exílio’, no título do poema, estará sempre presente na vida do escritor, mágoa que ele carregará, e se acentuará, após a partida definitiva de Cabo Verde, em 1977. Depois da independência de Angola, em 11 de Novembro de 1975, Virgílio Pires permanece ligado à administração angolana nas mesmas funções administrativas que desempenhava anteriormente, mas agora ligado ao Ministério da Administração Interna daquele país.
Neste seu segundo regresso a Cabo Verde, que se esperaria mais auspicioso, provavelmente com a ideia de aqui trabalhar, Virgílio fica pouco mais de dois meses. Parte de seguida para Portugal, sozinho. E, de acordo com familiares e amigos, desiludido com a situação política que encontrou. Para José Cunha, autor de um livro sobre o autor, a sair brevemente, Virgílio teráficado desapontado com o que presenciou e viveu, nos dois anos seguintes à independência de Angola, por ter encontrado a sua terra mergulhada num clima político opressivo, que negava as liberdades básicas, e de que resultam divergências insanáveis com o regime de partido único.
Joaquim Arena
Leia mais na Edição 997 do Jornal A Nação, de 08 de Outubro de 2026

