A “perda total da eficácia de travagem por fadiga térmica severa” é apontada como a causa direta e determinante do acidente rodoviário de 5 de setembro, passado, no Fogo, e que provocou 25 mortos e vários feridos, sobretudo crianças e adolescentes.
Conforme avança o Balai, o inquérito técnico-administrativo ao acidente foi divulgado esta segunda-feira, 12, na Praia, e identificou uma cadeia de falhas mecânicas, administrativas e de infraestrutura.
Há seis meses com inspecção obrigatória caducada
A informação foi avançada pelo diretor-geral dos Transportes Rodoviários, Emanuel Almeida, aos jornalistas, dando igualmente conta que a viatura circulava há seis meses com a inspeção técnica caducada. No dia do acidente houve excesso de passageiros e o veículo apresentava alterações artesanais no sistema de travagem.
A viatura tinha realizado a última inspeção técnica a 30 de novembro de 2025, com validade até 28 de fevereiro de 2026 e o acidente aconteceu a 5 de setembro e o prazo para a inspeção obrigatória estava ultrapassado há cerca de seis meses.
Emanuel Almeida defende que a responsabilidade pela segurança não cabe apenas às autoridades fiscalizadoras, mas que também é dos cidadãos.
Segundo a investigação, a utilização contínua dos travões por parte do condutor durante uma descida prolongada provocou uma acumulação excessiva de calor, a dilatação dos tambores e a consequente perda de atrito, tendo como consequência a perda de travagem da viatura.
A comissão identificou ainda desgaste severo no sistema de travagem, soldaduras e adições metálicas artesanais que alteraram a geometria original dos componentes, além da ausência de travão auxiliar por escape e de anomalias no sistema direcional.
“Em relação ao veículo, havia 322 milímetros em termos do limite máximo e a medida encontrada foi de 325 milímetros em relação aos tambores de travão.”
Excesso de lotação
Outro ponto salientado é que o autocarro transportava 38 passageiros, oito acima da capacidade autorizada (30). Segundo Emanuel Almeida, a superlotação aumenta a massa do veículo e a energia cinética, elevando a solicitação sobre os travões durante a descida.
O relatório também aponta a falta de sistemas de proteção capazes de reduzir as consequências de uma perda de controlo do veículo, numa via que, segundo o relatório, tem um cenário de alto risco, com 773 metros de desnível, com 25 km de percurso.
“É uma via de elevada exigência, exige proteção combativa também com o risco. A ausência de barreiras metálicas, muros ou outros sistemas de contenção passiva, portanto, exigia-se nesta via.”
Em termos de fator humano, a comissão afasta a hipótese de negligência voluntária do condutor e também de crise hipoglicêmica incapacitante, tendo em conta que o condutor era diabético.
Reforço da fiscalização
Entre as recomendações apresentadas estão a instalação de um centro de inspeção permanente na ilha do Fogo, a instalação de tacógrafos digitais, o reforço da fiscalização pela Polícia Nacional e pela Direção-Geral dos Transportes Rodoviários, bem como o controlo da lotação dos veículos.
Segundo a mesma fonte, o governo está também a articular intervenções com as Estradas de Cabo Verde (ECV) e a Câmara Municipal de São Filipe, incluindo a possibilidade de limitar a circulação de viaturas pesadas de passageiros no troço em causa.
Recorde-se que a tragédia aconteceu a 5 de setembro, quando um autocarro com 38 passageiros caiu numa ravina acentuada, quando regressava de uma visita ao vulcão, em Chã das Caldeiras, na zona de Campanas de Cima, provocando 25 mortes e 13 feridos.
c/BALAI

