
Por: João Serra*
Num ensaio intitulado “Crescimento ou Desenvolvimento?”, publicado no jornal português ECO em 25 de agosto de 2026, Carlos Costa, antigo Governador do Banco de Portugal, colocou ao seu país uma questão que Cabo Verde tem ainda mais razões para enfrentar: a questão não é se a economia cresce, mas para onde se dirige esse crescimento. Crescimento é uma questão de quantidade – mais camas, mais dormidas, mais trabalhadores, mais volume. Desenvolvimento é uma transformação qualitativa da estrutura produtiva e das instituições que a enquadram, e mede-se pela capacidade de gerar, reter e distribuir valor acrescentado.
A economia cabo-verdiana terá crescido 6,3% em volume em 2025, segundo o Instituto Nacional de Estatística, e o Banco Mundial projeta 4,8% para 2026, na sua Atualização Económica de julho passado. São números bons. Mas, por si sós, não respondem à pergunta essencial: está Cabo Verde apenas a crescer ou está, de facto, a desenvolver-se?
A distinção fundamental feita por Costa contrapõe o setor exposto à concorrência internacional, obrigado a gerar ganhos contínuos de produtividade, ao setor protegido, que pode subsistir de rendas extraídas na ausência de concorrência.
Em Cabo Verde, esta fronteira tem um traçado peculiar e mais perigoso: o nosso principal setor exportador é, simultaneamente, consumidor intensivo de fatores de oferta rigidamente limitados – solo, água, energia e trabalho local. O turismo gera as divisas e, ao mesmo tempo, encarece os recursos de que qualquer outra atividade transacionável necessitaria para nascer. É uma forma de doença holandesa a operar dentro da própria base exportadora, o que torna a diversificação não uma preferência de política, mas uma condição de sobrevivência.
Os dados do investimento revelam essa concentração com nitidez desconcertante. Segundo o Banco de Cabo Verde, no primeiro trimestre de 2026, o investimento direto estrangeiro atingiu 3.837,5 milhões de escudos, mais 9,4% do que no período homólogo, e 90% desse montante dirigiu-se ao turismo e às atividades imobiliárias.
Ora, como sublinha Carlos Costa, importar capital para expandir a capacidade instalada é simples; gerar, através desse investimento, as divisas necessárias para remunerá-lo é o que distingue o desenvolvimento do mero sobre-endividamento. Mas nem todo o investimento gera o mesmo valor para a economia que o recebe. A questão decisiva é quanto valor acrescentado cria, quanto dele fica no país e que ligações estabelece com o tecido produtivo nacional.
Não basta saber se a economia cresce; é preciso decidir que transformação queremos obter desse crescimento. Para Cabo Verde, a resposta passa por fazer do crescimento não apenas uma acumulação de volume, mas um processo de criação de produtividade, valor acrescentado e melhores salários. Só então poderemos dizer que estamos, de facto, a desenvolver-nos
Um resort que replica um modelo concebido no estrangeiro, importa a alimentação que serve e repatria os lucros gera pouco valor acrescentado local e paga salários baixos; um investimento que incorpore conceção, tecnologia, marca e fornecimento nacional gera mais valor e tem maior capacidade para remunerar trabalho, capital e fornecedores nacionais. Continuamos a captar sobretudo o primeiro tipo, e depois estranhamos que o crescimento não chegue aos salários.
Porque não chega, é hoje mensurável. O salário mínimo nacional situa-se entre 17 e 19 mil escudos, ao passo que o Índice de Consumo Essencial calculado pela ADECO em março de 2026 aponta para 33.156 escudos na Praia, 34.908 no Sal e 24.856 em São Vicente – um défice que varia, consoante a ilha, entre 23,6% e 51,3%.
A comissão tripartida criada pelo Governo anterior discutiu uma atualização até 25 mil escudos. Seria uma medida socialmente justa, mas economicamente insuficiente, porque, sem um correspondente aumento da produtividade, parte desse aumento nominal pode ser repercutida nos preços pelas empresas mais protegidas da concorrência externa, que dispõem de maior poder de mercado, e pressionar as que competem no exterior, que não dispõem da mesma margem. É, como escreve Costa, uma faca de dois gumes.
A raiz do problema está no fator humano, e aqui Cabo Verde apresenta uma variante onerosa do mecanismo descrito por Arthur Lewis. Quando a abundância de trabalho de baixo custo reduz o incentivo ao investimento em capital e organização, a economia pode crescer sem aumentar suficientemente a produtividade. Cabo Verde parece combinar as duas faces desse processo: exporta os quadros qualificados que forma – na saúde, na hotelaria, na engenharia – e importa da sub-região trabalho pouco qualificado para a construção e os serviços.
Com uma média de apenas 6,1 anos de escolaridade na população adulta, segundo o Relatório do Desenvolvimento Humano do PNUD 2025, e 64,6% dos jovens dos 15 aos 35 anos a declararem intenção de emigrar no Inquérito Multiobjetivo Contínuo de 2025, o país financia a formação de capital humano cujo retorno é, em grande parte, colhido noutras economias, enquanto perpetua internamente métodos de trabalho que dispensam qualificação. É crescimento extensivo na sua forma mais pura: somam-se efetivos em vez de se acrescentar valor por trabalhador.
É precisamente aqui que surge outro desalinhamento do desenvolvimento cabo-verdiano. A economia e o país mudaram mais depressa do que alguns dos comportamentos e padrões de organização que sustentam uma economia moderna. O crescimento do turismo, da urbanização, do rendimento e da circulação de pessoas não foi acompanhado, no mesmo ritmo, por uma cultura de pontualidade, cumprimento de compromissos, qualidade do atendimento, respeito pelos contratos e sentido de responsabilidade perante os bens e os espaços coletivos.
A isso soma-se a degradação do espaço comum – lixo, ruído, ocupação abusiva, insegurança urbana –, que deprecia o ativo que vendemos ao mundo e eleva os custos de transação de toda a economia.
O que tantas vezes é tratado como uma questão de costumes é, na verdade, também uma questão de produtividade e de valor acrescentado. Por isso, não pode ser remetido para o domínio do acessório ou tratado como um problema secundário. Faz parte das condições que permitem transformar crescimento em desenvolvimento. Isso exige instituições que funcionem, regras que sejam cumpridas e políticas públicas capazes de premiar o mérito, penalizar a ineficiência e orientar o investimento para atividades de maior valor acrescentado.
É aqui que a questão deixa de ser apenas económica e passa a ser também política. O desafio já não é apenas reconhecer as dificuldades, mas criar as condições para as enfrentar.
A verdadeira escassez do País não reside na ausência de diagnóstico, mas na falta de coragem política e de visão de médio prazo necessárias para o enfrentar. É, no fundo, a pergunta que Carlos Costa deixou lançada: não basta saber se a economia cresce; é preciso decidir que transformação queremos obter desse crescimento. Para Cabo Verde, a resposta passa por fazer do crescimento não apenas uma acumulação de volume, mas um processo de criação de produtividade, valor acrescentado e melhores salários. Só então poderemos dizer que estamos, de facto, a desenvolver-nos.
Coimbra, 11 de outubro de 2026
*Doutor em Economia
Blog: https://economianaserra.blogspot.com

