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O formalismo no sistema educativo cabo-verdiano

Por: Olímpio Tavares*

Em Cabo Verde, nos diferentes subsistemas de ensino, básico, secundário e superior, há uma ideia comum, transversal a professores, alunos, gestores e encarregados de educação, de que aquilo que se ensina nas escolas é, basicamente, para ter notas e obter um certificado no final de um determinado ciclo de estudos, e que posteriormente servirá para concorrer a uma vaga de emprego.

O processo educativo que suporta isso põe ênfase na memorização acrítica de regras, fórmulas e outros conteúdos em detrimento de uma verdadeira compreensão, aplicação prática do conhecimento, capacidade de análise, de avaliação e de criação. 

O intento desta reflexão é mostrar até que ponto essa prática formalista, por si só, pode ser nociva para o aluno, para o professor, e para o desenvolvimento do país, em geral. 

O problema central, a meu ver, não é a formalidade do processo em si, desde o início até ao fim, mas o conteúdo e a relevância que suporta todo esse processo, tendo em conta que o propósito maior prometido nas diversas legislações educativas é que haja uma aprendizagem efetiva dos alunos em todos os subsistemas. E isso na maior parte das vezes não acontece. 

Nas próximas linhas debruçarei sobre alguns dos motivos que estarão por detrás desse problema e tentarei dar a minha sugestão de melhoria.

Avaliação excessivamente sumativa

A avaliação das aprendizagens em Cabo Verde é excessivamente sumativa em prejuízo de uma avaliação formativa, que é aquela que contribui verdadeiramente para aprendizagem significativa dos alunos. 

O problema não está na avaliação sumativa em si, que tem a sua relevância no contexto geral da aprendizagem dos alunos, está em negligenciar os instrumentos da avaliação formativa, que são fundamentais para o professor aferir a eficácia e eficiência daquilo que ensina, e por outro lado, permitir ao aluno estar atualizado em relação ao seu nível de aprendizagem. 

O uso excessivo da avaliação sumativa, nomeadamente testes e exames, faz com que os alunos não estudem efetivamente para aprender, mas apenas para memorizar regras, fórmulas e outros conteúdos para despejar de forma acrítica nos testes sumativos. 

A minha sugestão para equilibrar a avaliação sumativa e formativa, tendo em conta o nosso contexto, é que se diminua o número das avaliações sumativas, que se reduza o peso dos testes sumativos para 30% nos diferentes subsistemas, que se introduza o teste oral em todas as disciplinas, que se diminua a extensão dos programas, no qual falarei mais a frente. 

Em Cabo Verde há uma ideia comum de que aquilo que se ensina nas escolas é, basicamente, para ter notas e obter um certificado no final de um determinado ciclo de estudos. (…) O uso excessivo da avaliação sumativa, nomeadamente testes e exames, faz com que os alunos não estudem efetivamente para aprender, mas apenas para memorizar regras, fórmulas e outros conteúdos para despejar de forma acrítica nos testes sumativos 

Modelos de formação docente tradicional

O modelo de formação de professores em Cabo Verde é muito teórico e pouca prático. Isso faz com que os professores quando entram no sistema educativo enfrentem várias dificuldades para materializar aquilo que aprenderam na universidade. Supostamente aprendem como dar aulas, mas têm poucos momentos de simulação de uma aula, na própria formação. Essa simulação, caso existisse, permitiria ao futuro professor preparar para as mais diversas situações que ocorrem nas salas de aula. 

Outro aspeto da formação que precisa ser revisto é o ensino excessivamente expositivo. Oiço relatos de professores formados nas universidades que dizem que uma parte significativa dos seus professores se limitaram a passar PowerPoint, acompanhado de comentários superficiais. E quando questionados pelos alunos remetem-lhes para a pesquisa na internet, sem mais. 

A minha sugestão para melhorar a formação de professores passa por contratar professores formadores que tenham para além do domínio científico da disciplina, tenham um domínio pedagógico que faz com que pratique um ensino para aprendizagem efetiva dos futuros professores. 

Outra sugestão passa por ensinar aos futuros professores de forma critica, promover a autonomia de pensamento, ensinar conteúdos que realmente necessitam para terem domínio cientifico-pedagógico da disciplina em causa.

Outra sugestão ainda passa por promover estágios a partir do segundo ano de formação, nas devidas proporções, e não apenas no último de curso. Isso é importante porque permite ao futuro professor sair da formação com pelo menos 3 anos de treino pedagógico-científico. 

Extensão dos programas disciplinares

Em geral, os programas disciplinares são extensos e muitas vezes com conteúdos mal estruturados. Em relação à extensão, é preciso dizer que havendo provas nacionais, exames e provas concelhias, o professor fica pressionado para cumprir o programa, para que os seus alunos não fiquem prejudicados nessas provas. 

O problema de um programa extenso é que obriga o professor a ser superficial naquilo que ensina e acaba por comprometer a aprendizagem significativa do aluno. 

Relativamente aos conteúdos mal estruturados, é notório em várias disciplinas que esses conteúdos foram, na maior parte das vezes, despejados ali, sem nenhum critério plausível que justifique. 

O que é certo é que os professores têm a obrigação de se desenrascarem, seja lá como for. O que conta é cumprir o programa, independentemente do que lá está, fazendo jus a mais um princípio do formalismo, cumprir, cumprir, cumprir, independentemente da relevância, uma espécie de fazer de conta. 

Isto sem falar em disciplinas que funcionam sem programas, e que obriga o professor a fazer um verdadeiro milagre científico e pedagógico.  

A minha proposta neste item: o Ministério da Educação deve ouvir os professores antes de fazer os programas, isto tem razão de ser porque os professores têm a experiência da aplicação dos programas nos seus mais diversos aspetos, sabe o que funciona e o que não funciona, sabe o que é adequado e o que é excessivo, sabe qual a melhor estruturação lógica para o nível em causa.

Após auscultar os professores, o ministério deverá contratar pessoas que têm provas dadas em desenvolvimento curricular para fazer um programa de acordo com a realidade do país, porque não adianta termos um programa que depois não temos condições para materializá-lo; os programas devem seguir a lógica de profundidade (verticalidade) em detrimento de superficialidade (horizontalidade), porque o mais importante é que o aluno consiga compreender e aplicar os conhecimentos aos contextos do dia a dia, a transferência, ou seja, o permita compreender e interpretar a realidade, quer seja a sua própria pessoa quer seja o mundo que o rodeia. 

Para que tudo isso aconteça há necessidade de ter programas focados no essencial, de forma que o professor possa aprofundar os temas, utilizar os instrumentos da avaliação formativa, e ter alguma segurança em relação à aprendizagem dos alunos. 

Burocracia excessiva

Grande parte da burocracia no sistema de ensino está ligado à preparação para os testes e para as provas concelhias e nacionais, e exames. Aliás, tal como dissemos no início, todo o sistema tem como objetivo principal atribuir notas aos alunos, tendo como suporte principal os diversos tipos de testes. Cada teste, seja de que índole for, é acompanhado de um conjunto de processos burocráticos, que envolvem várias pessoas, desde o professor da turma, o coordenador da disciplina, o subdiretor pedagógico, o coordenador concelhio. Isso sem contar com a famosa preparação para o teste e a correção do teste, que é necessário, mas que pode ser feito noutros moldes e de forma mais célere e eficaz. 

Outro aspeto da burocracia excessiva é a cultura de registo de presença por tudo e por nada, mesmo que a presença do professor ou aluno seja completamente dispensável. Ou seja, tem que estar presente só porque tem que estar. Nota-se também a burocracia excessiva quando se pretende resolver um problema pontual, e muitas vezes de fácil resolução, opta-se por fazer um projeto, que envolve pessoas, que exige financiamentos ou não, e gasta-se muito tempo para finalizá-lo. Alguns desses projetos nunca chegam ao fim, e se chegarem falta condições para as implementar. 

A minha sugestão para minimizar a burocracia excessiva no sistema de ensino é fazer uma pergunta simples: o que pretendemos fazer ou estamos a fazer em quê que contribui para a aprendizagem efetiva dos alunos e em quê que contribui para a melhoria da qualidade de ensino do professor? Se resposta for negativa, temos de pensar numa forma mais prática de fazer as coisas. Porque preencher papel que depois não tem nenhuma eficácia do ponto de vista prático é pura perda de tempo, que poderia ser empregue noutra coisa necessária.

*Mestre em Supervisão Pedagógica

omendes2030@gmail.com

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